café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

A corrupção como marca estrutural da democracia oligárquica

Fiquei feliz, claro, com o afastamento de um ícone do conservadorismo, da homofobia e da pilantragem em nome de Jesus. Esse ícone é o deputado federal Eduardo Cunha, eleito por parcela significativa do Rio de Janeiro. Caiu Cunha!? A democracia está infestada de Cunhas e Renans! Ele, desde os tempos de Collor e Telerj, é apenas uma peça dessa engrenagem onde as oligarquias financeiras-políticas comandam o sistema representativo como espetáculo e farsa. Vejam a aceitação do impeachment na Câmara e agora no Senado com 15 votos favoráveis e 5 contrários ao relatório do tucano Antonio Anastasia. O que significam aqueles discursos, aquelas pessoas?


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Há uma corrupção empírica, grotesca e abjeta, esta que a Operação Lava-Jato – entre outras operações – se propõe a combater e que muitos arautos das virtudes cívicas se alinham com fortes emoções patrióticas. Admiro muitas ações de juízes, mas não os tenho como deuses ou heróis.

O povo desconfia de tudo, mas também se entusiasma com a ideia de justiça contra os corruptos. Os apelos de “fora”, “prende”, “mata”, “some” etc. são muito comuns. Se pudesse, o linchamento seria ressuscitado como prática jurídica legal. Por outro lado, encontramos forte presença desta mesma corrupção empírica, em magnitude distinta, no cotidiano dos brasileiros. Ela está na fraude diante das exigências burocráticas estatais, na armação para furar a fila, na retenção do troco errado e recebido a mais até mesmo no “cinquentinha” na mão do policial para livrar-se de uma multa. A casa e a rua. Dupla moral.

Certa vez perguntei a um cidadão que destilava ódio contra todos os políticos. Dizia ele: “Ladrões! Bandidos! Não voto em ninguém, pois são todos corruptos e vagabundos!”.

─ E se você fosse deputado federal? Você não roubaria? Não pegaria um percentual de alguma obra? Não venderia uma emenda?

Ele sorriu e admitiu.

─ Claro que eu também iria defender o “meu”. Se todo mundo rouba, não serei eu o otário.

Então, o que queremos dos políticos profissionais, dos eleitos? Que sejam íntegros, honrados, inteligentes, sábios, defensores da virtude, éticos etc. Estamos dispostos a viver nesse regime de rigor ético-moral?

Lembro aqui do delegado Hélio Luz, no Rio de Janeiro. Transferido para uma cidade pequena, foi aplaudido ao prender um ladrão “pé de chinelo” que roubava o mercado local, mas recebeu o ódio dos fazendeiros quando começou a processá-los por crimes que eles também cometiam. Foi expulso da cidade. Não queriam uma polícia honesta?

Bem, não quero aqui entrar no mantra de que a “culpa é do povo”. É fácil dizer que pessoas desonestas elegem pessoas desonestas e que todos os problemas se resumem a mera questão de postura pessoal, de escolha individual/moral. Dizer que cada povo tem a elite política que merece é desconsiderar dados históricos, econômicos e culturais.

Sabemos que indivíduos sem acesso à educação de qualidade e renda tendem a fazer escolhas pouco informadas. Há aí um déficit cognitivo. Afinal, quem tem formação, discernimento qualificado e tempo para fazer pesquisas sobre a trajetória de cada sujeito na hora de votar? O efeito carona é massivo. Voto em “X” porque “Y” falou que é bom. Além do pragmatismo do voto em “X” porque me deu “Y” ou porque favorece meu interesse “Z”. Escolha racional dirão alguns cientistas políticos.

A democracia liberal-representativa, tal como a vivemos, para além das questões históricas que a engendraram, é também o resultado do somatório de escolhas individuais com intensidades e níveis de informação distintos. Olhando o problema da escolha sobre outro ângulo, necessário é mensurar também o poder dos monopólios de comunicação na formação da opinião, na fabricação da escolha que, se não anula completamente o indivíduo, subordina-o. Althusser fala-nos de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE) e essa é uma questão ainda muito viva, muito atual.

A histeria anticorrupção faz sentido e tem sua razão de ser. Esta indignação tem um fundo legítimo, mas ela também não é uma falsificação do Real? Se o Real está no não-dito, no inconsciente, talvez a algaravia anticorrupção seja apenas o epifenômeno que escamoteia o Real da corrupção. Freud e Lacan poderiam nos ajudar nisso.

Por que muitos defendem pena de morte para jovens infratores, mas não para o político que desvia os recursos da merenda das crianças? Quem causa maior dano coletivo?

Não estou aqui defendendo a pena de morte. Em nenhum dos casos. Apenas problematizo esse ódio contra a corrupção empírica que está “longe”, que não é a minha, nem a do meu parente. Que é a corrupção “dos políticos”, dos “vagabundos” que foram eleitos pelo povo. Foram eleitos! E-lei-tos!

