café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

5 poemas de Marcelo Luz

O poeta Marcelo Luz é carioca, graduado em Letras pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE) e especializado em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua temática transita entre o universo da infância, suas descobertas e encantos, a paixão pela palavra, pela música, as relações afetivas, mitologias diversas e a busca incessante de traçar, entre o sagrado e o profano, algum paralelo que dê conta de suas indagações pessoais e do problema da existência.


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1. De onde você vem?

Sou Marcelo Luz, nascido em Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro, na época em que havia circos e salas de cinema nas ruas suburbanas e, criancinha, a gente assistia aos desfiles da Portela na Rua Carolina Machado, do Alto da Plataforma da Estação de Trem, no colo de um irmão ou outro mais velho. Já se formatava, eu já vislumbrava, naquelas procissões cheias da integridade, o que me encantaria por toda a vida: mitologias, cosmos, gente, contação de histórias, o teatro, a Música, manifestações da cultura, a vocação do povo brasileiro para a Alegria.

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? .Quais são as suas referências literárias?

Comecei a ler por volta dos 6, 7 anos. Li os clássicos e os não tão clássicos, revistas, cordéis, gibis, tudo o que via pela frente. Gostava de Jorge Amado, Cecília Meireles, Jules Vernes. Estou lendo agora “Contos do Trem”, do poeta-contista Marcel Felipe Omena. Sinto que a música tem muita influência na minha escrita. Minhas principais referências são os poetas românticos ingleses, ao lado de Cartola e Lupicínio Rodrigues.

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Em breve, será lançado meu primeiro livro, “Morada”, uma trilogia de poesia. Sairá pelo selo Mundo Contemporâneo Edições que pertence ao grupo editora Metanoia.

4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

Meu pai tinha uma biblioteca bastante numerosa e variada. Tinha Marquês de Sade, Homero, Dante, José de Alencar, Bilac. Desde muito cedo, os livros se tornaram uma espécie de refúgio. Aprendi a escrever desenhando letras na terra do quintal de casa porque precisava saber o que aquelas histórias contavam.

5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Nunca tive sonhos importantes para minha vida. Apenas mantenho os sonhos simplesinhos de criança, como voar, andar sobre as águas, visitar Deus. Sempre que escrevo, estou alimentando esses sonhos. Por vezes, chego a realizá-los. É quando a poesia acontece. Afora isso, tenho apenas um sonho recorrente, esse bem mais complicado: que o mundo melhore.

DE POESIA E PÃO (do livro LIVRO-POSTAL DE POEMAS)

  • Sou escritor com preguiça crônica
  • De ler e escrever.
  • Cavalo que se abandona à espera de espírito,
  • Escrevo como quem sente ou recebe santos,
  • Como quem adivinha coisas invisíveis.
  • Se escrever exigisse muito esforço, não escreveria.
  • Talvez fizesse pão caseiro.
  • Mas não tenho dom de sovar,
  • Não sou nenhum padeiro,
  • Não tenho braço forte nem mãos
  • De amassar papel atrás de papel.
  • E, a cada lua que passa crua, menos fermento,
  • Menos lua a guardar.
  • Me resta escrever como quem tem fome a matar,
  • Como quem luta.
  • Sem construir sabor, sem gratinar,
  • Sem dourar, sem meta fora.

MUDANÇA DE PLANO (do livro AUTORREPLICANTE)

  • Na hora marcada de voltar a Estrela,
  • Deito os pés de ossos despedaçados
  • Na manjedoura, à espera do astrônomo
  • Com seus presentes esféricos:
  • Hóstias, lunetas, anéis
  • E discos compactos de luz.
  • Aceito de bom grado e os lanço no espaço.
  • Não salvo mais o mundo.
  • Tá decidido:
  • Ainda hoje deixo esse inferno.

NÓS (do livro AUTORREPLICANTE)

  • Hoje há mais de nós
  • Na superfície terrestre
  • Do que água de beber.
  • Há mais de nós do que terra
  • De enterrar.
  • Há mais de nós que comida.
  • Basta lavarmo-nos,
  • Nós que temos sabão,
  • E enterrarmo-nos em casa,
  • Nós que temos casa.
  • E respirar,
  • Nós que temos poesia.

VULCANO (do livro MORADA)

  • Desde que nasci,
  • Letras, sons e palavras
  • Me rodeiam por todos os lados.
  • Num dia dos cinco anos,
  • Peguei a vassoura da mãe
  • E os varri dos cantos mais remotos
  • Ao centro imaginário.
  • Depois pulei dentro da boca
  • Do vulcão e ainda agora
  • Estou brincando de comer letras
  • E tocar palavras.

INTERSEÇÃO (do livro MORADA)

  • Mais de uma vez arrepiamo-nos
  • E estremecemos sem que pudéssemos
  • Nos esconder um no outro.
  • Essa língua é minha, tua ou as duas?

Um poema extra...

BUMERANGUE (do livro MORADA)

  • Soltei a gaivota de papel
  • Pra cutucar o amor do outro lado da rua.
  • Não é que ela deu meia volta
  • E quase me fura o olho cego?


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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