café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”.

A MATURIDADE CHEGA AO FINAL DO DIA, DE TARDINHA

Mário Raul Morais de Andrade (1893-1945) marcou - com "Remate de Males" (1930) - uma mudança no modernismo brasileiro no caminho da reflexão e do mundo interno, deixando-nos preciosas poesias.


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"Ôh, doce amiga, é certo que seríamos felizes Na ausência deste calamitoso Brasil!... Fecho os olhos... É pra não ver os gestos contagiosos... Ando em verdades que deviam já não ser do tempo mais... A nossa gente vai muito sofrer e trago o coração inquieto." (Mário de Andrade em “Remate dos Males”, 1930)

“Remate de Males” (1930) de Mário de Andrade trouxe-me uma poesia diferente dos quatro livros anteriores que li do mesmo autor. Aqui encontrei um eu-lírico cansado do dia agitado, da fase rebelde e rupturista dos seus primeiros poemas. Há mais sossego, felicidade, tarde de recreio, amores. Confesso que me identifiquei muito mais com esse Mário de Andrade que parece anunciar a noite que vem, i.e., a fase final de sua obra. Agora, a utopia estrambólica Pau-brasil do modernismo inicial encontra-se com o chão duro da vida e busca caminhos mais interiores e reflexivos. Em minha opinião, Mário de Andrade escreve com mais leveza, mais riqueza, mais serenidade.

O título do livro já indica uma virada, um novo tempo. Remate significa conclusão, acabamento, o processo de embelezamento e retoque que termina uma obra, aquela última demão que aprimora o trabalho para que possa termina-lo, posto que começasse com a revolução modernista e, em especial, com sua “Paulicéia Desvairada”.

Em “Louvação Matinal” o eu-lírico assim se expressa:

“Possuir consciência de si mesmo isso é a felicidade, Isso é a glória de ser, fazendo o que será. (...) sou daqueles que sabem o próprio futuro, E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia, Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades. O meu passado... Não sei. Nem nunca matuto nele.”

Consciência de si mesmo, felicidade e abandono do passado que “nunca matuto nele”. O eu-lírico sabe “o próprio futuro”, não solta “a rédea do dia”, não permite ser inundado pelo “acaso” na medida em que assume existencialmente seu papel na vida, seu ser no mundo, sua produção e consequências.

Há um momento de “Marco da Viração” — o título diz tudo né!? — que o eu-lírico se despoja de tudo que foi feito ou construído até aqui, assumindo um despojamento que se dissolve na multidão — é uma morte simbólica que foi trabalhada em outro poema neste mesmo livro. Esta “doçura de pobreza” que nos fala aqui será a base para o novo.

“Doçura da pobreza assim... Perder tudo o que é seu, até o egoísmo de ser seu, Tão pobre que possa apenas concorrer pra multidão... Dei tudo o que era meu, me gastei no meu ser, Fiquei apenas com o que tem de toda a gente em mim... Doçura da pobreza assim... Nem me sinto mais só, dissolvido nos homens iguais!”

A saudada barulheira do começo é substituída por outra percepção.

“Há vida por demais neste silêncio nosso!” (Poemas da Negra)

Em “Tempo de Maria” o eu-lírico se entrega ao amor, a veneração de sua musa. Acho que é a primeira vez que leio tais ousadias em Mário de Andrade. Destaquei quatro versos:

“Já sei que não tem propósito Gostar de donas casadas, Mas quem que pode com o peito! Amar não é desrespeito (...)”

“(...) é amante de poeta Toda e qualquer mulher que passe!”

“Sofro mas me orgulho de meu sofrer, É linda a malvada que fui escolher!”

“Casar é uma circunstância Que se dá, que não se dá, Porém amar é a constância (...)”

Encantou-me esse poema! Assim como, em outra pegada, “Pela noite de barulhos espaçados” foi um soco profético sobre o futuro da humanidade. Fiquei aturdido.

Para terminar e (tentar) convencer você de ler esta obra, destaquei dois versos do poema “Danças”:

“A moral não é roupa diária! Sou bom só nos domingos e dias-santos!”

“Não há canalha sem virtude. Não há virtuosos sem desonra.”

Pense nas diversas situações que vivemos hoje na política e no cotidiano hipócrita das "pessoas de bem". Mário de Andrade continua falando conosco em pleno século 21.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”. .
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