café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Porque desativei meu Instagram

O melhor conselho que você vai ouvir hoje: sobre como voltar a olhar para fora.


Empresa aluga jatinho, e cliente tira foto sem sair do chão para ostentar na rede social”. Parece notícia do sensacionalista, mas não é. Abri o portal de notícias e acreditei estar diante de algum anúncio sobre Black mirror. Negativa novamente.

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Tratava-se de uma notícia real, inclusive com fotos ilustrativas. Chega, pensei. É o fim. E então, em um movimento de reflexão interna, me pus a pensar em quanto eu era cúmplice dessa gangue e o que eu andava fazendo da vida.

Com certeza lendo muito menos, saindo muito menos, vendo poucos amigos esporadicamente. Há um tempo sofria de uma indisposição crônica, minha cama era atraente e realmente perdia as horas enquanto passava os dedos. A sensação de passar os dedos na tela, aliás, é reconfortante, confesso. Entre um trabalho e outro, um episódio ou outro da série, uma garfada e outra, é como se nossas mãos gritassem por um movimento derradeiro do seu polegar para baixo – ou de qualquer outro dedo disponível. Descer ladeira abaixo no feed da sua rede social é um sentimento emergente com necessidade urgente, beirando a uma síndrome de abstinência gravíssima, com um agravante: surge ainda quando sua última atualização foi há quarenta e três segundos atrás.

Aguarda-se na fila do check-in, no meio da consulta médica, no balcão de informações, enquanto se entrega a passagem para o motorista do ônibus, quando o contador calcula seu troco, enquanto o garçom tira seu pedido no restaurante: qual o problema de uma checadinha no instagram?

Ainda quando seu amigo fala sobre sua última decepção no trabalho, enquanto seu chefe pede para que você cheque um e-mail que a empresa acabou de enviar, quando diz ao seu namorado que vai dar um Google para ver a foto da atriz sobre a qual ele está falando e você não se lembra bem quem é: que mal tem dar uma olhadinha?

Uma música legal está tocando, acordou no meio da madrugada e ficou sem sono, passaram-se quinze minutos e ainda não conseguiu dormir, joga um lençol em cima da bagunça da cama para parecer um desarrumado despretensioso, finge que está olhando para o mar, dá uma colherada no sorvete de banana para o ângulo da foto sair melhor, não faça histórias bêbado porque assim você perde seguidores, joga um granulado e inventa uma hashtag, diz que é fitness, poste para provocar fulano, deixe o mundo saber que você esteve em Trancoso há dois meses, ele não precisa saber que não foi hoje.

Absolutamente tudo se torna postável. Dia desses postaram a foto de um velório e foi uma polêmica, mas tem gente postando foto de tudo que é coisa e é absolutamente normal. Antes de sentir o cheiro e o gosto do prato que chegou do restaurante, é preciso tirar uma foto. O que não fica bonito na imagem, não tem lá seu valor. As experiencias passam a ser selecionadas com base no quão inspiráveis são em uma rede social, na qual os que vencem a batalha de quem-tem-mais-seguidores. quem-ganha-mais-presentes, “quem-influencia-mais” nem sempre são tão responsáveis com você, consumidor de toda essa parafernália.

Já sabemos que ninguém posta a parte ruim no instagram, não é? A não ser que isso renda uma sacada de marketing. Se sabe que o ser humano depende de troca, de partilhar experiências. Mas é também sabido – e foi pensando nisso que minha ficha caiu – que viver verdadeiramente e por inteiro qualquer experiência não cria brecha para o “pera aí, rapidinho, deixa eu tirar uma foto”.

Uma vez que essa brecha é criada, esquece. Sua memória não vai ser a mesma, os detalhes gravados não serão os mesmos. Sua mente, certa daquele registro, automaticamente não vai reter os detalhes desnecessários, eles já estão salvos nas nuvens.

Sente-se menos. Vive-se menos. O mundo não para enquanto você usa o celular, o tempo não se interrompe enquanto você desliza seu dedo, e a cada minuto que você perde atrás de uma tela, milhares de pessoas passaram por você. Você perdeu diversas experiências, e não sabe. Você deixou de prestar atenção em um prédio bacana, deixou de recordar a nostalgia daquela música que foi especial, não lembrou da cara daquela amiga que você não sabe bem por onde anda e nem sentiu saudade do seu ex-namorado. Além disso, de quebra você está oficialmente um minuto mais perto de morrer. Veja bem e não se esqueça disso: você não está vendo a vida passar enquanto se plota em uma vida artificial e, ironicamente, morta.

