café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

A ALGOZ

Porque o contrário do amor é a indiferença.


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Amores verdadeiros são namoros eternos e Camila sempre soube disso. Sentia seu relacionamento com Amarildo sempre vivo, renovado e com aquele friozinho na barriga se preparava toda para o encontro. Só faltava o batom. Passou com gosto, com tesão, bem vermelho, cor de sangue derramado.

O perfume com notas de jasmim era percebido por todos na rua. Ela desfilava pelo calçadão de Bangu com seus óculos escuros, vestidinho preto colado ao corpo gorducho e sensual. Parou no ponto de ônibus. Era uma manhã cinzenta, mas no seu coração o sol nascia novamente. Esperou por quinze minutos. O coletivo apareceu. Entrou.

Já no ônibus, recordava os momentos mais felizes. Coisas simples, como fazer-lhe bife com batatas-fritas ou deixar que ele lambesse seus pés enquanto ela fazia as unhas das mãos.

Puxou a campainha e desceu dois bairros depois. Seguiu com passos calmos, sem pressa. Sabia que ele estava lá, deitado, esperando-a, como sempre.

Deslocou-se pelo jardim, cumprimentou o segurança-porteiro e tirou da bolsa o perfume que ele mais gostava. Duas borrifadas de La Vie Est Belle. Guardou a fragrância e retirou um cartão de dia dos namorados que ela havia escrito com carinho e devoção.

Ao chegar perto dele, sentou-se. Colocou o cartão de dia dos namorados. Ficou cinco minutos. Retirou os óculos, derramou algumas lágrimas em silêncio, colocou-os novamente e partiu.

Um homem observava aquilo tudo de longe e, curioso, se aproximou para pegar o cartão. Leu.

“Sinto sua falta e perdoe-me o ódio momentâneo. Eu só queria te poupar daquela infeliz, mas você não entendeu nada. TPM. Poderíamos estar juntos se não fosse ela. Te amo e te amarei sempre. Sua Camilinha.”

O coveiro releu mais três vezes e coçou a cabeça tentando encontrar o sentido. Percebeu apenas que na lápide estava escrito Amarildo Rosas dos Santos e tinha uma estrela em 05/01/1971 e uma cruz em 13/06/2017.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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