café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

CLARICE

Elvira e Mirna formavam um casal atravessado pela presença de Clarice. O ciúme poderá se transformar em desejo de introjetar o outro em si? O poliamor é impossível?


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Mirna e Elvira estavam frustradas depois da quarta tentativa de uma inseminação intrauterina. Casadas há três anos, queriam uma criança como fruto-testemunho de uma ligação perene.

Católicas, tradicionais e conservadoras, as duas não gostavam de tumultos ou engajamentos em causas. Mirna era jornalista e escritora de contos açucarados de autoajuda numa revista feminina de grande circulação, tinha 24 anos, cabelos pretos curtinhos e pele pálida enquanto Elvira, formada em Letras, era dona de um salão de beleza sofisticado, especializado em cabelos crespos e cacheados. Black is Beautiful era um point muito frequentado na estação de trem de Marechal Hermes, rivalizando apenas com as gordurosas barraquinhas de batatas-fritas.

Estava Mirna na cozinha do apartamento, pensando em todas essas coisas, enquanto contemplava sua dulcineia adormecida, ainda na sala, lendo “A ficcionista”, obra de um amigo seu, um tal de Godofredo de alguma coisa Neto. Os olhos alegres e apaixonados de Mirna quase dançavam diante da cena.

Olhava para as pernas de Elvira esticadas sobre um banco que abrigava seus enormes e bem cuidados pés, o corpo desengonçado e ressonando alto no sofá, o tal livro aberto sobre enormes seios nus. Ela parecia convulsionar levemente, dada a gosma que escorria pela lateral esquerda de sua boca e juntava-se com alguns dos seus fios de cabelo loiros. A gosma no rosto de Elvira — carinhosamente chamada de Neguinha — lembrava a gordura interna de seu xodozinho, Clarice. A cabeça de Elvira estava inclinada, como se solta do pescoço, pendurada. Ela, já com os seus 35 anos, negra, bela, imensa. Nem gorda, nem magra.

Em pé, na porta da cozinha, a magrela Mirna fumava e contemplava o falecimento provisório daquela que era seu único e grande amor — mais tarde ela poderá perceber que tal impressão, “único e grande amor”, se repete na vida de um ser humano diversas vezes, especialmente se for tolo.

Conheceram-se — e lá se vão quatro anos — na Missa de São José, o santo protetor das famílias e dos operários, quando acendera a vela dela com o seu próprio isqueiro na procissão que acontecia anualmente no Engenho de Dentro. Mirna fuma, Elvira tem ódio. Alergia também.

Já passava das onze horas da noite. Tomou um clonazepam de 2mg com haloperidal de 5 mg. Apagou a luz da cozinha, o abajur da sala e ficou por algum tempo naquele escuro momento palerma admirando-meu-amor-no-sofá. Chamou Elvira, com suavidade e beijinhos sobre a umidade encabelada daqueles lábios carnudos. Bem próximo ao seu ouvido, gemeu. Amor... Amor... Acorde! Vamos para a cama. Estou cheia de tesão. Vem lamber sua Branquinha.

Engasgou-se Elvira no ronquejar — ou com a baba? — sentiu as bitoquinhas de Mirna. Teria ouvido o convite? Sorriu sem abrir os olhos, coçou a cabeça, afastou os cabelos da boca, tirou a calcinha já entranhada — de maneira incômoda — na sua bunda e disse. Só um minutinho. Você sempre diz isso e não vem. Dessa vez eu vou, prometo. Vou te esperar, mas primeiro, sente meu corpo.

Mirna pegou a mão direita de Elvira, enfiou dentro de sua calcinha e esfregou, para que ela sentisse o quanto ali estava quente e empapado de prazerosos líquidos que foram incapazes de despertá-la.

Clarice, muito discretamente, saíra do quarto naquele momento e vinha serelepe como quem exige a presença das mães ou simplesmente sentia a ausência delas. Mirna ralhou com ela, em tom carinhoso. Já vou menina! Vá lá para dentro. Eu e mamãe vamos depois. Ai, ai, ai!

A pequena recuou e arrastava-se, lenta e levemente, até se abrigar na espaçosa cama de casal. Mirna deixou a mão de Elvira e entrou para o banheiro. Escovou os dentes, usou seu demaquilante, lavou o rosto com um sabonete especial, aplicou uma solução adstringente e depois massageou com um creme hidratante. Tirou o sutiã e a calcinha, entrou no quarto, deixou os chinelos e atirou-se ao leito, na esperança de ser acordada pela língua penetrante de Elvira. Quem sabe ela logo vem?

