café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”.

A DIFÍCIL ARTE DE ASSUMIR O AMOR PELO AMIGO

Vivemos um contexto de avanço da extrema-direita e da violência homofóbica. É louvável que tenhamos um romance de formação que envolve um relacionamento ambientado no tradicionalíssimo Colégio Militar. É um contraponto ao conservadorismo hipócrita que tenta ridicularizar as relações homoeróticas, patologizá-las ou torná-las invisíveis na sociedade.


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“Aquele abraço” (Marcelo Maldonado, Multifoco, 2017) foi se desenvolvendo em lenta espiral narrativa sobre dois jovens (Victor e Lucas) que se conhecem no Colégio Militar do Rio de Janeiro em meados da década de 1980. O primeiro tijucano, o segundo suburbano, ambos filhos de militares.

Durante algumas dezenas de páginas, o contato entre os dois foi se aproximando, ganhando maior convivência escolar, pessoal e familiar. O ambiente dos anos 80 é muito conhecido por mim, pois nele vivi intensamente. Tempo de mudanças, de esperanças, de pós-ditadura, de nova Constituição e de resquícios de um passado que ainda hoje nos ronda como fantasma (veja, por exemplo, o projeto sobre ampliação de escolas militares ou militarização de escolas civis). É neste ambiente histórico e dentro de uma estrutura escolar muito viril que cresce a amizade de Lucas (o narrador) e Victor (um craque no futebol do colégio).

O texto é rico de informações musicais (Lucas aprende a tocar piano com sua tia e acaba se envolvendo com a banda do Colégio cujo maestro, como ele e a tia, têm forte influencia de clássico, jazz e blues) e a própria história parece se desenvolver como uma partitura de uma longa peça para piano. O ritmo vai se alternando até se tornar mais tenso, sensual e por vezes violento a partir do capítulo 20. Uma sensualidade nada vulgar, diga-se. Há no texto de Maldonado estilo, forma cuidadosa, conteúdo selecionado, ritmos alternados e muita beleza. E nem precisa entender de teoria literária, basta gostar de ler para perceber isso tudo.

A conexão com Lourdinha e Marcos da minissérie “Anos Dourados” da TV Globo é inevitável (os próprios personagens comentam as cenas), sendo que no livro, o casal em questão não se enquadra na heteronormatividade, ainda que ambos não tenham clareza disso, dado o caráter em formação destes personagens. Chego a desconfiar que o livro de Maldonado, de alguma forma, “atualiza” a famosa minissérie escrita por Gilberto Braga e dirigida por Roberto Talma em maio de 1986. Aliás, é fácil notar como o romance tem uma “pegada” maravilhosa para a telinha. Posso visualizar com facilidade um filme ou uma série. (Além de formando em Letras com pós em Escrita Criativa na PUC-RS, o autor fez roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, este dado me parece significativo para minhas desconfianças).

Vivemos um contexto de avanço da extrema-direita e da violência homofóbica. É louvável que tenhamos um romance de formação que envolve um relacionamento ambientado no tradicionalíssimo Colégio Militar. É um contraponto ao conservadorismo hipócrita que tenta ridicularizar as relações homoeróticas, patologizá-las ou torná-las invisíveis na sociedade.

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O escritor Marcelo Maldonado está de parabéns pela coragem de escrever o que escreveu e pela beleza, riqueza de detalhes (lembrei-me de “A montanha mágica” de Thomas Mann) e ternura com que o fez — trazendo-me lembranças de Caio Fernando Abreu. Depois de um livro de poesias, este é seu primeiro romance. Podemos esperar mais?

Volto ao livro para dizer que os últimos capítulos são eletrizantes. Galvão Bueno ficaria rouco e ouvi na minha alma a voz de Bethânia cantando “Explode coração”, além de Nat King Cole: “When I fall in love, it will be forever”. Lindo!

“Aquele abraço” é um bom exemplo de que se pode fazer literatura brasileira de qualidade abordando relacionamentos homoafetivos que fogem ao senso comum.

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”. .
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