café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo.

O “CLÃ DO JABUTI” e os 126 anos de Mário de Andrade

Mario de Andrade (1893-1945, faleceu com 51 anos) foi escritor, crítico literário, musicólogo e também um estudioso do folclore, da etnografia e da cultura brasileira, expressando tudo isso em seu livro “Clã do Jabuti", originalmente lançado em 1927.


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Mario de Andrade (1893-1945, faleceu com 51 anos) foi escritor, crítico literário, musicólogo e também um estudioso do folclore, da etnografia e da cultura brasileira, expressando sarcasticamente em “Clã do Jabuti":

“Mas isso de assombração Só quem vê é que acredita...”

Você vê? Eu vejo vezenquando.

Em 1927 publicou esta obra poética batizada como “Clã do Jabuti”. Ela está pautada nas nossas riquíssimas tradições populares e contém forte embasamento etnográfico — eu nada sabia sobre muitas palavras e expressões usadas em sua poesia — incluindo a música e seus ritmos. Foi ela que eu acabei de ler ontem. Antes eu havia lido “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema” (1917), “Pauliceia Desvairada” (1922) – onde ele funda o “desvairismo” rsrsrs — e “Losango Cáqui” (1926).

No “Clã do Jabuti” tem muito de um Brasil já conhecido, mas também carente de reconhecimento entre os “filhos do luso e da melancolia”.

“Eu queria contar as histórias de Minas Aos brasileiros do Brasil... Filhos do Luso e da melancolia”.

A nossa musicalidade está aí, claro. Poemas como “Carnaval carioca” se misturam com sambinha, moda, ritmo sincopado (um bloco de poemas!) e o “Noturno de Belo Horizonte”, além de dois poemas acreanos. São poemas nacionalistas — mas sem patriotismos rococós! — e que expressam uma sonoridade, uma sinfonia poética onde sabe-se que

“Brasileiro, dorme, Brasileiro... dorme... Brasileiro... dorme...”

E ainda dormimos né!?

O que não impede o eu lírico de Mario de Andrade exaltar nossas raízes nacionais, esse “assombro de misérias e grandezas”, profundamente atual.

“E abre alas que Eu quero passar! Nós somos os brasileiros auriverdes! As esmeraldas das araras Os rubis dos colibris Os abacaxis as mangas os cajus Atravessam amorosamente A fremente celebração do Universal! Que importa uns falem mole descansado Que os cariocas arranhem os erres na garganta Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais? Que tem se o quinhentos réis meridional Vira cinco tostões do Rio pro Norte? Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas, Brasil, nome de vegetal!”

Mas fique ligado. Mario de Andrade nada tem desse “neopatritismo de direita” que nos ronda faz algum tempo. É um amor pelo Brasil profundo, pelos brasileiros (e não pelas oligarquias dirigentes!), pelas nossas raízes culturais, pela nossa comida, pelas nossas misturas, alegrias e melancolias.

“Brasil amado não porque seja minha pátria, Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der... Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso, O gosto dos meus descansos, O balanço das minhas cantigas amores e danças. Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada, Porque é o meu sentimento pachorrento, Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.”

É deste Brasil de Mario de Andrade, do nosso Brasil, que ainda hoje lutamos por liberdade, justiça e equidade. Salve, salve!

Observação: No próximo 09 de outubro de 2019 celebramos 126 anos do seu nascimento. Mario de Andrade foi fundamental para o modernismo brasileiro.


Marcio Sales Saraiva

... e começou a buscar sentido numa sociedade que perde seus velhos laços sociais para viver o espetáculo do consumo e da neurose narcisista. Sou apenas uma narrativa no caos, um recorte ou uma janela. Se for prazeroso para você, fique aqui e tome um café comigo..
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