café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Coragem ubíqua

A coragem é o impulso que você pega para alçar o seu vôo, qualquer que seja. Talvez dê certo, talvez não, você inevitavelmente vai ter que lidar com o medo e com os fatos ao final do salto. Mas o caminho é indescritivelmente belo e prazeroso, e o caminho…você nunca mais se esquece.
Larguei a caneca de café, levantei do sofá, respirei fundo: meus pés ainda estavam no chão e era só isso que eu precisava para pular.


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Dia desses, diante de uma dessas dúvidas sobre fazer ou deixar de fazer e possíveis arrependimentos futuros ou passados, um grande amigo me aconselhou: pula logo, você está na beira do morro e ensaiando esse pulo há quanto tempo?

Essa colocação, em especial, pegou fundo na alma e foi dessas que te coloca sentada no sofá, com uma caneca de café, decidindo se está atordoada o suficiente para ignorar a frase, a informação e tudo que vem junto ou se puxa logo o bandaid, se debruça na situação e toma uma decisão. A última opção sem dúvidas seria pular do penhasco e o somático te diz internamente e gritando: absolutamente não.

Por que? Ficou louca, perdeu o juízo, vai pular de um penhasco para quê? O corpo entra em recusa, faz birra, resolve começar cada ínfimo peristaltismo passível de ser iniciado e você sente tudo de uma vez só já que no fundo você já sabe que vai pular. Ele também sabe. Ele tão sabe que faz você sentir náuseas, dor de barriga, dor nas costas, palpitação, suor demais, fome demais, medo demais, fuga demais. Seu corpo compra essa briga tão forte que você chega a pensar se é ele é só uma criança birrenta ou se ao fim de tudo você só bebeu muito café. Olha para frente e as palavras ecoam, do fundo do coração, “estou na beira do morro”. Ai meu Deus, cheguei na beira do morro.

Mas uma parte pequenininha, do fundo da alma, ela diz: coragem. É uma voz que começa fraquinha, ela cochicha. Você tem que silenciar para ouvir e chega a duvidar daquilo. Mas ela planta uma semente e você sabe que o dia vai chegar, o dia em que você vai acordar com a certeza e decisão tomada, amarrar o cadarço do sapato já sabendo, empoderado de coragem sabe-se Deus da onde, por que de dentro você que não veio. Só que veio. Coragem é uma palavra forte. É um substantivo feminino. Moral forte perante o perigo, bravura, intrepidez. Firmeza de espírito para enfrentar situação emocional ou moralmente difícil. É isso o que diz no dicionário.

Mas além de pré-definições possíveis que acharíamos facilmente em uma pesquisa no google, coragem é uma palavra grandiosa por que é carregada de sentimento, de lembrança. Não tem nada melhor do que ter memórias de coragem. Mais forte e bravo ainda é reconhecer que se teve coragem, por menor que isso soe aos seus olhos. Quando eu era criança, coragem era pular na piscina. Para você pode ser pegar um trem para uma cidade grande, andar na rua sem se sentir ameaçado, comprar algo com medo de faltar dinheiro no fim do mês, dizer não aos seus filhos, dizer não a qualquer pessoa. Coragem são conquistas que, quando somadas, apropriam-se do próprio gigantismo e força que tem juntos. Houve uma época da vida em que eu decidi que estava me sentindo apática e que o oposto disso seria tentar ter mais coragem. Não existe explicação lógica para o que veio a seguir, mas uma amiga me ligou e convidou para ir ao Rio naquele final de semana, pular de asa-delta. Eu disse que seria programa furado, não tinha coragem. Logo em seguida, no mesmo dia, outra amiga propôs: vamos pular de paraquedas no fim de semana. Rapidamente associei ambas e disse que iria com elas, mas não pularia. Mas quando o morro chega, você não pula?

Quando o frio na barriga bate, vem a náusea, a barriga dói e tudo adormece, como você não pula? Como lidar com a sensação da vida passando por entre os seus olhos e você decidir apenas assistir, e não participar? Você flerta com o perigo? Sim. Mas conquista experiência. A coragem é o passo a mais, é a gota d’água, é aquilo que eu senti quando o instrutor disse “vamos”, e eu respondi “vai sozinho, eu não vou mais, desisti”, rindo entre dentes, bastante sem graça. Ele me pediu para respirar. A porta do avião: era meu morro ou a masmorra. O que seria? Nunca vou esquecer do que ele me disse depois. Me pediu que respirasse fundo, olhasse para cima e fechasse os olhos. Eu o fiz e estava voando.

A coragem é o impulso que você pega para alçar o seu vôo, qualquer que seja. Talvez dê certo, talvez não, você inevitavelmente vai ter que lidar com o medo e com os fatos ao final do salto. Mas o caminho é indescritivelmente belo e prazeroso, e o caminho…você nunca mais se esquece. Larguei a caneca de café, levantei do sofá, respirei fundo: meus pés ainda estavam no chão e era só isso que eu precisava para pular. Que minha coragem seja ubíqua.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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