café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“A arte é também um campo de guerras”, diz a poeta Adriane Garcia

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019) e Eva-proto-poeta (ed. Caos & Letras, 2020). Ela é formada em História pela UFMG e pós-graduada pela UEMG em Arte-Educação. E tem formação técnica em teatro pela PUC-Minas.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Adriane Garcia que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Olá. Eu comecei a escrever desde que me entendo por gente (risos). Aprendi cedo, com 5 anos, porque minha mãe me ensinava em casa as letras, as sílabas. Eu adorava aprender aquilo. A escrita sempre esteve ligada ao prazer e à resolução de alguma dor. Gostei muito de ler. Minha casa não tinha livros, éramos muito pobres, mas eu pegava livros na biblioteca escolar desde os 6 anos, quando fui para a escola. Me lembro que o primeiro livro de poesia que li foi “Ou isto ou aquilo”, da Cecília Meireles e achei aquilo absolutamente musical. Os livros didáticos também traziam alguns poemas e eu gostava muito.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Escrever é um pouco de dom, eu acho. É uma certa inclinação pela linguagem, pelo que ela pode fazer; mas sem dúvida é algo que precisa de alimento e o alimento é muita leitura. Ler o que as outras pessoas escreveram pode me inspirar a escrever, ler um livro maravilhoso me inspira, ler uma ideia luminosa me inspira. Assim como me inspira o incômodo ou o alumbramento diante de algo.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Cecília Meireles e seu ritmo de mestra, Mario Quintana e seu humor, verdade e ironia, Drummond com a vastidão dos temas e sua profundidade, João Cabral e sua faca-lâmina, Wislawa Szymborska e sua poesia do presente, José Saramago e sua coragem diante do obscurantismo, Brecht e sua poesia preocupada com a vida em coletivo, Katherine Mansfield e sua forma de narrar sem precisar gritar. Muitas e muitos outros, mas são os que me lembro agora.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

