café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Sexo, bom humor e feminismo na escrita de Sonia Nabarrete

Sonia Nabarrete é natural de São Caetano do Sul, no ABC Paulista. Formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo, atualmente trabalha como freelancer na produção, edição e revisão de textos. É autora da novela Eretos, de Contos Safadinhos e do romance Abusada, além de ter participado de coletâneas de contos e de poemas, no Brasil e em Portugal. Sua escrita é marcada pelo erotismo sob o ponto de vista feminino e feminista, com um toque de humor.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Sonia Nabarrete, que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Desde a adolescência, escrevo ficção — o nome da minha filha, Marina, é também o nome da protagonista de um conto que escrevi aos 15 anos —, mas mostrava meus textos apenas a pessoas da minha intimidade. Só me mostrei publicamente em 2012, na maturidade, quando, incentivada por uma amiga, a escritora Nanete Neves, participei de um concurso de contos promovido pela Giostri Editora e Espaço Parlapatões, em São Paulo. Fui a segunda colocada com “A Cheiradora”, que tem bem o meu estilo, uma mistura de erotismo e humor. O concurso rendeu participação na antologia “Quem conta um conto”.

Aí me animei e comecei a participar de oficinas de escrita criativa e de antologias de contos e poesias. Em 2017, publiquei meu primeiro livro, a novela “Eretos”, pela Alink Editora.

“Eretos” é uma paródia de “E não sobrou nenhum (O caso dos dez Negrinhos)”, de Aghata Christie. Pessoas envolvidas em assassinatos são reunidas em um uma ilha na costa pernambucana, com a expectativa de concorrer a um prêmio milionário, mas começam a ser mortas em meio a manifestações de priapismo, que é a ereção peniana dolorosa e prolongada, mesmo sem desejo sexual. Nas mulheres acontece transtorno equivalente, o clitorismo, que provoca dor e aumento anormal do clitóris. Muitos leitores me escreveram para contar que o livro tinha apimentado sua vida sexual. Fiquei feliz com esse delicioso efeito colateral porque a intenção era apenas contar uma boa história.

Em 2018 lancei, também pela Alink Editora, meu segundo livro, “Contos safadinhos”, com 18 contos eróticos ilustrados por Mariana Cristal Huy.

E neste ano, em plena quarentena, publiquei meu terceiro livro, o romance “Abusada”, pela Editora Feminas. Nele conto a história de Regininha, uma mulher nascida na década de 50, que vive adiante do seu tempo. Mas isto não impede que ela se envolva em uma relação abusiva e sofra as consequências.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Creio que é a soma de tudo isso. A inspiração pode surgir naturalmente, a partir de uma lembrança, de algo que você presencia ou apenas imagina. Mas, para produzir um bom texto, é necessário ler muito. Recomendo, também, participar de oficinas de escrita criativa para aprimorar o texto, aprender a fazer leitura crítica e interagir com outros autores. As ministradas por Luiz Bras e Nanete Neves são excelentes.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Carlos Drummond de Andrade, Ligya Fagundes Telles, Jorge Amado, Paulo Leminski, Machado de Assis, Hilda Hilst, Pablo Neruda, Clarice Lispector, Milan Kundera, Henry Miller, Anaïs Nin, Gustave Flaubert, Franz Kafka, Hermann Hesse.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

A literatura brasileira contemporânea está repleta de excelentes autores. Eu destacaria: Glauber Soares, Sandra Regina de Souza, Reinaldo Moraes, Nelson de Oliveira, Adriane Garcia, Cinthia Kriemler, Lilia Guerra, Germano Quaresma, Chris Herrmann, Liria Porto e Marcilio Godoy. Sugiro que o leitor visite o site de pequenas editoras, como Feminas, Alink e Patuá, onde há ótimas opções.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo “E se Deus for um de nós”, romance de Tadeu Sarmento, e estou gostando muito.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Além de publicar em minha página no facebook e revistas eletrônicas, participei de várias antologias, de contos e poemas, no Brasil e em Portugal. Muitas coletâneas resultaram de concursos, oficinas de escrita criativa, ou fui convidada por quem estava na organização. A menos que o autor opte pela autopublicação, não é fácil publicar, mas há possibilidade em pequenas editoras, com pequenas tiragens, cerca de 100 a 200 exemplares. Meus livros sempre foram publicados por editoras pequenas. As grandes ignoram autores que não são conhecidos e possam garantir um bom retorno de vendas. Minha produção literária até agora foi a seguinte:

