café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

O chaveiro de boneca

Catia G. Vera Cruz é formada em Letras com trabalho sobre Clarice Lispector e Graciliano Ramos. Aventurou-se, pela primeira vez, a rabiscar um conto que fala do reencontro de duas amigas a partir de uma peça de teatro sobre Clarice Lispector.


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Enquanto aguardava o início de uma peça de teatro, olhei no entorno com atenção. Pessoas, conversas, sorrisos, gestos. Alguns comentários ouvimos de fato, outros imaginamos. Completamos com palavras inventadas as imagens das bocas que se mexem. Foi assim com Cláudia e Márcia, amigas de infância.

Elas estavam no canto esquerdo do meu olhar, sentadas, verbiágicas e muito felizes ao se reencontrarem, pois não se viam desde a viagem à Maceió programada entre elas. Com a chegada de João Carlos, atual namorado de Márcia, mudança de planos.

Cláudia estava ansiosa para rever a amiga; cheia de novidades, histórias e fotos que precisava compartilhar com a companheira de tantas outras jornadas e aventuras. Mas agora o cenário não seria o mesmo, afinal existia novo personagem, nova trajetória: João Carlos. E foi por esse motivo que elas demoraram tanto a se encontrar. Amor consome tempo.

Desde o retorno dela houve algumas tentativas, porém Márcia não dispunha de tempo livre. Não assim, de imediato. Estava sempre atribulada com seus novos afazeres, que incluíam também os de seu parceiro. Apesar de sentir-se excluída da agenda da amiga, Cláudia ainda insistia em marcar logo esse tal reencontro. Saco cheio. Ansiedade.

Eis que surge, numa tarde chuvosa de sexta, uma oportunidade singular para ambas, exceto para João Carlos ─ este odiava literatura brasileira, aliás, livros, papo cabeça, coisas que exigiam novas sinapses entre seus preguiçosos neurônios. Preferia conferir o WhatsApp. Cabeça baixa. Não via o menor sentido naquelas viagens sem fim. O monólogo de Clarice Lispector, encenado por Beth Goulart, favoreceu o reencontro delas. O teatro era próximo ao local de trabalho das duas.

E assim foi. Apenas algumas mensagens trocadas pelo Messenger e tudo pronto. Ao cair da noite, estariam elas matando a saudade tendo Clarice como testemunha de anos de amizade.

Márcia foi a primeira a chegar ao teatro, visto que João Carlos era de uma pontualidade britânica e, por vezes, irritante, antipatriótica. Logo em seguida Cláudia, um pouco desajeitada, ainda tentando se livrar dos vestígios da chuva que insistia em cair desde a hora do almoço. Garoa, mas no Rio.

Teatro bem movimentado. Pessoas num vai e vem incessante. Burburinho para todos os lados. Filas do toalete intermináveis. Tudo isso colaborou para certa dificuldade em se encontrarem, mas, ao toque da primeira campainha, se direcionaram aos devidos assentos e tudo resolvido.

Antes que Clarice iniciasse qualquer fala, as amigas se entrelaçaram num abraço apaixonado e demorado, deixando João Carlos deveras deslocado na cena. E como todos ainda conversavam em tom natural, já que a segunda campainha ainda não havia soado, Cláudia aproveita para sacar de sua bolsa um presente, num papel um tanto quanto danificado pelo tempo de espera:

─ Olha o que trouxe para você... É a sua cara!

Márcia, sabendo o quanto a amiga conhecia os seus gostos mais íntimos, pôs-se a imaginar o que poderia ter dentro daquele papel dourado reluzente com aparência amarrotada. Por certo, um bom livro, já que ambas se formaram em Literatura Brasileira na mesma faculdade e com louvor.

Não... Aquela embalagem era pequena demais para comportar tantas palavras. Quem sabe um perfume. Givenchy. Sempre competiram nas saídas noturnas quem seria a mais cheirosa. Coisa delas, não para eles.

Também não... Havia um chocalhar um tanto estranho, inexistente nas caixas dos perfumes. Sim! Como não? Só poderia ser um belo par de brincos, visto que no Nordeste o artesanato tem uma força imensurável. Brincos de Maceió.

Deixando toda a expectativa de lado, Márcia, seguindo a sugestão do namorado ─ que já estava impaciente com tanto mistério, ou sempre foi, desde que nascera ─ abriu o presente. Espanto! Estava lá um chaveiro em formato de boneca, com os dizeres: “Estive em Maceió e lembrei de você”.

Márcia olhou, olhou, olhou.

─ Amiga, que lindo!

Sorriu, sem vontade de sorrir.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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