café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”.

Nós estamos internados no Sanatório Berghof

Este livro — uma viagem ao mundo interno — me deixará algumas marcas: as profundas reflexões sobre a complexidade do que chamamos tempo, a doença, o contraditório em todo ser humano e a morte/finitude.


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A escrita detalhada, sedutora, belíssima e farta de referências da “alta cultura europeia” e com descrições atmosféricas impressionantes me ajudaram a viajar com o jovem Hans Castorp pela montanha mágica onde está o Hospital Berghof, um reduto de burgueses decadentes — ou nem tanto — e adoecidos pela tuberculose (ou suspeitos de... ).

O Berghof ficava encravado nos Alpes suíços, próximo à cidade de Davos. Chamado de “sanatório”, ele era uma "ilha social" alienada e distante da realidade do mundo europeu (“a planície”, os de baixo) que sofreria o “trovão” aterrorizante da primeira Grande Guerra. Este isolamento proporcionado pelo local também facilitaria a formação, introspecção e variadas experiências durante os sete anos de internação do jovem Castorp. O número sete é de uma riqueza interessante.

O livro começou a ser escrito por Thomas Mann em 1915, mas foi concluído e lançado em 1924, contribuindo para o seu Prêmio Nobel em 1929 e chegando ao Brasil 34 anos depois, graças a tradução do judeu alemão/brasileiro de nome Herbert Caro — a minha edição foi revisada e atualizada (Cia. das Letras, 2016).

Este livro — uma viagem ao mundo interno — me deixará algumas marcas: as profundas reflexões sobre a complexidade do que chamamos tempo, a doença, o contraditório em todo ser humano e a morte/finitude.

Não esquecerei os riquíssimos debates ideológicos e existenciais entre Lodovico Settembrini (humanista, maçom, iluminista e defensor do progresso liberal, de um futuro humano radiante) e Leo Naphta (católico de mentalidade jesuítica e simpatizante da revolução socialista, por vezes, reacionário e cético quanto à ciência). Cá entre nós, hoje me sinto mais próximo do arquetípico Naphta do que Settembrini que lembra algo de minha passional juventude em vias de extinção.

Ali no Berghof encontrei uma síntese da elite do mundo europeu do início do século XX — mas também algo comum a todos os seres humanos — e de sua diversidade de tendências, incluindo o saboroso e sensual hedonismo de Mynheer Peeperkorn e madame Clawdia Chauchat, um tesão. Há projeções homossexuais de Mann na madame ou em Peeperkorn?

Na minha leitura, a formação do jovem Hans Castorp dentro do sanatório será incompleta e precária, "em falso", porque é preciso arriscar-se no mundo, descer a montanha, adentrar a “planície” e viver a duríssima realidade da vida, dos anônimos na multidão. Mesmo que para isso encontre a morte. E existe formação que não seja para a morte?

Eu queria dizer tanta coisa sobre este livro, mas poderia estragar a leitura de quem ainda não fez (se é que estes meus devaneios aqui já não prestam este desserviço à obra). Reproduzo as palavras do crítico literário Blomm:

“Hoje em dia, a fascinante história de Mann, primeiramente, não traduz ironia nem paródia, mas a carinhosa visão de uma realidade que não mais existe, de uma alta cultura europeia perdida para sempre, a cultura de Goethe e Freud.[Em nosso tempo], ‘A Montanha Mágica’ é vista como um romance histórico, monumento de um humanismo perdido. Publicado em 1924, o romance retrata uma Europa prestes a se despedaçar na Primeira Guerra Mundial, catástrofe que faz Hans Castorp descer da sua Montanha Mágica. Grande parte da cultura humanística sobreviveu à Grande Guerra, mas Mann, profeticamente, prenuncia o terror nazista que se instalaria no poder não mais que uma década depois do surgimento do romance. Embora Mann talvez pretendesse criar uma carinhosa paródia da cultura europeia, as contra-ironias do tempo, bem como das mudanças e da destruição, fazem de A Montanha Mágica (...) um estudo da nostalgia, imensamente tocante.”

Foram muitas as passagens que postei no meu facebook durante o mergulho noturno nas 856 páginas (gostava também de ler em tempos cinzentos e/ou chuvosos) onde o tempo, por vezes, tornava-se rápido, lento, relativo, monótono, chato e/ou confuso. Tudo isso é proposital, resista! (O capítulo "Nuvem" foi para mim um ícone da condição labiríntica do ser humano).

Em síntese — e nada do que eu escreva será capaz de traduzir a sapiência escondida em “A montanha mágica” —, de acordo com minha visão de mundo, entendo que a magia desta obra te fará repensar tudo sobre a existência humana, sobre sua própria vida: suas contradições e paradoxos, sua seriedade e seu ridículo, seu prazer e morte, sua fé e ceticismo, sua singularidade e estranha adaptabilidade bovina de rebanho.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”. .
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