café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

O dia em que parei de fumar

Achava fumar algo bacana, gostoso, free, cheio de charme intelectual. Com o tempo, o cigarro se transformou numa dependência infernal. Como sair disso? Como ver sentido na vida sem o meu cigarro?


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"Mas chega, não falarei mais nisto. Fumar foi das piores bobagens que fiz na vida, mas não pretendo convencer ninguém. Já tentei fazer isso, e o sujeito ainda caçoa da gente, de cigarro no bico. Ah, quem quiser que se fume” (Rubem Braga)

Estou completando três meses sem cigarros. Até aqui, não sofri nada grave, mas passei por sensações desagradáveis como ansiedade, vontade de chorar, confusão mental, irritabilidade e, poucas vezes, forte desejo de fumar (chamado de “fissura”).

Quando criança eu tentei fumar. Tossi muito, mas os colegas diziam que “era coisa de macho” e que com o tempo e a prática eu aprenderia a “fumar direito”.

Bem, nos comerciais de Malboro, fumar era sinal de força, como Hollywood simbolizava alegria, radicalidade e esporte. Com Free, fumávamos porque era um ato de liberdade, mas Carlton nos convencia que tudo era questão de bom senso. As propagandas de cigarro da década de 1980 me embalaram mais a imaginação pró-tabaco do que o exemplo de minha mãe, tabagista.

Sei bem que “ninguém é inocente ao fumar", como disse Ruy Castro, mas que a publicidade tinha seu peso na minha escolha, lá isso tinha. Mas não era só comercial de TV. Ser de esquerda, marxista, e não fumar era um sinal de caretice pequeno-burguesa. Naquela época, quem era comunista fumava, muito. Reuniões de sindicato, do partido ou do movimento estudantil a fumaça subia, densa, de inúmeros pontos.

Atualmente, sinto que a maioria dos comunistas aderiram a luta contra a destruição ambiental causada pelo desenvolvimento predatório do capitalismo, alguns se tornaram vegetarianos ou veganos, a maioria não fuma mais, não contribui com a poluição ambiental nem com os lucros das multinacionais do tabaco ligadas ao agronegócio. Outras leituras políticas emergiram.

Além disso, quando eu fumava, tinha também a sensação de companhia nas horas de solidão, liberdade de cuspir fumaça ao alto, prazer de sucção (seria a ausência de peito na infância? Freud entra aqui). Fumar e mascar chicletes eram uma rebelião contra as normas de saúde ou educação e, em alguns casos, até mesmo o argumento da entidade umbandista que me acompanhava servia como legitimação. “É meu exu”. Quando o interlocutor era cristão tradicional, eu dizia que era “o espinho de satanás”, imitando Paulo, o apóstolo.

Quando minha mãe passou para o andar de cima, no ano seguinte eu parei de fumar e fiquei sete anos sem os canudinhos. Até que, depois de esquecer completamente o hábito de fumar, peguei-me salivando ao ver na TV um comercial do Sampoerna, sabor canela. Fiquei encantado. Juro que senti até o cheiro! Foi um dos últimos comerciais antes da nova lei de saúde que baniria esse tipo de propaganda na TV e no rádio. No primeiro gole de cerveja, é claro, eu pedi aquele cigarro da propaganda. O de canela. Voltei a fumar. Ainda mais compulsivo. Só evitava fazê-lo antes do café da manhã. Sim, eu fumava até em jejum.

Fiz inúmeras tentativas de parar de fumar novamente. Lembrava-me de Sartre, fumante inveterado, que dizia: “Ninguém deve cometer a mesma tolice duas vezes”, mas foi o que fiz. Mais de duas vezes. E tinha dificuldades em me imaginar escrevendo, lendo um bom livro ou bebendo algo gostoso sem um cigarro aceso entre os dedos. Parece o cenário perfeito, a combinação certa, a única possível. Desespero.

Recentemente parei de fumar. De novo e do nada. Mas desta vez não foi por medo, por alguma ameaça de doença, nem por razões religiosas/metafísicas. Também não foi por conta da campanha do governo nos maços de cigarros. E não funcionou a pressão, chatíssima em alguns casos, dos diversos amigos e familiares que me “ensinavam” que fumar faz mal ─ como se todos os fumantes não soubessem disso.

O desejo de parar de fumar nasceu do fundo da minha alma! Eu transformei a imagem positiva do cigarro em monstro. Pior ainda. Um inimigo que me derrotava constantemente. Senti-me humilhado. Como poderia ser derrotado por um canudo contendo mais de 4 mil substâncias venenosas? Não, isso não pode ficar assim. Orgulho ferido, quebrei o maço. Decidi então jogar tudo fora. Não vou mais fumar. Só por hoje. Amanhã eu não sei, posso mudar de ideia. Sem arrogância, apaguei meu último cigarro e não pensei mais no assunto. Simplesmente deletei-o de minha vida, mas respeitando quem fuma. Tenho raiva de ex-fumante chato e implicante com a fumaça alheia. Recalcados, neuróticos, mal amados.

Comecei a repetir para mim mesmo, tipo mantra, sabe?

“Você não nasceu fumando, portanto, se fumou por algum tempo, agora você não fuma mais”.

“Cigarro não resolve nenhum dos meus problemas, nem mesmo me acalma”.

Oração, meditação, sexo, rivotril, livros e boa música me acalmam, cigarro não. Estas conclusões me levaram a romper com mais força e, estranho isso, mais tranquilidade. Deixei o cigarro passar por mim, mas sem ódios dele. A raiva passou. Olhei-o com pena, como algo menor, tolo, sujo e fabricado pela máquina de propaganda do capitalismo. O cigarro foi apenas a marca de um tempo de minha vida, mas a página virou e os tempos são outros.

Sinto-me muito melhor, claro. Tenho mais disposição para andar, correr, fazer as coisas. Sinto os cheiros, os aromas. Não me sinto fedendo. Meus dentes estão ainda mais brancos e beijar não é mais lamber cinzeiro. Amo perfumes e agora posso usá-los com mais prazer e percepção. Eles permanecem. Bom cheiro.

Se eu engordei? Nada! Ao invés de comer mais, passei a ler mais, estudar mais e amar mais. Nessas horas, uma boa namorada ajuda também. Use a boca em outros locais, de outras maneiras.

Esta é minha experiência, portanto, não serve de guia e modelo para todas as pessoas. Cada um é responsável por si mesmo e livre para dizer “sim” ou “não” para o cigarro. Ainda que eu reconheça o “vício”, sou contrário a ideologia que tenta transformar o fumante em pessoa doente, sem nenhum poder de vontade, destruído e derrotado perpetuamente pelo cigarro. Esse pessimismo recheado de “bons” argumentos bioquímicos anula o ser no mundo, destrói a existência e sua potencialidade transformadora. A história muda, o ser humano pode mudar também. Sem essa de “complexo de Gabriela”: eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim.

Não sei se você já foi ou é fumante. Fumar é bom demais, é muito gostoso. Se não fosse, não teríamos tantos fumantes no mundo. Agora, não fumar é ainda muito melhor. É preciso, para quem é fumante, descobrir que existe vida, e vida abundante, para além das fumaças. A busca é pessoal, mas vale a pena conferir, tentar e mudar. Mesmo que haja recaída, siga Raul Seixas e tente outra vez. Sem nenhuma vergonha.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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