café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

O custo de ser si mesmo

Quem é você na democracia de multidão?


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Individuação. Esse é o nome que Carl G. Jung deu ao processo onde gradualmente nos tornamos aquilo que realmente somos ao nos aproximarmos do Self e expressarmos sua sabedoria.

Ser si mesmo é trabalho de uma vida - ou muitas, se você crê em reencarnação.

Primeiro, não é fácil encontrar esse "si mesmo" em nós. Forjados que somos pelo ambiente social-familiar, pela cultura, nos perdemos no caminhão de memórias e informações que adquirimos no decorrer do processo de socialização. Não sabemos dizer com precisão se a ideia é nossa ou de alguém, se seguimos de fato nossa intuição ou apenas estamos reproduzindo alguma coisa que já nos passaram, o que sentimos ou que fomos educados a sentir.

Escutamos nosso mundo interno, buscamos essa conexão com nosso inconsciente - esse oceano onde habita o nosso Self - ou simplesmente seguimos os outros, a "voz da maioria", e nos submetemos?

Eu sou eu mesmo ou apenas uma pálida e medrosa sombra do que os outros pensam, dizem, julgam?

Ainda que ser si mesmo não signifique, necessariamente, ser original em tudo que se faz, diz e pensa, é inegável que individuar-se é encontrar-se com nossa raiz mais profunda, Aquilo que habita em nós como verdade, luz interior e guia. É abrir mão de gurus e direções externas - sem desprezar a sabedoria dos ancestrais, o saber que há no mundo - para ousar viver sendo o que se é sem subserviência aos outros, ainda que os respeitemos.

Rollo May, no livro "A descoberta do ser: estudos sobre a psicologia existencial" (Rocco, 1988), nos fala de algo semelhante: a coragem de ser. Enfrentar a ansiedade e o medo que isso acarreta, a sensação estranha de que assumir-se é "enlouquecer", ficar isolado, perder amigos etc. "Não temas, seja e siga adiante", sussura nosso Self.

O mundo seguro e tranquilo onde ostentamos nossas personas poderá desabar diante do destemor de nos afirmarmos existencialmente como únicos na multidão. Essa é a segunda questão. Individuação envolve uma capacidade de suportar-se sobre os próprios pés diante da possibilidade de ataques destrutivos, indignação e repulsa. Simbolicamente, o mundo poderá lhe preparar uma cruz, mas a ressurreição é possível.

Quem gosta da verdade? Ninguém! Nós mesmos teremos resistências diante da proximidade do centro de nossa psique. Podemos recuar ou insistir. Quanto mais nos aproximamos de nosso Self, mas iremos expressar a verdade do que somos. Incomodará muito. Surpreenderá, inclusive a nós mesmos. No caminho, descobriremos conteúdos recalcados em nossa Sombra, coisas boas, coisas espantosas, o contrário do ego, o que foi rejeitado pela nossa consciência. Dialoguemos corajosamente com os demônios que lá habitam.

Eu não me via assim, mas agora sei que sou isso e também aquilo.

Esse movimento de circum-ambulação ("caminhar em torno") do Self, aproximando-se paulatinamente do ser que somos, da verdade que habita em nós, do arquétipo central, irá gerar uma reconfiguração de nossa imagem social, do eixo ego-persona. A tendência é nos tornarmos mais céticos diante das certezas inabaláveis do mundo, ambíguos em relação às normas sociais (certo/errado, bom/mau, ético e moral), ambivalentes quanto aos enquadramentos políticos-ideológicos, deslizantes perante possibilidades de capturas em caixinhas identitárias. Isso produzirá uma sensação pessoal de liberdade, mas haverá um preço, uma reação. O mundo ao redor tenderá a rechaçar essa sua ruptura com a normose (a doença da normalidade) e tentará te recolocar dentro de um quadro qualquer: louco, esquerdista, reacionário, místico, reducionista, cristão, ateu, vaidoso, deslumbrado, iluminado, infantil, velhaco, pornográfico, indeciso, confuso, dogmático etc.

O desafio da vida será continuar caminhando, crescendo, desabrochando, descobrindo-se e afirmando o que somos, o que pensamos e o que sabemos - sempre provisório, suposto saber. Aflição e angústia hão de nos acompanhar, mas também haverá gozo e descobertas maravilhosas. Sigamos a luz que há em nós. Com certeza, iremos tropeçar e errar, mas os erros serão nossos e o aprendizado também.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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