café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

10 DICAS DE EPICURO PARA SER FELIZ NESTE MUNDO


epicuro-filosofia-prazer.jpg

Somente na ausência do calor demoníaco carioca, senti-me aliviado para escrever esta pequena síntese da “Carta a Meneceu“ de Epicuro de Samos, filósofo grego que viveu entre 341 a 270 a. C. fundando uma escola que ficou conhecida como “o Jardim”.

Crítico da metafísica de Aristóteles, do “espiritualismo” de Platão e do determinismo, Epicuro deixou vários seguidores pelo mundo, ainda hoje. Eu não sou um epicurista, mas isso não me impede de reconhecer importantes lições desta escola filosófica.

Separei 10 tópicos que, na minha avaliação, são essenciais nesta “Carta...”:

I. BUSQUE A FILOSOFIA SEMPRE:

Epicuro aconselha que ”ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito”. Se você ainda é jovem, busque na filosofia a direção para viver com saúde de espírito ou serenidade, mas se já se sente maduro ou idoso, busque também a filosofia como quem precisa de um remédio diário.

II. OS DEUSES EXISTEM:

“Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe” (Epicuro). Claro que deuses, em sentido grego, nada têm com o monoteísmo do judaísmo, cristianismo e islamismo. De qualquer forma, há aqui um insight interessante. A visão que o povo faz dos deuses é falsa, mas isso não quer dizer que eles não existam. A diferença entre imagem criada e verdade é um tópico útil para pensarmos a fé e, mais ainda, para repensarmos a noção de que “a voz do povo é a voz de Deus”.

III. O MEDO DE MORRER É TOLICE:

“Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte” (Epicuro). Coerente com seu materialismo, se na morte nada somos, portanto, nada sentimos, é estupido alimentarmos qualquer medo da morte. Quando a morte é, nós já não somos. Sendo assim, viva os dias que tem para viver e não tenha qualquer medo sobre a morte e nem fique angustiado com isso, pois seria enorme prejuízo para sua qualidade de vida. A ideia de qualidade como mais importante que a quantidade de dias vividos é importante no epicurismo.

IV. CONHECER-SE PARA SER FELIZ:

Epicuro diz que “o conhecimento seguro dos desejos [autoconhecimento] leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a [1] saúde do corpo e para a [2] serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo”. Uma vida feliz é uma vida baseada no autoconhecimento de nossos desejos para, com sabedoria, direcioná-los para obtenção de saúde física e serenidade da mente, contendo os desejos que poderão nos empurrar para o medo e o sofrimento.

V. VIVER PRAZEROSAMENTE:

Aqui se faz muita confusão entre as ideias de Epicuro e o hedonismo. Perceba que Epicuro não defende a busca ilimitada de prazeres na vida. Ele nos diz que “há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo”. Devemos buscar os prazeres, desde que eles não nos causem sofrimento. Além disso, há situações onde é melhor suportar os sofrimentos se, depois destes, ganharmos algum prazer maior. Note bem o antagonismo entre epicurismo e hedonismo, sendo, portanto, uma distorção o uso de ideais de Epicuro para legitimar a sociedade de consumo, a exploração ou vícios destrutíveis para os seres humanos. Ainda nesta carta, o filósofo de Samos deixa claro que “quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos”. Sacou?

VI. SEJA AUTOSSUFICIENTE:

Para Epicuro, “a autossuficiência [é] um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela”. Isto aponta para uma vida onde o contentamento e a serenidade não são alterados pelas circunstâncias materiais, pois somente temos prazer na abundância quando este prazer não depende da própria abundância. Eu mesmo tenho enorme prazer em comer ovinhos de amendoim ainda que não dependa destes ovinhos de amendoim para ser feliz e obter prazer na vida.

VII. SEJA SIMPLES:

Epicuro considera que devemos nos habituar “às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida”. É mais um tiro contra o hedonismo e o consumismo tão comum nas sociedades capitalistas avançadas. Uma vida simples faz bem pra saúde (física e emocional), como também nos prepara para enfrentarmos os tempos de “vacas magras” sem desespero. Claro que aqui não estamos falando de fome, por favor.

VIII. SEJA PRUDENTE:

Diz Epicuro que a “prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes”. Seja paciente, cauteloso, ponderado, precavido para não cometer inconveniências, para não cair em situação perigosa que poderá lhe fazer sofrer. São conselhos que apelam para a razão. Perceba que aqui nada há de revelação religiosa, aliás, não é necessário qualquer tipo de crença religiosa para adotar o epicurismo ou, pelo menos, levar em consideração alguns dos seus sábios conselhos.

IX. NINGUÉM ESTÁ PRESO AO DESTINO:

Para Epicuro, as coisas acontecem por acaso, por alguma necessidade ou porque assim escolhemos. As coisas que acontecem necessariamente nós não controlamos (e parece tolice se amofinar com isso), as que acontecem por acaso são instáveis (e também não controlamos), mas a nossa vontade é livre para aprovar ou censurar, para aceitar ou criticar, para fazer diferente e plantar em outras direções. Com isso o filósofo abre um campo de possibilidades para a ação humana livre, ainda que indiretamente, é o que me parece, reconheça causalidades que escapam ao controle (mesmo não adotando a ideia de destino).

X. SORTE NA VIDA É SER SÁBIO:

Epicuro nos diz que “é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo”. Então viva de forma sábia, mesmo azarado ou empobrecido, pois isso é melhor que ser sortudo, próspero e idiota.

Fiz essa despretensiosa síntese baseada na leitura da “Carta sobre a felicidade: a Meneceu” (São Paulo: Editora UNESP, 2002). Espero que você se mobilize para ler mais a filosofia e, principalmente, a buscar uma vida significativa.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marcio Sales Saraiva