São muitas pessoas que leio e cujo texto admiro que não caberão aqui. Mas citarei alguns, faltarão outros: Ana Maria Gonçalves, por ter nos dados um dos melhores e mais necessários livros de nossa literatura, “Um defeito de cor”; Itamar Vieira Júnior por dizer coisas tão necessárias sobre um Brasil que não conhece o Brasil; Tadeu Sarmento por sua inventividade ininterrupta; Cinthia Kriemler por falar das mulheres como é preciso que se fale; Paula Fábrio, pela capacidade de tocar em temas duros com complexidade; Cidinha da Silva, por ser uma voz que fala tão vivamente de problemas gravíssimos da sociedade brasileira; Maria Valéria Rezende, por trazer o Brasil profundo que ela conhece; Deborah Dornellas, que atravessou o Atlântico para ligar o passado e o presente deste país; Bruna Mitrano, por colocar na poesia temas duros e crus de forma tão contemporânea e bela; Alberto Bresciani, por contar o desespero existencial num mundo de desamparo; Ricardo Aleixo, pelo apuro com a palavra; Eduardo Sabino, por escrever contos excelentes que trazem tanto memória, crítica quanto riqueza de imagens; Jeter Neves, por ter escrito e publicado um livro excelente que o Brasil nem sabe: Vila Vermelho; Francisco de Morais Mendes, por ser um dos melhores contistas do país; Adrienne Myrtes, por ter nos dado Mauricéa; Carla Bessa, que escreveu contos imperdíveis em Urubus; Ana Elisa Ribeiro, que escreveu entre outras coisas, um dicionário em poesia e um livro de pequenos grandes contos chamado Beijo, boa sorte; Nara Vidal, por nos dar Sorte; Sérgio Fantini, por trazer em seus contos os dramas existenciais e coletivos na cidade; Rosângela Vieira Rocha, que nos mostrou a face dos homens narcisistas; Marcelo Labes que traz essa figura nacional que é O filho da empregada; Oscar Nakasato, que nos conta a imigração japonesa no Brasil e a dor deste êxodo, Akira Yamasaki, cuja poesia se centra na pessoa da periferia e na amizade; Ezter Liu, que escreve de maneira contundente, apaixonada e ao mesmo tempo literariamente medida; Thaís Guimarães e sua poesia de corte afiado; Micheliny Verusnchk, que envolve o leitor trazendo literatura e história em seus livros; Alê Motta, cujos minicontos contam muito; Nelson de Oliveira, por ser altamente imaginativo e nos trazer futuros (presente?) assombrosos em seus livros; Conceição Evaristo, por escrever de dentro, o país da classe trabalhadora negra brasileira; Líria Porto, por uma poesia sintética, bem-humorada, sagaz e sarcástica; Fabrício Marques, que além da poesia rica em temas e bem construída, é um estudioso de literatura que sempre nos acrescenta saber; André Luiz Pinto, por fazer uma poesia sobre o deslocamento; Silvana Guimarães, pela poesia criativa e imagética; Ronald Augusto, pela inquietação, inclusive com a própria palavra; Tarso de Melo, por refletir bem o tempo presente; Kátia Borges, que faz uma poesia tocante, mas nunca sentimentalista; Lisa Alves, que traz as angústias políticas de estar neste mundo; Michaela V. Schamaedel, que no primeiro livro já demonstrou voz e caminho; André Ricardo Aguiar com sua poesia lúdica e muito criativa; Marceli Andressa Becker, uma voz profunda, com muito a dizer e que privilegia a temática da mulher e seu corpo; Waldo Motta, um xamã profano; César Gilcevi, que faz uma poesia contundente, com beleza e crítica. Enfim, são os que me lembro no momento. Obviamente essas listas passam por questões pessoais de gosto. Na prosa, tendo a gostar do que se comunica sem fazer jogos de teste de QI com o leitor e, na poesia, eu tendo a gostar do que tem vocabulário mais atualizado e mais clareza, de mais logopeia; o que não me faz deixar de ler e admirar trabalhos em outras linhas, que não privilegiam exatamente o sentido, mas que realizam muito bem seus projetos.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Ulisses [ou Ulysses], de James Joyce, livro que tentei ler várias vezes e sempre achei dificílimo de avançar, mas que agora, na tradução de Caetano Galindo, estou achando absolutamente delicioso.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Publiquei “Fábulas para adulto perder o sono” (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), “O nome do mundo” (ed. Armazém da Cultura, 2014), “Só, com peixes” (ed. Confraria do Vento, 2015), “Embrulhado para viagem” (col. Leve um Livro, 2016), “Garrafas ao mar” (ed. Penalux, 2018) e “Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois” (ed. Conceito Editorial, 2019) . Agora tem o “Eva-proto-poeta” que sai em outubro (ed. Caos & Letras, 2020). Após o Prêmio Paraná de Literatura não me foi difícil publicar. Acho que os prêmios são excelentes porque ajudam a transpor essa barreira de quando ninguém conhece seu trabalho e o Prêmio acaba te dando algum aval. Claro que também contei com o fato de publicar numa época em que há as pequenas editoras. O surgimento de várias novas pequenas editoras democratizou um pouco mais as publicações. Sem isso, acho que muitos, eu inclusa, continuaríamos recebendo cartas de que nosso livro não se encaixa na linha editorial.

Voltando ao prêmio, depois dele, além dos livros, publiquei em muitas antologias, muitas revistas eletrônicas, tive meu trabalho traduzido para o espanhol em algumas revistas fora do país. E vamos indo, devagar e sempre, e sem perder a dignidade (risos).

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Tem uma coletânea no issuu, que o editor da revista “Vida Secreta”, João Gomes, fez, que acho que dá uma ideia boa. Chama-se “Enlouquecer é ganhar mil pássaros” e está disponível gratuitamente. Baixe aqui.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Gosto de ler de tudo. Tenho preguiça de prosa arrogante, autor escrevendo livro para provar sua erudição, sua bagagem intelectual; costuma acontecer muito com livro que tem personagem escritor. Gosto mesmo é de uma boa história, que me faça esquecer que estou lendo um livro. Se puder contribuir pra refletir o mundo, o ser humano, melhor ainda. Gosto do que consegue ser simples sem ser simplório, complexo sem ser pedante.

Tenho preguiça de poesia escrita no século XXI com linguagem do século XVIII. A menos que isso esteja justificado como projeto. Mas a poesia só pra ser poética me irrita. Poesia que quer ser solene tratada nas segundas pessoas acho profundamente irritante. Ninguém fala assim. Claro que, às vezes, cabe. Também a febre trocadilhesca vazia me parece falta do que falar; parece mais incapacidade de conviver com o silêncio; apesar de haver trocadilhos geniais, a maioria é uma perda de tempo. Penso que as redes sociais, privilegiam o texto curto e a imagem, porque privilegia a velocidade em detrimento da concentração, têm influenciado a proliferação de um tipo de poema muito superficial, algo viciado na exposição. Claro que estou respondendo a esta pergunta como leitora. As pessoas podem e devem escrever como bem quiserem. Eu escolho o que leio.

