café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Ler “é minha catarse, é meu antidepressivo” diz a escritora Verena Cavalcante

Verena Cavalcante é formada em Letras, trabalha com tradução e revisão de textos, e vive reclusa em uma casa no interior de São Paulo com dois gatos, dois cachorros, um homem, um bebê, e seus demônios. É autora de Larva (Editora Oito e Meio, 2015) e O Berro do Bode (Editora Penalux, 2018).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Verena Cavalcante que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu comecei a escrever tão logo fui alfabetizada. Minha primeira história foi um spin-off de “A Pequena Sereia”, em que o príncipe Eric era quem se metamorfoseava e ia viver no fundo do mar. Na época eu estava no pré, levei o livrinho pra escola – tinha toda uma estrutura de livro infantil, desenhos gigantes com parágrafos de uma única linha – e causei furor entre meus coleguinhas. Lembro que a professora até mostrou para os pais na reunião dos pais, foi meu primeiro reconhecimento como autora (risos). Depois disso, segui escrevendo sobre histórias que já existiam. Inclusive, na adolescência, tinha um perfil numa página dedicada a fanfics de Harry Potter, centenas de leitores e gente que (até hoje, acredita?) pede pra eu voltar a escrever sobre o universo. Só parti para a literatura autoral quando já era adulta. Fui receosa, incerta de ter uma voz própria. Mas tem dado certo até agora, embora eu sofra de síndrome de impostora. Vivo pensando que vai chegar o dia em que as pessoas vão perceber que não faço a menor ideia do que estou fazendo e, na verdade, tudo o que está ali no papel é lixo.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Os dois, né? Os dois. Eu bato nessa mesma tecla que todos os outros autores, a de que antes de ser um escritor você tem que ser um leitor. E eu não sei se eu sou grandes coisas como autora, mas como leitora ninguém pode me botar defeito. Já tive momentos nos quais lia mais de 100 livros por ano. Hoje sou mãe, tenho uma bebê de um ano e pouco, se eu passar de 60 volumes esse ano já estou satisfeita, mas ler, mais do que escrever, é meu vício. Eu só me sinto verdadeiramente feliz quando estou com um livro nas mãos, é minha catarse, é meu antidepressivo. Eu penso que a escrita pega carona. Quando a gente se torna um leitor ávido, é difícil fugir da vontade de escrever. A cabeça fervilha. Eu acredito que sim, um pouco é um dom na forma como se enxergam as coisas. Um não-escritor vê uma mamadeira sobre a mesa e pensa, “ah, nessa casa tem um bebê”. Um escritor, por sua vez, pensa no encontro entre as duas pessoas que conceberam o bebê, nos percalços da gestação, na depressão pós-parto, em como vai ser quando o casamento acabar e puxa vida, o que aconteceria se esse bebê sofresse de morte súbita? Claro que essa vista que se transfigura em narrativa, em desmembramento, também pode ser treinada, mas eu penso que algumas pessoas têm o dom para contar histórias. Ao mesmo tempo, escrever é diferente de pensar, envolve prática, estilo, conhecimento de normas e regras, dedicação. Antes, meu processo criativo era bastante caótico. Como eu não tinha compromisso, eu escrevia quando queria, se queria, se não tivesse nada melhor passando na tevê. Atualmente, tento ser mais disciplinada, pois tenho alguns projetos que precisam ser concluídos e outros por vir. E, que surpresa!, percebi que funciono melhor na base do comprometimento do que naquela velha falácia de esperar a musa sussurrar no ouvido.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Vou considerar “clássicos” como cânones literários, tudo bem? Pensando assim, meus favoritos são: Edgar Allan Poe, William Faulkner, Graciliano Ramos, Thomas Mann, Vladimir Nabokov, Clarice Lispector, Sylvia Plath, Anne Sexton, Angela Carter, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Raduan Nassar, José Mauro de Vasconcelos, Henry James, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Shirley Jackson, Franz Kafka... Enfim. Sobre influência no estilo, na escrita, eu penso que Raduan Nassuar, Hilda Hilst e Angela Carter tiveram um grande papel para me inspirar a criar fluxos de consciência, monólogos infantis e frases verborrágicas.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Internacionalmente, meus favoritos são todos mulheres: Elena Ferrante, Mariana Enriquez, Samanta Schweblin, Svetlana Aleksiévitch, Ludmilla Petrushevskaya. Nacionalmente, gosto muito de Marco Severo, Luiz Biajoni, Raphael Montes, Glauco Mattoso, Antonio Carlos Viana, Juliana Frank, Sheyla Smanioto, Nathalie Lourenço, Bruna Mitrano, Cinthia Kriemler, Aline Bei. Também tive uma grata surpresa este ano lendo os livros das estreantes Monique Malcher e Morgana Kretzmann. Obras maravilhosas. São autoras para se acompanhar.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Em livro físico: “A Vida Mentirosa dos Adultos”, obra recém-lançada da Elena Ferrante; e “Achados e Perdidos, Volume 2” da Trilogia Bill Hodges, do Stephen King. No Kindle: “O Drama da Criança Bem-dotada”, da psicanalista Alice Miller; e “No Seu Pescoço”, da Chimamanda Ngozi Adichie. No notebook, as graphic novels: “Are You My Mother?”, da Alison Bechdel; e “Minha Coisa Favorita É Monstro”, da Emil Ferris.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Tenho dois livros de contos publicados (“Larva”, Editora Oito e Meio; e “O Berro do Bode”, Editora Penalux) e participei de três coletâneas (“Sociedade dos Corvos”, Editora Coerência; “Nosotros” – 20 Contos Latino-americanos, Editora Oito e Meio; “Leia Mulheres”, Editora Pólen).

