café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

A ponte dos suicídios: o que podemos aprender com a tragédia?

É válido dizer que nem tudo se resume à tragédia. Destacam-se momentos reais de solidariedade e esperança, dentre os quais um fotógrafo impede uma moça de saltar, agarrando-a pela blusa e puxando-a de volta para a parte segura da ponte. Há também o depoimento de um jovem que sobreviveu à queda com o curioso auxílio de uma foca.


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THE BRIDGE (2007) Em 2003, o jornalista Ted Friend escreveu um longo artigo para o New Yorker Magazine, intitulado “Jumpers”, onde analisava o volume recorde de suicídios ocorridos na ponte Golden Gate de São Francisco. Em seus parágrafos finais, o autor abordava a controvérsia em torno das barreiras anti-suicidas, uma medida bem sucedida em outros monumentos americanos, igualmente assombrados pela presença constante de suicidas. Mesmo apesar do êxito, as barreiras encontravam forte oposição nos habitantes de São Francisco.

O diretor Eric Steel, inspirado pelo artigo, decidiu filmar a Golden Gate ao longo de um ano. Dizendo tratar-se do primeiro de uma série de documentários sobre os grandes monumentos americanos, Steel conseguiu a autorização da Golden Gate Recreation Area, agência responsável pelas áreas verdes no entorno da ponte, para instalar câmeras em pontos diversos da região. Desta forma, no período estipulado, sua equipe conseguiu captar, com uma riqueza impressionante de detalhes, 23 dos 24 suicídios ocorridos à luz do dia.

Concentrando-se em algumas das mortes, Steel remonta a vida pregressa das vítimas, costurando depoimentos de parentes e amigos. A narrativa segue o mesmo padrão ao longo do filme, exceto pela história de Gene, que atravessa os demais casos e ocupa toda a sequencia final.

Ao longo de 94 minutos, vemos as dúvidas, angústias e tristezas que circundam o temário do suicídio; penetramos no mistério que perpassa a escolha suicida e compartilhamos os sentimentos de perplexidade, culpa e vazio daqueles que permanecerão indefinidamente ligados à tragédia. Neste sentido, este documentário consegue um grau de profundidade perturbador, pois combina de um modo singular a dor dos sobreviventes à filmagem dos momentos finais daqueles a quem amavam.

É válido dizer que nem tudo se resume à tragédia. Destacam-se momentos reais de solidariedade e esperança, dentre os quais um fotógrafo impede uma moça de saltar, agarrando-a pela blusa e puxando-a de volta para a parte segura da ponte. Há também o depoimento de um jovem que sobreviveu à queda com o curioso auxílio de uma foca.

Outro aspecto interessante em “The Bridge” é o contraste entre a morbidez do tema e o conjunto icônico do filme. Longe de retratar imagens sombrias ou cinzentas, a fotografia é clara e belíssima; apesar da bruma que assola a ponte pelas manhãs, o documentário é pontilhado por lindas imagens da Baía; pessoas surfando nas águas bravias, crianças jogando futebol em descampados floridos, embarcações modernas atravessando os vãos da ponte: em poucas palavras, a paisagem colorida de S.Francisco não sucumbe, em momento algum, ao horror das mortes.

Todavia, “The Bridge”, a meu ver, traz um incomodo que ultrapassa seu conteúdo chocante. É a velha polêmica originada pelos mondo movies, onde a morte real se tornava um objeto estético, alheio a possíveis implicações éticas. O que acabo de dizer se torna particularmente evidente na história de Gene, personagem que sustenta a coluna vertebral do documentário.

No decorrer do filme, entremeando os depoimentos sobre outras vítimas, assistimos a Gene e seus longos cabelos negros perambulando de um lado a outro da ponte. A câmera se fixa sobre ele. Gene para sobre o parapeito da ponte em vários momentos, sua jaqueta preta o torna mais que visível e sua atitude contemplativa levanta suspeitas. Pergunto-me por que razão, não chegam os patrulheiros. A mim, fica nítido que ele tentará algo.

Num dado momento, Gene, vagarosamente, sobe no parapeito e, sem mais, se joga de costas sobre a baía. É uma cena terrível, captada sob três ângulos distintos de filmagem. Um espetáculo gráfico que parece celebrar o pacto ilícito entre o suicida e os cinegrafistas.

A morte de Gene me recordou o guerrilheiro executado por mercenários em Africa Addio. Tendo em vista as suspeitas de que fora uma execução estimulada pela produção, a cena rendeu ao co-diretor da película, um processo judicial. A despeito de Jacopetti ter sido absolvido da acusação, a estética mondo sempre foi condenada por buscar o “choque pelo choque”. Nela, as questões morais fizeram-se desprezíveis.

Steel não planejou nenhuma morte, e também não se eximiu de questões éticas. Seria irresponsabilidade não reconhecer seu esforço dirigido ao entendimento daquelas mortes até então, quase anônimas. De outro modo, não seria perfeitamente possível falar sobre o tema, lançando mão, por completo, dos saltos mortais? Quando penso nesta possibilidade, as cenas, bem como o seu inegável grafismo, com efeito, me trazem à tona uma pretensão estética, no mínimo, similar aquela presente nos mondo movies. Compreendo a reação dos que viram em “The bridge” um requintado snuff movie.

Afora isso, o diretor cometeu alguns deslizes que aumentaram os questionamentos sobre as verdadeiras intenções do documentário. Steel foi duramente criticado ao ocultar suas reais intenções das autoridades americanas durante as filmagens e, também, ao não dizer para os parentes e amigos das vítimas que tinha em mãos as cenas dos suicídios. Em sua defesa, alegou que a revelação dos objetivos do projeto, faria com que mais suicidas buscassem a ponte no intuito de serem eternizados pelo filme; alegou ter a o apoio integral dos entrevistados, como, também, revelou que sua equipe, em diversas ocasiões, acionou os patrulheiros, assim impedindo um número maior de mortes. “I call and call The silence is so full of sounds You're in them all I hear you in the water And the wiring in the walls Man from Mars This time you went too far” Termino esta crítica assumindo minha dificuldade em julgar “The Bridge”. Encontro-me aturdido pela combinação dramática dos depoimentos e das mortes, mas, ao mesmo tempo, instigado a questionar as pretensões estéticas da obra. Afinal, trata-se de um libelo em defesa da vida ou de um macabro espetáculo mondo?

Dúvidas à parte, nem uma coisa, nem outra, “The Bridge” é um salto perturbador nas profundezas enigmáticas da condição humana; “Um filme sobre o espírito humano em crise, um filme sobre pessoas”, nos dizeres do próprio Eric Steel. É preciso reconhecer que o temário do suicídio ganha uma abordagem inteiramente singular nesta película. Embora não seja recomendado a pessoas muito sensíveis ou deprimidas, “The Bridge” constitui uma referência obrigatória para todo aquele que se entrega ao fascínio do drama humano, sobretudo, quando este mesmo drama se traduz em um cinema pautado na ousadia e na inovação.

Autor: ANDRÉ FAYÃO é filósofo formado pela UERJ e cinéfilo.


Marcio Sales Saraiva

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