Penso na invisibilidade da corrupção que é estrutural, própria das democracias representativas e oligárquicas onde o poder econômico é fundamental para a eleição e para o funcionamento da maquinaria. A democracia, nesse modelo, se transforma em mero jogo de manutenção e garantia dos interesses privados, dos negócios particulares. Essa corrupção estrutural, endógena, “invisível”, mas poderosíssima e de forte impacto social não é destacada pelas mídias, não sofre a mesma repulsa da população indignada. O ódio é fulanizado e tratado de forma moralista como um problema de desvio de caráter, sem levar em consideração o contexto. A ingenuidade ou patifaria de movimentos como “Revoltados On Line” e “Brasil sem Corrupção” é um deboche. Óbvio que ninguém defende a corrupção empírica e nem os corruptos, mas e daí? Qual a consequência disso?

Fiquei feliz, claro, com o afastamento de um ícone do conservadorismo, da homofobia e da pilantragem em nome de Jesus. Esse ícone é o deputado federal Eduardo Cunha, eleito por parcela significativa do Rio de Janeiro. Caiu Cunha!? A democracia está infestada de Cunhas e Renans! Ele, desde os tempos de Collor e Telerj, é apenas uma peça dessa engrenagem onde as oligarquias financeiras-políticas comandam o sistema representativo como espetáculo e farsa. Vejam a aceitação do impeachment na Câmara e agora no Senado com 15 votos favoráveis e 5 contrários ao relatório do tucano Antonio Anastasia. O que significam aqueles discursos, aquelas pessoas?

Não quero ser pessimista, nem cínico. Pense e observe. Há fissuras e brechas, aqui e acolá. Alguns fios de esperança apontam para o futuro que poderá nascer dos escombros da velha ordem em decomposição, mas como não gritar diante da hipocrisia dos que dizem “sim” ao impeachment de Dilma – e eu não tenho nenhuma complacência com a corrupção empírica do petismo ainda no poder –, criticam severamente as “pedaladas fiscais” como se monstruosidades fossem e, paradoxalmente, articulam um governo fantoche da FIESP, dos banqueiros e dos grandes grupos econômicos e midiáticos?

Dirão alguns que “é a lei, é assim mesmo”. Assujeitam-se ao dado, mas são incapazes de pensar as construções sociais. A lei é apenas um constructo social-político e não uma natureza! Nem é uma religião dogmática. Nós, mulheres e homens, somos criadores e não meros suportes do que tem que ser e assim será. Vamos ousar e criar o novo. Mas como fazê-lo sem educação, sem tempo, sem dinheiro, sem trabalho, sem comida, sem diversão e arte?

Talvez, quem sabe, em algum momento seremos sacudidos pelo fato de que a queda de Dilma, Cunha, Renan, Jucá, Waldir Maranhão, Lula e mais trezentos ou quinhentos atores políticos e empresários são apenas mecanismos de dispersão para a manutenção de uma corrupção bem maior e muito mais grave: a estrutura mesma do funcionamento das democracias oligárquicas. Enterram pessoas e fulanizam as crises em nome da democracia e da virtude, mas apenas para manter a ordem do capital e seus ganhos.

Quem acredita que a corrupção vai acabar quando exterminarem o PT? É um pensamento mágico, místico e imbecil, profundamente imbecil. Mas é martelado na cabeça de milhões de pessoas, todos os dias. Não sou petista, mas não sou otário. Essa verborragia antipetista se alimenta de um anticomunismo e de um reacionarismo tenebroso e profundamente ignorante sobre a história. Não se trata de uma direita culta, republicana e bem informada, mas de uma direita analfabeta e irracional.

Gosto do bom humor. Sorrio diante de muitas quedas (há sempre uma gargalhada escondida de “bem feito”), mas apenas por um instante. Sei bem que Cunha sobreviverá. Não necessariamente o ator político Eduardo Cunha, mas a forma-método que o colocou lá no Congresso. Em 2016 e 2018, novos Cunhas serão eleitos. Ainda que o financiamento empresarial esteja proibido, mas o caixa dois não irá atuar? O “mercado”, as forças econômicas e as velhas oligarquias políticas não irão garantir resultados seguros nos processos eleitorais?

A saída está na construção de novas formas de fazer política a partir de um novo modelo de regime socioeconômico e jurídico-político, de uma nova cultura participativa. Reforma política? Sim, também, mas feita por quem? Por este Congresso? Dúvidas.

Hoje, essa mudança radical não está dada, mas podemos atuar nas fendas da podridão, sem perder a utopia e a poesia, imersos que estamos na dialética do tempo. Pequenas revoluções moleculares, simbólicas, imagéticas e contra-hegemônicas. Seremos uma minoria, sem dúvida, mas felizes os que não se dobram ao senso comum, ao conservadorismo desinformado ou resistem diante do neofascismo das multidões embaladas pelo consumo narcótico e pelo sobrevivencialismo de um mundo líquido e esvaziado de sentido profundo. É preciso suportar o peso de ser dissidente.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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