Escrevo contos às vezes, poesia sempre e gosto de escrever sobre as leituras que faço de livros que gosto por algum motivo.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Fui balconista aos 16 anos, bombeira do Corpo de Bombeiros na juventude, auxiliar de biblioteca, professora de história, técnica judiciária. Nunca pensei ser possível viver de literatura neste país. Nem jamais sonhei com isso. Neste ponto, sempre fui muito pé no chão. A literatura é uma arte que permite conciliar com outro tipo de trabalho, sustento; porém, há artes que precisam de tempo integral de dedicação, como o teatro ou a dança, por exemplo; este é um país muito cruel com os artistas, de modo geral.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho que tanto arte pela arte quanto arte que se engaja explicitamente estão comprometidas. A arte colabora na nossa sobrevida neste planeta de várias formas. Sem ela já não estaríamos aqui, ela é parte do que nos define humanos. De maneira que se ela me distrai ou me acorda, me aliena ou desperta para a crítica, se denuncia ou se oculta, se engana ou se lança luzes isso não é político? Não é a maneira como ela interfere no indivíduo e, por consequência, na coletividade? Ser arte e dizer politicamente não precisa ser necessariamente explícito. Quando tudo tende ao feio, à barbárie e à indiferença, uma arte que sensibiliza, que emociona pela beleza, não pode ter efeitos políticos? Quando é negada a voz a um determinado grupo de seres humanos e eles passam a usar essa voz artisticamente, independente de falar sobre política, o fato de falarem artisticamente não é política? A questão que fica não é se a arte é política ou deve ser política, mas qual a ética que a compõe. O nazismo teve sua arte e seus artistas; a abolição da escravatura também. Uma arte que anestesia é política. O governo agora no Brasil, de extrema-direita, está modificando o direcionamento das leituras na idade escolar. O que estão buscando? Uma literatura alienante, fora da realidade, porque querem cidadãos inertes, presas fáceis de igrejas para alimentar o poder fundamentalista.

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É uma bobagem alguém dizer que é artista e é neutro. Isso não existe. Se você vai ficar escrevendo sobre borboletas, ou sobre seu eu-sofredor, quando os indígenas estão sendo massacrados e o país mata seus ativistas ambientais isso é uma opção política. A neutralidade também tem consequências políticas. A arte é também um campo de guerras, move o tempo e é movida por ele. Eu, particularmente, fico abismada com artistas que se posicionam politicamente com o seu não posicionamento. E há os que se posicionam ao lado de opressores. Mas acho que a sua pergunta tem mais a ver com o sentido de “liberdade”. Os artistas podem e devem praticar a arte livremente, com engajamento político explícito ou não; mas seria coerente que todos defendessem a liberdade, sem a qual não podem ser artistas plenamente.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

O momento exato não sei. Talvez eu sempre tenha sentido, porque sempre foi muito inerente aos meus dias, mas creio que a publicação de um livro ajuda na confirmação deste sentimento.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Acho que é um questionário bem grande (risos).

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Este ano lanço “Eva-proto-poeta”, pela editora Caos & Letras.

Deixe um poema...

Vou deixar o poema “Do que não posso possuir” que está no livro “Garrafas ao mar” (ed. Penalux):

  • DO QUE NÃO POSSO POSSUIR
  • Remexo os bolsos
  • Sem a ilusão
  • Dos trinta dinheiros
  • A maturidade é a guia da calçada
  • Onde sentamos
  • E verificamos a própria pobreza
  • Sem alarde
  • De tentar a bolsa
  • Que por fim resigna-se:
  • Há moedas emocionais
  • Que simplesmente
  • Não temos.

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Onde encontrar Adriane Garcia?

Facebook, entre aqui.

Instagram, entre aqui.

E-mail: [email protected]

Site da Adriane Garcia, entre aqui.

Compre os livros de Adriane Garcia:

“Garrafas ao mar”, clique aqui.

“O nome do mundo”, clique aqui.

Para comprar o livro “Só, com peixes” basta enviar e-mail para [email protected]

“Arraial do Curral del Rei” pode ser pedido na Livraria do Ouvidor, pelo whatsapp: (31) 9831-65228.

“Eva-proto-poeta” está no site da editora Caos & Letras. Veja aqui.

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Entrevista com Adriane Garcia | “A escrita como cura”. Veja aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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