café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

Voltar ao Partido Comunista e reassumir o caminho de libertação do povo brasileiro

Na batalha política concreta, ou ficamos ao lado dos que lutam pela justiça e igualdade, ou contribuímos com os que mantém a injustiça, as desigualdades sociais e a exploração mais perversa e desumana.


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Tenho consciência, hoje, que cometi erros na minha trajetória de militante de esquerda, ainda que o meu desejo sincero era [e ainda é] de contribuir, como cidadão, para as mudanças sociais profundas de que o Brasil precisa. Assistindo a prisão de Lula, senti-me forçado a fazer um mergulho em minha vida e nas escolhas que fiz. Sei bem da pequena dimensão que tenho na cena pública, mas me sinto, como responsável pela minha própria existência, no dever de fazer uma correção pública dos meus rumos ideológicos. A pergunta que me movia, diante das cenas da prisão, era: Será que eu ajudei neste processo de deterioração da democracia brasileira e de avanço reacionário?

Comecei minha humilde militância no Partidão, na década de 1980. Minha primeira panfletagem na vida foi para prefeitura do Rio de Janeiro. O candidato era Marcelo Cerqueira (PSB) que tinha como vice o saudoso João Saldanha (PCB). A partir dali, caminhei com os comunistas e trabalhistas. Darcy Ribeiro para governador, depois Brizola como meu primeiro voto para presidente em 1989 e Lula no segundo turno. Collor ganhou.

Ao entrar para o curso de Ciências Sociais na Uerj, deixei o Partido Comunista e ingressei no Partido dos Trabalhadores (PT). Militei no PT até o ano 2000, tendo participado ativamente do “Núcleo de Debates do PT” com Átila, Simpson, Marco San, Ricardo Vieralves, Nilcea Freire, Marcelinho, Príscila, Samantha, as Patrícias, Fayão, Caio etc.

Votei em Lula em 1994 e 1998. Em 2002, já fora do PT, votei em Ciro Gomes (PPS, hoje no PDT). Ali começava a minha busca por uma “terceira via” que pudesse superar o “lulismo” sem cair na direita liberal. Por isso mesmo, continuei apostando em 2006 no PDT de Cristóvão Buarque — hoje no PPS — como alternativa e mais recentemente em Marina Silva (REDE) e no projeto de um “partido de tipo novo”. Ingenuidade? Não! Naquele momento, eu sinceramente acreditava na tal “terceira via”.

De 2002 até 2014 (foram doze anos!) eu escolhi opor-me ao lulopetismo, mesmo reconhecendo avanços significativos aqui e acolá no campo das políticas públicas. Não nutria nenhum ódio ao PT. Votava em candidatos petistas aqui no Rio de Janeiro, como Lindbergh Farias e Wadih Damous, mas neste período, eu entendia que uma “nova esquerda” deveria nascer distante de tudo aquilo que estava em conexão com a sustentação de Lula-Dilma, mesmo que para isso tivéssemos que eventualmente apoiar nomes do PSDB. Acabei, indiretamente, contribuindo para a ascensão de uma onda conservadora, reacionária e anticomunista que nem nos meus piores pesadelos imaginei. Se o reformismo mitigado do lulopetismo apresentava problemas e insuficiências, o que surgiu depois disso foi realmente desastroso, a tal ponto de me forçar rever meus paradigmas.

Comecei uma inflexão — “caí na real” — quando percebi as articulações golpistas contra Dilma Roussef. Foi justamente na luta contra o impeachment que minhas analises começaram a sofrer mutações significativas. Alguns me abandonaram, outros se reaproximaram. Faz parte da dinâmica das relações interpessoais.

Novas leituras e releituras foram importantes (como Badiou, Rancière, Althusser, Zizek, Losurdo e um retorno à Marx) neste período pós-golpe. Senti-me envergonhado de ter apoiado um campo que, a partir de 2014, iria chocar o ovo da serpente. O que fazer depois desse despertar?

Não posso refazer o passado, mas posso construir novos rumos. Tenho certeza que não sou o único ser humano a fazer apostas equivocadas na vida, ainda que os erros alheios não sejam justificativos dos meus. Importa agora fazer diferente e contribuir com a luta contra a injusta prisão de Lula e na defesa da democracia e do campo progressista e de esquerda.

As classes dominantes, pelo menos no Brasil, não permitem sutilezas como “terceira via”, aliás, elas não suportaram nem mesmo algumas concessões que o lulismo fez aos trabalhadores, aos miseráveis, aos negros, as mulheres e as pessoas LGBT, mesmo com setores da burguesia ganhando muito. Com todas as dificuldades de um presidencialismo de coalizão, com uma esquerda minoritária no Parlamento e na sociedade, ainda assim, os governos petistas, com o apoio dos comunistas, representaram avanços possíveis dentro de uma conjuntura complexa. Esta constatação não impede uma profunda autocrítica para a esquerda neste período.

Alguém disse que as pessoas somente perceberiam que a aliança que sustentava os governos de Lula e Dilma era de centro-esquerda “quando o PT não estivesse mais no governo”. Pois é. A queda de Dilma e o atual desastre do avanço das forças reacionárias estão dando esse testemunho nítido. Preciso era avançar dentro daquela coalizão de governo, mas não contribuir com sua queda eleitoral. A direita estava na sombra com seus planos de regressão social. Muitos não perceberam isso, desdenharam até.

É óbvio que os governos de Lula e Dilma cometeram erros e oscilaram diante de oportunidades de avanço em pautas progressistas, tinham lacunas e insuficiências gritantes, mas e agora? Muito pior! Dilma derrubada, Lula preso, Bolsonaro crescendo, a explosão de grupos de direita como MBL, “escola sem partido”, o avanço da LGBTfobia, a volta do Brasil ao mapa da fome, as Universidades sucateadas, a saúde pública na UTI, o desemprego em massa, a violência miserável que rouba celulares e tênis, o narcotráfico etc. É tudo tenebroso!

Na batalha política concreta, ou ficamos ao lado dos que lutam pela justiça e igualdade, ou contribuímos com os que mantém a injustiça, as desigualdades sociais e a exploração mais perversa e desumana. E não vai aqui nenhum maniqueísmo, “principismo”, purismo, esquerdismo (doença infantil!) ou cegueira diante da necessidade de construirmos coalizões amplas na defesa dos direitos humanos, da democracia que ainda nos resta e de políticas sociais no interior da ordem do capital. Apenas explicito que, no frigir dos ovos, ou ajudamos a construir um projeto progressista de sociedade ou colaboramos com as forças contrárias aos interesses das classes trabalhadoras e dos pequenos produtores.

Nesse sentido, assumo publicamente aquilo que já era fruto de minhas meditações pessoais — e até mesmo de algumas postagens — desde 2016 e retorno para as minhas raízes, filio-me ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

#LulaLivre #SomosManuela #MariellePresente #ForaTemer #ContraOgolpe


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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