café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

Somos apenas o que podemos ser

Este é o drama que somos. Incompletos e desejosos de algo que sempre, para nosso desespero, nos escapa. Somos uma lacuna em busca de um preenchimento impossível, posto que a falta é justamente a marca de nossa própria humanidade.


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No decorrer da vida, fui conhecendo um pouco da vida de líderes extraordinários, místicos e teólogos de rara beleza existencial. Jesus de Nazaré e Buda, dois grandes iluminados. Mas também São João da Cruz, Francisco de Assis, Gandhi, Paul Tillich, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Osho, Krisnamurti, Pietro Ubaldi, Zélio Fernandino de Moraes e tantos outros que o nome não me vem agora.

Claro que já pensei em, de alguma maneira e em algum momento, ser igual a eles. Cada um desperta em mim sentimentos especiais de grandeza espiritual, amor, fé, paz e desprendimento. São diferentes, mas convergem no exemplo de ação salvadora no mundo e vida cheia de significados profundos.

A ideia de imitação é muito forte em nós e lembro-me do clássico livro de Tomás de Kempis, “Imitação de Cristo”. Mas tê-los como ideal de ego não é ser um deles, pois imitar não é ser. Há aí um abismo intransponível e querer impor à vida um ideal de ego pode levar-nos a neurose e a despersonalização.

Por que nos perdemos de nós mesmos na tentativa de imitar esses grandes “exemplos”? (Supondo aqui que você também os considere exemplos)

Simplesmente porque não somos o que desejamos como ideal, ainda que estes místicos possam nos servir de inspiração e orientação. A verdade, nem sempre agradável, é que somos apenas aquilo que podemos ser, resultado de uma tensão interna entre desejos conflitantes, censuras internas do superego e buscas de mediação racional do ego. Tudo isso envolvendo uma dinâmica complexa entre eu, os outros e as estruturas sociais/culturais/econômicas que já são antes mesmo d’eu ser.

Este é o drama que somos. Incompletos e desejosos de algo que sempre, para nosso desespero, nos escapa. Somos uma lacuna em busca de um preenchimento impossível, posto que a falta é justamente a marca de nossa própria humanidade.

Aceitar essa falta é o que nos pacifica e nos possibilita vivermos razoavelmente felizes. Para além do ideal – daquilo que é tido como “certo”, “bom” e “justo” – existe o eu-mesmo, na sua riqueza e fragilidade.

Com virtudes e defeitos – dependendo do meu juízo interno e do ângulo/valores/crenças de quem me julga – eu só posso viver de verdade aquilo que sou, caso contrário, a cisão nos engoliria como um grande abismo a nos fitar cotidianamente. No limite, ser-outro nos jogaria na loucura de encenarmos uma vida que não é nossa e este mundo já está abarrotado de seres-outros que abandonaram a si-mesmos. Para o nosso bem, sempre poderemos trilhar a estrada esburacada de volta ao self. Que façamos isso agora. Amanhã é tarde. “O futuro dura muito tempo”, disse certa vez Althusser.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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