café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A escritora Desirée Lourenço deseja “mudar o mundo através das palavras”

Desirée Lourenço ou Mari Veiga é fã da série Harry Potter, leitora do underground da web e proprietária da editora grupoHPM. Entende a literatura como forma de protesto e trabalha assumidamente no campo da literatura lésbica. Ela já publicou dois e-books ─ “Histórias para meninas” (poemas) e “Pelas ruas do Rio” (novela) ─ e o seu primeiro livro físico é o romance “Sob as luzes lá de fora”.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Desirée Lourenço que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Lembro que comecei a escrever ainda nova; na escola, ensino fundamental. Na época, eu tinha uma amiga que também escrevia e, de certa forma, uma incentivava a outra. Na maioria das vezes, eram poemas sobre nossas paixões de adolescente. Eu tinha uns 13 anos e achava que sabia exatamente o que era estar apaixonada. Daí pra frente, a escrita apenas foi se adaptando à minha vida: quando comecei a fazer teatro, escrevia peças; quando me reconheci lésbica, minhas protagonistas também saíram do armário… e por aí vai. Meu crescimento era diretamente ligado ao crescimento da minha escrita. E vice versa.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Escrever, para mim, é natural. Eu acredito que a escrita está na rotina. Escrevemos desde bilhetes, mensagens e e-mails para a equipe até livros, poemas e poesias. O meu caminho foi um misto de ser boa com as palavras, o que pode ser chamado de dom - ou talento, talvez - e um fascínio pelo poder de mudar a cabeça e a vida das pessoas a partir da escrita. Vinda de uma família de médicos, eu era a única que via na criatividade e na arte uma forma legítima de mudar o mundo. E mudar o mundo através das palavras me parecia um caminho promissor. A partir de então, considero que a transpiração e o trabalho duro passaram a fazer parte da equação de forma mais significativa.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Talvez pela idade, sou fascinada pela série Harry Potter. Clássico? Talvez. Mas o que mais me encanta nos livros é a capacidade da autora de nos transportar para um mundo inexistente para nos falar sobre coisas tão mundanas e humanas. É esse tipo de coisa que me conquista na literatura: atingir o leitor de forma tão profunda que nem ele percebe.

Antes de mergulhar no mundo bruxo, lembro que me impressionei muito com um livro chamado “O mistério da Casa Verde”, intimamente conectado com o clássico “O Alienista”, de Machado. Sem contar que Pedro Bandeira e “Os Karas” quase me convenceram a ser espiã.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Uau. Pergunta difícil. Eu sou uma leitora do underground da web. Dedico-me a procurar autores e autoras independentes que postam seus livros de forma solitária, sem editora, ou em sites como o Wattpad. É minha forma favorita de leitura. Além disso, grande parte do que leio é o que chega na editora para ser publicado.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Nesse momento, deixei um pouco de lado a ficção e estou me dedicando mais ao estudo de livros técnicos sobre revisão de texto e escrita criativa. Além disso, estou trabalhando em um livro chamado “Heart”, que será publicado pelo GrupoHPM em breve. Ah, por último mas não menos importante, estou relendo a série Harry Potter, dessa vez em inglês.

6- O que você já publicou até aqui?

Eu possuo uma editora, o GrupoHPM. Por ela, já publiquei alguns e-books sob o pseudônimo de Mari Veiga: “Histórias para Meninas”, um livro só de poemas, e “Pelas Ruas do Rio”, um pequeno romance que se passa no carnaval do Rio de Janeiro. Participei, também, de duas coletâneas: “Sobre Mulheres” e “Não leia antes de dormir”. Além disso, publiquei meu primeiro livro físico, “Sob as Luzes lá de Fora”, através de um financiamento coletivo. Tenho muita coisa espalhada pela internet também, como histórias no Wattpad e no próprio site do GrupoHPM.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Definitivamente por “Histórias para Meninas”, um livro de poesia lésbica lançado há alguns anos atrás. Depois disso, “Sob as Luzes lá de Fora”, um romance que tenho um carinho especial.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Acredito que cada estilo tem seu momento. Por vezes, me pego presa nos ritmos dos poemas, logo no dia seguinte, já estou vidrada nos diálogos dos romances mais clichês. Sempre me deixo levar pelo que estou sentindo, buscando o que preciso. Por isso, sempre tenho várias leituras não concluídas no meu Kindle.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sou publicitária e, atualmente, trabalho como coordenadora de conteúdo em uma agência. De certa forma, trabalho escrevendo, mas com outros objetivos e formatos.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Arte é protesto. Eu acredito nisso com todas as minhas forças. A escrita é capaz de levantar bandeiras a todo o momento e, assim, proporcionar espaço e visibilidade às minorias e classes tão comumente marginalizadas na nossa sociedade. A representatividade na literatura é tão importante quanto lutar para estar presente nas novelas ou na mídia.

A minha editora nasceu a partir da busca por essa representatividade. Especialmente a lésbica. Portanto, acredito que a literatura é uma forma de protesto, sim. É uma forma de se posicionar politicamente e faz parte da luta diária por reconhecimento, respeito e igualdade de direitos.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Primeiramente, a partir do momento que eu percebi que escrever era a parte mais importante do meu dia, mesmo que fosse por cinco minutos. Em segundo lugar, quando, pela primeira vez, recebi uma mensagem dizendo que as minhas palavras haviam mudado a vida de uma pessoa. Saber do poder que elas têm me fez perceber a importância que eu carregava nas mãos e, então, pude me reconhecer como escritora.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Acho que eu sempre gosto de falar sobre como as palavras podem mudar o mundo, mesmo que seja o mundo de uma só pessoa. Não só de leitores, mas também de escritores. Procuro perguntas para contar a história de quando criei uma editora, mesmo sem saber de nada, e meu objetivo era muito simples: abrir espaço para quem não conseguia seguir adiante. Acredito que a internet e todas as novidades tecnológicas nos proporcionam mais espaço. Acredito no poder das palavras e em um mundo com mais oportunidades, especialmente para literatura lésbica.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Na editora, estamos preparando dois novos livros. Já como escritora, estou reescrevendo um projeto que lancei em 2010, chamado “E agora?” que discute a descoberta da sexualidade na adolescência. A ideia é conversar com meninas, jovens, que se debatem ao se reconhecerem como lésbicas ou bissexuais. Estou também preparando o lançamento de um livro digital de poemas. Ele é baseado no perfil @PoemaDoSofa que lancei durante a pandemia. E, por fim, estou cuidando de um projeto chamado @PalavraQueCria, uma espécie de oficina de literatura criativa pensada para todos que escrevem. Seja o que for e como for.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista.

  • Nas rimas de Drummond
  • Nas canções de Chico
  • Nos livros de Austen
  • E até nas novelas de Maneco
  • Estudava e dissecava
  • Os efeitos e causas do amor.
  • Sabia do coração acelerado
  • Da respiração descompassada
  • Do estômago embrulhado
  • E das pernas meio fracas.
  • Eu estava preparada.
  • Até não estar mais.
  • Drummond não sabia de nada
  • Chico perdeu o ritmo
  • Austen escreveu besteira
  • Maneco era mentiroso.
  • Meus estudos foram por água abaixo
  • No momento em que beijei seus lábios.

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Onde encontrar Desirée Lourenço?

Instagram pessoal, clique aqui.

Instagram da editora GrupoHPM, clique aqui.

Poema do Sofá, clique aqui.

Palavra que cria, clique aqui.

Site da editora GrupoHPM, clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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