café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

10 questões sobre "o dilema das redes" e a manipulação ideológica

Será que manipulação ideológica, distorção cognitiva e indução de comportamento de massas é um privilégio das novas redes sociais?


O Dilema das Redes.png

Nos últimos dias estou sendo alertado sobre o documentário produzido pela Netflix chamado “O dilema das redes” (The Social Dilema, 2020).

Para começar, achei interessantíssimo que um filme denunciando as manipulações de dados pessoais nas redes sociais para fins comerciais esteja dentro de uma rede como Netflix (seria esta uma empresa “neutra”?) e, mais ainda, observei que em nenhum momento os técnicos que ofertam depoimentos bombásticos tenham falado da própria Netflix, como se esta estive fora dos esquemas de uso e manipulação de dados para ampliar público, engajamento e negócios.

Dito isto, reúno algumas observações rápidas sobre este documentário que está levando alguns a cancelarem suas redes sociais com medo de estarem viciados e manipulados pelos seus algoritmos diabólicos. Vamos aos tópicos.

1. Considero extremamente positivo que um documentário discutindo o tema manipulação e alienação esteja alcançando algum sucesso. Quem sabe ele possa servir de bom começo para um tema idoso, pois não é de hoje que as sociedades sofrem diversos tipos de manipulações ideológicas por parte de governos e empresas, dito de outra forma, não é de hoje que somos dominados ideologicamente pelas classes sociais que estão em posições de poder. O facebook, twitter, instagram etc. são apenas novos instrumentos ou “ferramentas” deste jogo onde a ordem do capital amplia seus lucros – e não estou falando apenas de dinheiro, há também ganhos políticos.

2. Achei revelador o fato de que o documentário que critica fake news, polarizações, teorias da conspiração etc. se utilize esteticamente dos mesmos recursos, ou seja, os enquadramentos das câmeras, as músicas de fundo, as animações, as frases de efeito, o tom alarmista, a tentativa de parecer tudo espontâneo etc. são os estratagemas dons bons vídeos sobre teorias conspiratórias e fake news. Isto faz do documentário um sintoma do que ele mesmo denuncia, pois nele foi “necessário” mimetizar as táticas dos “adversários” para criticá-los.

3. O filme começa inverossímil. Pessoas extremamente capacitadas, técnicos altamente qualificados que ocuparam posições hierárquicas importantes nas empresas do Vale do Silício, “confessam” que foram ingênuos ao ajudarem na criação dessas novas ferramentas tecnológicas. Eles pensavam que tudo seria bom e celeste, mas perceberam graves “consequências negativas” e “efeitos colaterais” danosos como pessoas viciadas nessas ferramentas, polarização política ampliada, espraiamento de organizações racistas, terroristas e “populistas” (de esquerda e de direita), retorno de teorias falsas como terraplanismo etc. É duro acreditar que esses sofisticados cérebros foram enganados e não perceberam que estavam criando ferramentas que poderiam ser usadas “pelas forças do mal” (para manter o clima de enfrentamento dual do documentário).

4. Só as redes sociais e o narcotráfico tratam seus clientes como “usuários”. É uma boa metáfora para falar da transformação das redes sociais em drogas, como um novo narcótico do século XXI, onde os seres humanos (e seus dados) são o produto número um. Como o problema das drogas é bem antigo, nada de novo saber que novas ferramentas e produtos criados no capitalismo pós-moderno se transformaram em novas drogas de consumo doentio. Afinal, isto é bom para os negócios, não é mesmo?

5. Em certo momento fala-se de um tal “capitalismo de vigilância” que passou a ganhar muito dinheiro vendendo dados, previsões e rastreamentos. Lembrei-me de Foucault. Penso que a genealogia desse “viagiar e punir” é bem mais antiga que as redes sociais, portanto, estas ferramentas apenas aperfeiçoam e garantem maior eficácia no controle social.

6. Há um clima de “cuidado, você está sendo monitorado e controlado” pela Inteligência Artificial. É este mais um ponto problemático desta produção. Tem-se a impressão que não há empresas concretas, pessoas concretas, um sistema concreto de manipulação e controle, mas uma “coisa”, um “monstro” desgovernado chamado IA. Quem financiou a criação da IA? Quem a sustenta? São questões que passam longe do documentário.

7. O documentário – sem perceber ou ingenuamente? – assume uma posição ideológica na defesa do moderantismo político (usando aqui essa expressão do Bobbio) contra os “populismos” e “radicalismos” que atrapalham a criação de “consensos” sobre a realidade em que vivemos. Bem, tenho impressão que problemas de consenso e dissenso sempre estiveram presentes na história das sociedades humanas, bem como as polarizações, guerras, assassinatos, violências de todos os tipos, muitas até justificados como “necessárias” para defender “a democracia, a paz e a liberdade” contra os “radicais”. Lembremos do Iraque ou Afeganistão ou Vietnam.

8. Achei extremamente positivo a defesa, que o documentário faz, de regulações sociais como parte de uma saída possível diante do agigantamento das redes e de seus impactos nas sociedades. Aqui no Brasil, quando as forças de esquerda defenderam regulações neste campo eram acusadas pelo provincianismo basbaque de “bolivarianismo” ou de flertar com “tendências autoritárias”. Penso que, neste sentido, o documentário alerta para algo que já vem sendo dito faz tempo. É preciso regular as ações dessas grandes empresas de tecnologia e informação. É necessário Conselhos Populares que possam fiscalizar estas empresas. A omissão dos Estados nacionais neste debate é campo aberto para as manipulações e lucros sobre a ignorância. Regulamentação, transparência no uso de dados e ampliação da “conscientização” (educação crítico-libertadora com acesso diversificado aos bens culturais) são caminhos que apontariam para algum grau de emancipação dos sujeitos. O ludismo é reacionário, ou seja, cancelar as redes sociais para viver em alguma nova “sociedade alternativa” é piegas e não resolve o que se deve enfrentar como sociedade. Nada contra aqueles que desejam abandonar as redes sociais por outros motivos, legítimos. Apenas critico quem queira fazer isso porque “não quer ser manipulado”. É muita ingenuidade achar que sair das redes sociais é escapar da manipulação ideológica que existe como estrutura de funcionamento da sociedade.

9. Achei interessante que o documentário, a despeito de todo o seu tom alarmista e catastrófico, fecha numa chave muito positiva e cheia de esperança. A mudança é possível se houver regulação social, transparência e conhecimento sobre o funcionamento desta "fábrica de salsichas". É o caminho.

10. Para encerrar – e já escrevi demais, não era esta minha intenção – quero afirmar que manipulação ideológica, distorção cognitiva e indução de comportamento de massas não é um privilégio das novas redes sociais. Você está sendo manipulado diariamente desde que nasceu! Pense em “A construção social da realidade” (Berger), “Aparelhos ideológicos de Estado” (Althusser) ou “Ideologia: uma introdução” (Terry Eagleton). Pense nas narrativas de justificação do golpe contra o governo Dilma, pense também nas matérias “jornalísticas” da TV Globo em defesa da reforma previdenciária e trabalhista ou das “reportagens” da TV Record e suas novelas sobre “a Bíblia”. Não é tudo isso grosseira manipulação?


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 11/s/tecnologia// @obvious, @obvioushp //Marcio Sales Saraiva