café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

A primavera de Vivian Pizzinga

Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Ela traz na sua escrita ficcional diversas questões do mundo interno e dos encontros-desencontros relacionais, mas não fica nisso. Seus contos refletem uma riqueza de questões humanas que se escondem no jogo [aparentemente banal] do cotidiano.


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“A primavera entra pelos pés” (Editora Oito e Meio, 2015) é o primeiro livro que li da escritora Vivian Pizzinga. Antes deste, ela publicou “Dias roucos e vontades absurdas” (Oito e Meio, 2013) e já participou de várias coletâneas. Dizem que está preparando um romance, talvez já tenha saído. Não sei.

Gostei muito dos 22 contos que aqui foram reunidos em três blocos: “Circunvoluções” (6 contos), “Eletroconvulsoterapia” (8 contos) e “Ausência de pontos finais” (8 contos).

Depois do inverno melancólico da alma, seus contos são primaveras que não transbordam na solaridade de um verão. Estão entre um e outro. Falam de uma “Lacuna”, habitam numa “Interseção” e reproduzem com riqueza psicológica diversos ângulos e jogos de “Cena”.

Vivian Pizzinga é também psicóloga e traz na sua escrita ficcional diversas questões do mundo interno e dos encontros-desencontros relacionais, mas não fica nisso. Se você fizer uma leitura apressada de seus textos poderá achar algo de ‘naif’ ou ingênuo, mas é cilada. É nas entrelinhas que você encontrará o ouro de profundas meditações sobre o ser e sua relação com o mundo. O jogo está escondido, mas aberto.

Alguns contos me chamaram mais. Eu fiquei impressionado com o junguiano “Eixo”, o temor de “Prazo”, a ruptura clara e assumida de “Idiossincrasias”, o paranoico-delirante de “Janela sem som”, a resistência ao analista de “O trato”, o fantasmático “Agregado”, o belíssimo e denso de “O descuido que é viver”, a questão da idealização em “O verme do meu analista” e o delicioso “A vida é jazz” (Leiam! Leiam! Leiam!).

No último bloco fiquei encantado com o magistral jogo de cenas, ângulos e tempos do conto “Cena”, o lacaniano “Palavrório” (pense nas suas discussões de casal...), a genialidade dos encontros/desencontros carioquíssimos de “Lacunas” — e sua continuidade em “Chocolate quente” — e a ficção da ficção em “Matei um homem” (Seria o homem-livro? Seria a própria primavera que anuncia o verão de um futuro livro? Seria o fim do luto-inverno? Seria...).

Deixe essa primavera entrar pelos seus pés e depois me conte como foi.

Clique aqui para ver o BOOK TRAILER | "A primavera entra pelos pés" de Vivian Pizzinga. (Molotov Produções)

Leia aqui a entrevista de Vivian Pizzinga para o site ALGO A DIZER.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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