Sobre a publicação, na realidade, foi bem fácil. Eu tinha escrito “Larva”, meu primeiro livro, e estava em uma oficina de literatura ministrada pelo autor Luiz Biajoni, quando ele perguntou se alguém já tinha escrito alguma coisa. Eu disse que sim, embora não soubesse se valia a pena, ele pediu para que eu mandasse o arquivo com o texto, eu mandei, ele gostou e enviou para a Flávia Iriarte, da Editora Oito e Meio. Algum tempo depois ela me contatou, interessada em colocar o livro no catálogo da editora. Daí em diante fui fazendo amizades e contatos no meio editorial/literário, e as coisas fluíram naturalmente.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Pelo início, por “Larva”, o meu bebezinho disforme e triste.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Para ler: prosa (conto e romance). Para escrever: prosa (conto).

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Desde o nascimento da minha filha, em junho de 2019, tenho me dedicado completamente à maternidade. Contudo, sou formada em Letras e trabalho com tradução de textos, revisão de textos, consultoria literária e aulas de inglês desde 2011. Tenho voltado aos poucos, mas a pandemia brecou o volume de trabalho. Estou às ordens se alguém precisar de um servicinho bacana, viu?

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Eu acho que tudo é política. Essa pergunta é política. O fato de eu estar respondendo a isso sentada na frente de um notebook de última geração é política. Tudo é político, inclusive a arte e, principalmente, a arte. Negar isso é desonestidade, hipocrisia ou burrice.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Ainda não me senti. Estou esperando a chegada dessa epifania.

12- Além da literatura, quais são seus interesses e como eles influenciam na sua escrita?

Meus hobbies são colecionar insetos, fotografia post-mortem e ossadas de animais. Também me interesso bastante por ocultismo, xamanismo e taxidermia. Penso que, com um olhar atento, é possível notar todos esses temas presentes na minha literatura. Esta é uma das razões pelas quais, nos meios literários, ela recebe o rótulo de “horror”.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Queria muito poder falar sobre isso com detalhes, pois estou muito empolgada e feliz, mas, por motivos de contrato, não posso (ainda). O que dá pra adiantar é que, até o fim do ano, estarei dando a cara a bater com três contos inéditos em uma antologia fantástica que será publicada por uma editora enorme.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

“Foi o berro do bode, esticado e sofrido, simulacro de choro de bebê novo, sinal ou presságio, que solidificou a decisão de prostrar-se de joelhos diante da moça que caminhava com as bestas, fosse quem fosse, sagrada ou profana, a implorar-lhe por filhos que vingassem no útero agreste.”

*

  • “Desde criança, meus dentes coçam
  • Desde criança
  • Eles coçam nos cantos
  • Eles coçam por dentro
  • Eles pulsam como larvas
  • Recheando buracos de feridas
  • Reluzentes de bicheira
  • E eu coço com a língua
  • Coço com os outros dentes
  • Coço com as unhas
  • Abrindo caminho pelas gengivas
  • Rindo do gosto salgado de ferrugem
  • Do cor de rosa no branco do esmalte
  • No banho, escovo com força
  • No banho
  • Faço espuma vermelha
  • E deixo a Gillette bem pertinho
  • Da escova, bem pertinho
  • Um dia eu quero coçar bem fundo
  • Saber que gosto tem
  • O liso brilhante dos ossos”

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Onde encontrar Verena Cavalcante?

Facebook, entre aqui.

Instagram, entre aqui (haxsabbaten)e aqui também (resenhasmeiaboca).

E-mail: [email protected]

Site "eu sou assombrada", entre aqui.

“Larva” compre aqui.

“O Berro do Bode” compre aqui.

Você também pode encomendar os 2 livros na Amazon, clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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