Livros:

  • Eretos- Editora Alink- 2017
  • Contos Safadinhos- Editora Alink- 2018
  • Abusada- Editora Feminas- 2020

Participação em antologias/Contos

  • Quem conta um conto- Editora Giostri-2012
  • A arte de enganar o Google- Editora Terracota- 2013
  • Bad girl- contos eróticos - Silkskin Editora
  • Um circo de percalços falsos: guia para a bibliotecária das galáxias- Coletivo As lontras daquela hora - Estúdio Aspas- 2016
  • O outro lado da notícia- Alink- 2016
  • Primeiramente- Alink Editora- 2017
  • Mulherio das Letras- Mariposa Cantonera- 2017
  • Eros Ex Machina Robôs Sexuais- 2018
  • Úmidas Paisagens- Penalux -2018
  • Amo minha idade - Oficina do Livro- 2020
  • Era de Aquária - A Grande Inundação - Coletivo Kriptokaipora - Oito e Meio- 2019
  • Coletânea do concurso de microcontos de Humor de Piracicaba- em 2014,2015, 2017, 2018 e 2019.

Participação em antologias/Poesia

  • Erosário- poemário erótico- Silkskin Editora-2016
  • Hiperconexões: Realidade Expandida- Editora Patuá- 2017
  • Damas entre verdes - Edições Senhoras Obscenas - 2018
  • Senhoras Obscenas - Antologia Poética- 2019

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Os minicontos que tenho publicado no facebook com a hastag quarentextos. Estão sendo escritos durante a quarentena e têm as características dos meus outros trabalhos: erotismo sob o ponto de vista feminino e feminista, com um toque de humor.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Gosto de ler tudo, poesia e prosa em diferentes formatos. Quanto à produção, prefiro textos curtos, tanto em prosa quanto em poesia.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Nasci em São Caetano do Sul, no ABC Paulista e me formei jornalista pela Universidade Metodista de São Paulo. Hoje estou aposentada e o que recebo mal dá para sobreviver. Complemento o orçamento prestando serviços de produção, edição e revisão de textos. Sou divorciada e tenho dois filhos, Pablo e Marina, que me enchem de orgulho.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Não consigo dissociar o que escrevo do que eu penso. Acho que o autor tem que ter uma postura política e deixar que ela transpareça em seus textos. É impossível citar o atual governo, por exemplo, sem criticá-lo.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Oficialmente, um autor só é considerado escritor quando publica seu primeiro livro. Acho que é por aí. O autor precisa do leitor para validar seu trabalho.

12- O que achou da taxação dos livros?

Acho importante que autores brasileiros se organizem para garantir políticas públicas que estimulem a escrita e a leitura. O plano do atual governo de taxar livros é um golpe pérfido em um mercado que luta para sobreviver. Vai inviabilizar pequenas editoras e autores independentes.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Não sei em que momento, porque dependo do interesse e da disponibilidade de editoras, penso em reunir os quarentextos em um livro. Tenho também uma série de micropoemas que gostaria de publicar. E tenho ainda dois romances prontos: Carvão, o poeta da quebrada, que trata da questão do racismo, e Farofa High tech com pimenta, uma ficção científica com toques de erotismo.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto:

BATIDO | Sonia Nabarrete

Bateu roupa na máquina, bateu bolo, bateu-papo virtual. Tomou batida de limão, bateu bife, bateu rango. Vontade de bater perna, mas na impossibilidade, foi às redes sociais bater boca com bolsominions. Bateu palmas para todos que pediram o impeachment do traste. Quando o irresponsável do presidente se pronunciava pela TV, batia panelas na janela.

Quando ele ligava, batia saudade, e ela batia siririca. E quando batia o sono, batia em retirada para a cama.

Ao final da quarentena, bateram em sua porta para uma pesquisa. Queriam saber como tinha sido o distanciamento social. Ela respondeu de bate-pronto: “Foi tranquilo, passou batido”.

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Onde encontrar Sonia Nabarrete?

Facebook, entre aqui.

Instagram: @nabarretesonia

E-mail: [email protected]

Seus livros: "Contos safadinhos" está esgotado no momento. "Eretos" pode ser adquirido diretamente com a escritora pelo email [email protected] E "Abusada" está disponível no site da Editora Feminas, entre aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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