A noite fresca bafejava uma brisa levemente fria que já justificava a puxada do lençol. Clarice ficava quietinha na cama, protegida pela pele de quitina e cheia de oxigênio por conta de seus espiráculos. Adormeceram juntas.

* * *

Na sala, Elvira abriu seus olhos castanhos, levantou-se rapidamente, assustada com seu falecimento provisório. Que horas são?

Tudo escuro. Duas horas da manhã. Para ser exato, uma e quarenta e oito. Foi até a geladeira e, como de costume, comeu metade de uma barra de chocolate barato, desses que se compra em camelôs. Ficou em pé mesmo, sentido o frio da geladeira aberta, curtindo a sonolência. Comia. Depois foi para a cama em busca do prometido tesão de Mirna. Lembrava.

Adorava acordá-la com carícias nas madrugadas (ou será que Mirna fingia estar dormindo?). Era o momento em que as duas trepavam com mais gosto, com aquela adrenalina da escuridão e do acordar do nada, como se estivessem dentro um sonho invasivo, selvagem e orgásmico. Afastou o lençol, olhou para o corpo de Mirna, deitada em concha, e deitou-se também. Colou-se as peles, mas sentiu algo em suas costas. Assustou-se. Levantou e logo entendeu, concatenando ideias. Acorde Branquinha! Já falei que não quero Clarice na cama. Tenho nojo.

A soneira de Mirna não a deixou irritada com a reclamação. Compreensiva, retirou Clarice com doçura e colocou-a na caixa de sapato, ao lado da cama. Fez um leve carinho na bichinha e falou com voz miúda. Neguinha fala assim, mas você sabe que ela te ama meu bem. Não ligue para isso Clarice. Descanse em paz.

Clarice mexeu-se um pouco, como quem compreendia tudo. Elvira também se mexeu, mas atenta a tudo. Clarice não é nossa filha! Não aceitava a paixão que Mirna desenvolveu pela bichinha que encontrou na rua, ano passado, depois da segunda tentativa fracassada de inseminação.

Aborrecida com o tratamento excludente e nada maternal de Elvira, Mirna perdeu toda a libido. O clima já não era o mesmo da sala, algumas horas antes. Calada, puxou o lençol, virou-se para o canto e o sono tragou-lhe a tristeza. Elvira não se conformava. Queria sexo. Ligou o abajur do seu lado da cama. Pensava.

Ao avistar o repulsivo xodozinho subindo o criado mudo, Neguinha começara a pensar. Onde eu deixei meus chinelos? O gosto da morte subia-lhe pela garganta como refluxo. Clarice, tonta, queria voar para a cama e ficar sob a pele de Mirna. E assim o fez. Os olhos de Elvira tensos, tudo observando. O pálido braço de Mirna estava para fora do lençol e Clarice passeava lentamente. Queria esmaga-la, triturar seu corpo até virar pasta, mas acordaria Mirna e poderia machucá-la. Esperou um novo deslocamento, um local mais apropriado para extravasar seu desejo assassino.

Ela encostou seu corpo ao de Mirna, deitada de costas para ela, e levantou seu braço esquerdo com cuidado. Movia-se em silêncio absoluto. Coisa de mosteiro. Até que segurou com o polegar e o indicador as duas cedras. Clarice sentiu o impacto, debatia-se, abriu as asas. Tarde demais. Elvira sorria sem som e aproximava a sua presa do seu corpo, trazia-a até mirar-lhe o desespero, olhar aquilo no olho da barata e, sem pieguices filosóficas, engoliu-a de uma só vez. Pragmaticamente.

Logo começou a salivar, pois sentia que Clarice não queria descer a garganta. Fazia cócegas no tubo, lutava para viver. Elvira empurrava com os músculos da garganta e mais saliva.

Levantou-se. Neguinha, com a calma de uma psicopata, esquentou a água — mas sentindo Clarice ainda viva na goela — e jogou três pedacinhos de canela em pau. Bebeu bem quente, em grandes goles. Afogou Clarice no próprio estômago. Acendeu um cigarro que tirou do maço de Mirna e voltou a sentar no sofá da sala. Sorriu e tragou até o fim.


Marcio Sales Saraiva

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