café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”.

20 LIÇÕES POÉTICO-EXISTENCIAIS DE CECÍLIA MEIRELES

“Não é preciso me visitem, se estiver doente,
embora o convívio dos amigos seja, comumente agradável.”
(Disposições finais, 1954)


images (12).jpeg

“Não é preciso me visitem, se estiver doente, embora o convívio dos amigos seja, comumente agradável.” (Disposições finais, 1954)

Este não é um fragmento de poema sobre a pandemia de Coronavírus/Covid-19. A mulher que escreveu este e tantos poemas maravilhosos definiu sua missão da seguinte maneira: “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante”.

“Cecília de Bolso” é uma antologia que reúne 157 poemas de Cecília Meireles (1901-1964) organizados e apresentados por Fabrício Carpinejar. Considerada a mais lírica poeta do modernismo brasileiro (ainda que alguns não a considerem modernista strictu sensu), Meireles versou sobre a vida, a serenidade eutímica e o tempo. E ela era mais. Educadora, jornalista, cronista, ensaísta etc. Como ela mesma diz: “Esta sou eu — a inúmera” (Compromisso, 1945).

Com influências simbolistas, românticas (barrocas) e parnasianas, ela fez, nas palavras de Mário de Andrade, um “sábio ecletismo”. Sua temática é variadíssima, ainda que permeada por alguns elementos recorrentes como o mar, o vento, a música, o tempo e a solidão.

Destaco alguns momentos-fragmentos cativantes desta antologia:

“Nossa Senhora já não ouve Os amargurados gemidos Dos que estão mal, dos que estão sós... Tanto choro e lamentos houve Que os seus santíssimos ouvidos Não percebem nenhuma voz (...) Não temos mais Nossa Senhora!” (De Nossa Senhora, 1925)

“Ama sem amor. Ama sem querer. Ama sem sentir. Ama como se fosse outro. Como se fosse amar. Sem esperar.” (Cânticos, 1927)

“Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste: sou poeta.” (Motivo, 1939)

“Eu não tinha esse rosto de hoje, (...) Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?” (Retrato, 1939)

“A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é me ver morrendo, mas de saber quem me mata.” (Guitarra, 1939)

“É inútil meu esforço de conservar-me; todos os dias sou meu completo desmoronamento: e assisto à decadência de tudo, nestes espelhos sem reprodução.” (Medida de significação, 1939)

“Saudosa do que não faço do que faço arrependida.” (Canção excêntrica, 1942)

“As solidões deste mundo conheço-as todas de cor.” (Em voz baixa, 1942)

“Deixa o presente. Não fales. Não me explique o presente, pois é tudo demasiado.” (Interlúdio, 1942)

“A vida só é possível reinventada.” (Reinvenção, 1942)

“Tenho fases, como a luz. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.” (Lua adversa, 1942)

“Não acuso. Nem perdoo. Nada sei. De nada. Contemplo.” (Contemplação, 1945)

“Deixai-me nascer de novo, nunca mais em terra estranha” (Desejo de regresso, 1945)

“Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo, todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.” (O tempo no jardim, 1945)

“A vida vai depressa e devagar. Mas a todo o momento penso que posso acabar.” (Desapego, 1945)

“Quando alguém diz que sabe alguma coisa, fico perplexa: ou estará enganado, ou é um farsante — ou somente eu ignoro e me ignoro desta maneira?

E os homens combatem pelo que julgam saber. E eu, que estudo tanto, inclino a cabeça sem ilusões, e a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos.” (Não sei distinguir no céu as várias constelações, 1960)

“Somos sempre um pouco menos do que pensávamos. Raramente, um pouco mais.” (Desenho, 1963)

“Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.” (Ou isto ou aquilo, 1964)

“É preciso não esquecer nada: nem a torneira aberta nem o fogo aceso, nem o sorriso para os infelizes nem a oração de cada instante.” (É preciso não esquecer nada, 1962)

“Somos uma difícil unidade, de muitos instantes mínimos — isso seria eu. Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente. — Como me poderão encontrar? (...) — nós mesmos nos procuramos.” (Biografia, 1957)

Foi extremamente difícil recortar estes 20 fragmentos reflexivos e poéticos. São tantas coisas lindas em Meireles que me angustiou fazer essa carnificina. Aceito assim minhas limitações, mas saiba você que o meu desejo era apenas te empurrar. Leia Cecília Meireles e descubra em si mesmo onde ela toca.

Clique aqui e ouça o poema "Motivos" na voz de Fagner.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), prepara-se para lançar este ano o seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”. .
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Marcio Sales Saraiva