café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”.

30 FRASES DE MARIO QUINTANA PARA RIR E PENSAR

É neste livro que Mario Quintana (1906-1994) demonstra quase tudo o que pensa a respeito do fenômeno literário: autor, obra e leitor. Neste sentido, é também um livro riquíssimo para entender a teoria poético-literária defendida por Quintana.


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O “Caderno H” (1973) é o sexto livro que eu leio do poeta Mario Quintana (1906-1994). É também o maior livro e o mais diversificado em estilo e humor.

Trata-se de um livro sem linearidade, podendo ser lido a partir de qualquer ponto e da mesma forma pode ser interrompido. É o próprio quem diz:

"Livro é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? Uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada”.

É um livro-festa — disse Bráulio Tavares — onde a poesia é convidada especial. Na verdade, a origem está em 1943, onde o poeta gaúcho escrevia na seção “Do Caderno H” na revista da Província de São Pedro. Somente em 1953 passou para o “Correio do Povo” e em 1973 virou livro.

É neste livro que Mario Quintana demonstra quase tudo o que pensa a respeito do fenômeno literário: autor, obra e leitor. Neste sentido, é também um livro riquíssimo para entender a teoria poético-literária defendida por Quintana.

Dizem que o nome “Caderno H” devia-se ao fato de que tudo acaba sendo escrito na “hora H”, i.e., de última hora. Quintana parece fazer “auto-ironia, uma auto-depreciação: como se aqueles fragmentos de poesia em forma de prosa, aquelas frases que poderiam ser projetos para futuros poemas, aquelas pequenas narrativas tivessem um estatuto de minoridade, valessem pouco” (FISCHER, 2006, p. 40).

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É também nesse livro que encontrei aquelas frases e tiradas lapidares, algumas bem famosas nas redes sociais (por vezes aparecem distorcidas). Retirei 30 para que você possa se deleitar. É hora de puxar um chá ou café. Sinta Mario Quintana.

“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem”.

“O fantasma é um exibicionista póstumo”.

“A esperança é um urubu pintado de verde”.

“Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua”.

“Se eu amo meu semelhante? Sim, mas onde encontrar o meu semelhante?”

“A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.”

Á resposta certa não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas”.

“Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes”.

“Pobre se engasga com cuspe”.

“A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica”.

“Amor, quantos crimes se cometem em teu nome!”.

“Bem que eu gostaria de entender de poesia como certos críticos, mas aí, então, não conseguiria fazer um único verso”.

“Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é uma interpretação”.

“Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam”.

“Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil”.

“A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus”.

“A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta”.

“Prefiro ser alvo de um atentado a ser alvo de uma homenagem: um atentado é mais expedito e não tem discurso”.

“Não sou desses que um dia pensam uma coisa e no outro dia pensam outra coisa muito diferente. Eu penso as duas coisas ao mesmo tempo. Duas ou mais. Não tenho culpa de ser ecumênico”.

“A indiferença é a mais refinada forma de polidez”.

“Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia”.

“São muitos os que morrem antes, outros depois, o difícil é acertar a hora”.

“A vida é preciosa como um pão roubado”.

“O fato é um aspecto secundário da realidade”.

“O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”.

“Sonhar é acordar-se para dentro”.

“Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim”.

“Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sabe o que está fazendo...”

“Amai-vos uns aos outros é muito forte para nós: o mais que podemos fazer, dentro da imperfeição humana, é suportarmo-nos uns aos outros”.

“O tempo é a insônia da eternidade”.

Concordo com o poeta e crítico literário Gilberto Mendonça Teles:

“No Caderno H há de tudo: anotações líricas, pequenas narrativas, poemas, prosas poéticas, poema em prosa, crítica, epigrama, anedota, citações e, notadamente, o material mais importante para um estudo sobre a concepção poética e retórica de Mario Quintana. Aqui, sim, como se trata de quase setecentos textos (minitextos), existe uma grande quantidade de anotações que constituem uma excelente “documentação” para uma teoria da literatura, que muito tem a ver com o modernismo brasileiro”.

O livro é maravilhoso!

Fonte de pesquisa: “Poética de Mario Quintana: uma teoria recortada a partir do Caderno H”. Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Letras, Cultura e Regionalidade da Universidade de Caxias do Sul por Daiane Pedroti Venturin, 2010. Professora Orientadora: Dra. Lisana Bertussi.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”. .
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