Quando você posta absolutamente todo momento do seu dia, interage unicamente pelas redes sociais, só conversa com seus amigos pelo whatsapp, uma parte importante se perde: você está vivendo de dentro de um caixão.

As pessoas – e eu me incluí nisso ao tomar a tal decisão - não internalizam mais suas experiências. Elas postam sua vida, editada e com filtro, e passam a viver uma realidade editada, falsa e a vida exatamente como elas gostariam que seus dias fossem, mas não são. Isso gera uma frustração constante e diária, que gera uma comparação burra: você se compara ao fulano que está na Grécia e que também não está feliz. Você fica contente ao ler comentários positivos sobre a foto que postou com a mesma blusa que aquela blogueira famosa usou, e por um momento se convence de que sua vida está tão louvável quanto a dela, com exceção de que a dela também não está – você só não sabe disso. Vive-se em buscar de padrões cada vez mais inalcançáveis, de uma cintura cada dia mais fina e um dente diariamente mais branco, que são inalcançáveis por se tratar - quase sempre- de Photoshop. E também quase nunca você se toca disso, se sente deprimido e frustrado sem saber bem o porquê.

Olha quem passou. Não sabe quem é? Fulano, tem quatrocentos mil seguidores? Ah sim, perdão mundo por não saber quem é o novo Machado de Assis.

Não destoa tanto de quando sua avó dizia “senta aqui todo mundo e vamos ver esse álbum de aniversário”, e dá-lhe foto, guela abaixo. Álbuns de jovens são raridade, vó. Até mesmo os seus, já que agora você está no Instagram.

Muitos se consideram malsucedidos por não ganharem roupas, joias, sapatos e passagens “gratuitamente”, como os blogueiros. Muitos deles, por sua vez, não tem a menor responsabilidade em pensar que estão gerando no outro um desejo de consumo constante, abusivo e dilacerante. Não pensam que um padrão de beleza se perpetua com base em fotos e realidades editadas, que todos estão muito bonitos e que existem meninas de quinze anos programando a próxima sessão de preenchimento em uma clínica mais barata.

Dia desses minha amiga disse que, longe do celular, no meio de um procedimento em que não podia se levantar para checa-lo, viu algo pela janela e se pôs impaciente e aflita por não ter tido tempo de fotografar e postar. Como o mundo não poderia ver aquilo, compartilhar daquilo, meu Deus? Todos tinham que ver. Mas não tinham! Vivemos tempos de dúvida, em que nossa palavra não vale mais nada. Contar as coisas não tem mais a mesma graça, se trata de “tome, veja você mesmo, te mando o print”. E alguém, do outro lado da tela, desliza o dedo e passa indiferentemente por aquele momento tão especial para você, mas tão sem entonação para ele.

Ninguém percebe que estão todos deprimidos, se comparando a outra dúzia de deprimidos que tem a vida perfeita na rede. Tão pouco pensam que ter vinte mil seguidores não significa ter embasamento ou conhecimento para falar atrocidades as quais você, eventualmente, torna-se disposto a seguir, sem questionar.

Aderir à dieta nova, à saia midi da nova moda, ao restaurante caro que vai pesar na conta no fim do mês vão tornar seu feed maravilhoso, mesmo. Mas e sua vida, fica aonde?

Aonde fica a vida quando não existe mais sinestesia? Onde o visual roubou todos os outros sentidos de forma tão descarada? Aonde fica a vida em que escolhas são feitas sem tato, literalmente? Em que as pessoas escolhem seu mais novo romance por um catálogo virtual e quando marcam o primeiro encontro checam seus smartphones entre uma respirada e outra?

Qual cena quero viver em que metade do tempo vemos pessoas de desconfigurando para bater selfies?

Qual vida quero ter em que não tenho meus segredos, ou ao menos finjo não os ter?

Desfiz meu Instagram pessoal, mantenho o profissional.

Não sigo mais blogueiros e blogueiras. Não quero mais influencers na minha vida. Pedi alforria, e no meio de tantas telas, não desgostosamente resolvi ficar sozinha.

Me sinto mais feliz, livre, sinto cheiro, gosto e som. E toco as coisas, e as coisas me tocam.

Na tentativa de não olhar para dentro, as pessoas compartilham.

Torço para que um dia não veja nas notas do celular de alguém: “quem sou eu, para caso alguém pergunte e eu me esqueça.”


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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