café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

Marcela Temer na VEJA: O bafafá da uma narrativa

Há no imaginário social a ideia de “golpe do baú”. Muitos murmuraram. E se esse Temer fosse pobre? Ela, considerada bonita (participou de dois concursos de miss no interior), branca, formada em direito sem nunca exercer a profissão, sem experiência de trabalho (foi recepcionista, só) e que aos 20 anos casa com seu primeiro namorado sério, justamente Michel Temer. Mulher golpista e interesseira? Amante do dólar ou do euro? Não seria também machismo ofender assim Marcela Temer?


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Marcela Temer, a “novinha” que casou com o poderoso presidente do PMDB, Michel Temer, está “causando”. Mesmo sem abrir a boca, um perfil dela, construído pela revista VEJA com informações de amigos e familiares, colocou lenha na fogueira das redes sociais. Descolados, progressistas, humoristas, feministas e militantes de esquerda produziram frases sarcásticas, mêmes, artigos e desceram o porrete naquela que seria a “mulher ideal” do machismo patriarcal da “Casa Grande”: bela, recatada e do lar.

A “mulher do vice” antagonizaria, no imaginário machista e preconceituoso do senso comum, com as feias, desbocadas, desleixadas e das ruas, com a “mulher vagabunda”, “sem moral”, “leviana”, “prostituta”, “piranha” etc. Esse é, me parece, o jogo imagético que está no ar.

Sou do tipo que lê bulas de remédios. Sem preconceitos, considero-me politicamente queer, “ininquadrável”. Tenho na tradição de esquerda (dos comunistas aos pós-políticos, passando pelos teólogos da libertação) meu referencial maior, mas gosto de apreciar o que os liberais, social-democratas, libertários e anarquistas escrevem, pensam, propõe. Ainda gosto de Max Weber. Talvez por isso, a revista VEJA, porta-voz de um segmento sociopolítico e cultural mais conservador e de direita, é uma das minhas paixões sombrias. Tenho-a no meu banheiro, mas não tenho vergonha de compartilhar uma ou outra matéria no meu facebook. Não boicoto a revista, pelo contrário, leio. Por vezes dou gargalhadas altas, em outras, procuro identificar o que ela traz que me incomoda. Os incômodos são sintomas riquíssimos e podem ser portas mentais de reflexões profundas sobre si mesmo e sobre os acontecimentos do mundo da vida.

Ao traçar o perfil de Marcela Temer, VEJA acertou no alvo. Causou polêmica e assegurou imensa visibilidade. As pessoas de esquerda e os mais liberais se incomodaram, com razão, e amplificaram o que poderia ser apenas uma materiazinha medíocre onde a própria Marcela, a dita cuja, nem opina.

Por que deu tanto bafafá?

Há muitas leituras possíveis na polissemia de um texto. Temer tem 75 anos e ela 32. Preconceito com homens maduros que casam com mulheres bem “mais novas” é uma das possibilidades. Padrão no coronelismo machão, esse estereótipo vem sofrendo duras críticas – abertas e veladas – e, da mesma maneira – talvez, ainda pior – quando mulheres maduras casam com homens “novinhos” (como se diz na gíria da molecada).

Há no imaginário social a ideia de “golpe do baú”. Muitos murmuraram. E se esse Temer fosse pobre? Ela, considerada bonita (participou de dois concursos de miss no interior), branca, formada em direito sem nunca exercer a profissão, sem experiência de trabalho (foi recepcionista, só) e que aos 20 anos casa com seu primeiro namorado sério, justamente Michel Temer. Mulher golpista e interesseira? Amante do dólar ou do euro? Não seria também machismo ofender assim Marcela Temer?

É interessante. Por que não pode ser amor mesmo entre os dois? Eles estão casados há treze anos e tem um filho de sete anos. Se não fosse branca, “do lar” e bonita, será que Marcela Temer não teria algum movimento social para sair em sua defesa? Não estaria sofrendo ela um preconceito de outro tipo? Afinal, nesse Brasil de milhões de evangélicos, espíritas e católicos conservadores, esta mulher “recatada” com “vestidos até os joelhos” e usando sempre roupas com “cores claras” – as cores fortes são para quem? – é talvez o desejo de consumo de muitos homens e o ideal a ser alcançado pelas “mulheres de bem” a serviço do Senhor (e dos senhores de pequenos engenhos). Basta lembrarmos que entre pentecostais/neopentecostais ou para a renovação carismática católica, Marcela Temer seria ícone, uma versão retrô da década de 1950 com todos os recursos cosméticos-tecnológicos do século 21.

Ao lançar livro de poesias, Temer escreve também para sua esposa. Romântico, “do tipo que ainda manda flores”, este casal parece ter tocado em nossa ferida narcísica. Como hipótese, penso que Marcela incomodou porque é espelho do desejo recalcado ou por ser o tipo-ideal que o superego nos atormenta para chegar lá um dia.

Não conhecemos Marcela Temer, esse é o fato extraordinário, mas insignificante para a analise em questão. O problema aí não seria a Marcela real, esposa do vice-presidente, mas o que ela simboliza a partir de uma narrativa que supostamente a retrata. Não estou aqui “defendendo” um perfil, mas querendo abrir outras linhas de reflexão para além dos mêmes divertidíssimos e dos ataques da militância engajada na justa causa das mulheres contra a opressão de gênero.

É, no mínimo, interessante como um simples perfil de Marcela Temer na VEJA, uma peça ficcional, uma narrativa criada por uma revista sem a participação do sujeito, causou todo esse bafafá. Talvez, penso aqui, porque essa imagem criada tenha atingido algo poderoso em nosso inconsciente, algo que talvez tenhamos imensa dificuldade em lidar ou admitir conscientemente.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, cursou teologia básica na PUC-Rio, é mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e candidato ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP).


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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