café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A imensidão íntima da escrita de Marcelo Maluf

Marcelo Maluf nasceu em Santa Bárbara D’Oeste, interior do estado de São Paulo, em 1974. É ficcionista, mestre em Artes e professor de criação literária. Autor dos infanto-juvenis “Jorge do pântano que fica logo ali (FTD, 2008), “As mil e uma histórias de Manuela” (Autêntica, 2013) e “Meu pai sabe voar” (FTD, 2009) este em parceria com Daniela Pinotti. Seu primeiro romance “A imensidão íntima dos carneiros” (Reformatório, 2015), foi finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Marcelo Maluf que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

R. Comecei a escrever quando entrei em contato com os livros da série “Para gostar de ler”, com grandes cronistas brasileiros, como: Luis Fernando Veríssimo, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino, entre outros. E, claro, eu buscava escrever algo parecido. Eu tinha uns onze anos de idade. Esses meus primeiros textos eu lia para meu pai e minha mãe e eles sempre me incentivavam a ler e escrever, mesmo que nessa época eu ainda não tivesse a pretensão de ser escritor.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

R. Acho que escrever é uma escolha. Entendo que esse é o meu ofício no mundo, me comunicar, contar histórias, movimentar as palavras, dançar com elas. No entanto, quem escolhe “ser escritor” só opta por isso se, em primeiro lugar, é um bom leitor e se, num segundo momento, sente que escrever é algo que lhe dá prazer e entusiasmo. Se foi tomado pelo desejo de também narrar suas próprias histórias. Esse foi o meu caso. Nem para todos é assim. Penso que depois de feita a escolha é necessário ler e escrever muito. Muito mesmo. Transpirar é fazer, e “fazer é ser”, como disse Ray Bradbury. Eu, por exemplo, quando decidi ser escritor, foi só depois de muita leitura e de ensaiar meus primeiros textos. Percebi que escrever era algo que falava profundamente comigo, que era pela escrita que eu me conhecia um pouco mais, compreendia o mundo, os outros e a nossa condição humana.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

R. Se entendermos, como disse Ítalo Calvino, “que um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer”, então a partir dessa ideia vou citar alguns dos meus prediletos:

  • - Livro das mil e uma noites.
  • - Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.
  • - Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire.
  • - As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.
  • - A história maravilhosa de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso.
  • - A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói.
  • - As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.
  • - A máquina do tempo, de H.G. Wells.
  • - Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
  • - Sidarta, de Hermann Hesse.
  • - A metamorfose, de Franz Kafka.
  • - O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino.
  • - Cama de gato, de Kurt Vonnegut.
Entre tantos outros.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

R. Tem muita gente boa produzindo literatura. Mas vou citar os primeiros que me vieram a cabeça: o Raimundo Neto, com seu livro de contos “Todo esse amor que inventamos para nós”, o Christiano Aguiar, com seus contos de “Na outra margem, o Leviatã”, a Andréa del Fuego, com o romance “Malaquias”, o Felipe Castilho com a série fantástica do Legado Folclórico. Isso para citar alguns brasileiros, mas também tenho acompanhado com entusiasmo estrangeiros como: Neil Gaiman (seja escrevendo ficção para crianças, jovens ou adultos), Caitlín R. Kiernan, com seu romance “A menina submersa”, Rosa Montero com o romance “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, os livros infanto-juvenis do inglês David Walliams, enfim. Há boa literatura sendo produzida em todos os gêneros.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

R. Estou lendo o segundo livro da série “O mochileiro das galáxias”, de Douglas Adams, cujo título é “O restaurante no fim do universo”. Adams é um narrador e tanto, além do seu humor impagável. E também estou relendo “Água viva”, da Clarice Lispector, uma narrativa que segue numa outra direção em relação a prosa do Douglas Adams, mas é justamente esse lugar entre um e outro que me fascina como leitor e como escritor.

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6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei os infanto-juvenis: “Jorge do pântano que fica logo ali” (2008, FTD), “Meu pai sabe voar” (2009, FTD), este em parceria com Daniela Pinotti. O infantil “As mil e uma histórias de Manuela (2013, Autêntica), o livro de contos “Esquece tudo agora” (2012, Terracota), o romance “A imensidão íntima dos carneiros” (2015, Reformatório), o e-book “Sermão aos bezerros”, pela Amazon, em 2019, além de contos em antologias por aí.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

R. Acho que pode começar pelo romance “A imensidão íntima dos carneiros” e também pelo infantil “As mil e uma histórias de Manuela”.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Sou mais da prosa, mas também leio muita poesia. Atualmente estou lendo mais ficção. Entre conto, novela ou romance, fico com os três, como escritor ou como leitor.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

R. Como não tenho outro emprego formal, vivo, sobrevivo, dos cursos, oficinas, clubes de leitura, etc. O fato é que a correria $ é grande. Mas isso não é privilégio da literatura. Todos que trabalham com arte e cultura no Brasil sabem das dificuldades para fechar as contas. Mas seguimos em frente.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

R. Meu engajamento é com a condição humana e não humana, logo minha ficção e minhas ações cotidianas estão de maneira objetiva ou subjetiva interligadas. Isso não quer dizer que preciso, necessariamente, politizar o meu texto. Transformá-lo numa bandeira. A causa dos direitos animais, por exemplo, que é muito importante para mim, acaba transbordando em meu texto, sem que eu precise forçar a mão. Nesse sentido toda arte é política, participante da dinâmica complexa do que chamamos de realidade.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

R. Quando eu assinei numa ficha de hotel, profissão: ESCRITOR. Isso foi no começo do século XXI, eu já escrevia, mas não tinha nenhum livro publicado.

12- Você pensa no leitor quando escreve? Como?

R. Essa é uma questão muito importante. Deixo que Calvino responda por mim:

"CREIO QUE DIVERTIR SEJA UMA FUNÇÃO SOCIAL, corresponde à minha moral; penso sempre no leitor que deve absorver todas estas páginas, é preciso que ele se divirta, é preciso que ele tenha também uma gratificação; esta é a minha moral: alguém comprou o livro, despendeu dinheiro, investe parte de seu tempo nele, deve divertir-se. Não sou só eu que penso assim; por exemplo, também um escritor muito atento aos conteúdos como Bertolt Brecht dizia que a primeira função social de uma obra teatral era o divertimento. Penso que o divertimento seja uma coisa séria".(Italo Calvino, em entrevista, comentando a respeito do seu romance "O visconde partido ao meio")

13- Qual é seu próximo projeto literário?

R. Uma novela infantojuvenil e um novo romance. Ambos já estão em andamento.

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Trecho inicial do meu romance. Para ler, clique aqui.

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Onde encontrar Marcelo Maluf?

Instagram: @m.maluf

Facebook do Marcelo Maluf, clique aqui.

Todos os livros de Marcelo Maluf podem ser encontrados na Amazon.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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