café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

"A literatura é revolucionária", celebra Godofredo de Oliveira Neto.

Godofredo de Oliveira Neto é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira. Nesta entrevista ele lembra sua infância, reafirma a paixão pela leitura, faz alguns desabafos, expõe referências e nos revela o menino oculto no professor de literatura da UFRJ.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Godofredo de Oliveira Neto que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Godofredo de Oliveira Neto (GON): Três elementos foram fundamentais para que eu começasse a escrever. O primeiro foi o estímulo dos pais pelo estudo. Meu nome, considerando os ascendentes mulheres, é Godofredo Bazzanella Kunhasky de Oliveira Neto. Estudar era, para eles, fundamental para "vencer na vida", imigrantes que vinham sem nada para o Brasil. Do Vêneto, de Berlim, dos Açores e de Portugal continental-norte. Passaram isso para mim. Essa coisa bonita, ler e estudar, mas com uma consciência de justiça social muito diminuta, que só aprendi na vida, sozinho, na luta.

Lembro também que meu avô paterno foi da chefia de gabinete do Nereu Ramos [veja aqui] e deixou livros de poesia, de ficção e de política que meu pai lia pra mim quando pequeno.

Desse empuxo vem o meu trabalho cognitivo sempre com migrações, em especial, migrações contemporâneas, vistas por um viés político. Não esqueço que se a gente quer falar de migrações, forçadas ou não, a gente tem que pensar na transposição obrigada de africanos para o Brasil. Desses nós temos hoje cento e dez milhões de descendentes. Com uma cultura sufocada, mas que agora aflora, felizmente, em várias áreas. Isso é o Brasil. Sincretismo, São Jorge e Ogum! E dezenas e dezenas de milhões de brasileiros cultuando Iemanjá no primeiro dia do ano nas águas do Brasil inteiro. Mas no segundo semestre tem a ‘oktoberfest’ de Blumenau, entre tantas outras festas em homenagem à colonização europeia (espanhola, portuguesa, italiana), mas também árabe, japonesa, libanesa etc. pelo Brasil afora.

A valorização da cultura indígena é indispensável para se entender o Brasil, seus vícios e seus pecados. E sua perfídia. E sua nação. Não há nação brasileira sem a compreensão do componente indígena nas veias e na alma do povo brasileiro. Meu livro “Ana e a margem do rio” quer homenagear os povos originários e o conflito cultural no país. Debruço-me há muito tempo sobre a literatura afrobrasileira, meu curso atual na UFRJ, Doutorado, é sobre essa literatura.

Em segundo lugar, serviu de incentivo para eu escrever o fato de ter eu estudado, desde a alfabetização, em colégio religioso, primeiro das irmãs da Divina Providência e em seguida dos padres Franciscanos em Blumenau, Santa Catarina. Essa educação me deu uma disciplina rígida para os estudos, particularmente nas áreas de humanas e na literatura, áreas fortes entre os franciscanos, junto com a Biologia. Herdo disso tudo um apreço pelos estudos e pela leitura e pela escrita. Sou, entretanto, um defensor absoluto do ensino laico e público. Apesar da ideia de fraternidade ensinada por estas escolas religiosas, o que ajuda para a tomada de consciência politica depois, há também certa camisa de força neste tipo de formação, uma sensação permanente de culpa cristã que, por vezes, impedem a libertação do humano, especialmente, dos mais jovens. A liberdade, a conscientização, a abertura para o mundo e para a visão crítica de ordenações e de hierarquias, coisas que só fui aprender no movimento estudantil secundarista, se dá plenamente, digo plenamente, em ensino laico e público, penso. E a liberdade de culto é fundamental, ou a escolha do ateísmo.

O que me motivou a ser escritor, em terceiro lugar, foi o sentimento amoroso. Que todos conhecem. Começa pra valer lá pelos doze, treze anos. Todo mundo escreveu poeminhas para o amado ou a amada. Escrevi muito textinho penetrado por esses sentimentos na época. Muuuuuitos.

Em síntese, se hoje escrevo, agradeço o apoio dos meus pais, a formação em colégios religiosos extremamente zelosos com a disciplina de leituras e também o amor, este amor que desde a juventude fisgou-me a alma.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

GON: Não é nada de dom. Tem que lembrar, desde já, que a literatura não é o espelho do mundo nem a expressão direta dos sentimentos. Só uma parte do texto literário tem a ver com o autor, a sua criatividade, o seu talento etc. Grande parte do que está escrito é anônimo e coletivo. Penso em Ítalo Calvino e Robbe-Grillet. O autor de Helena não é o autor de Brás Cubas e que não é a pessoa Machado de Assis. O sujeito da escritura é um " eu fantasmático", um espaço vazio a ser preenchido. Ele vai servir de mediador à cultura coletiva num momento dado. Daí você pergunta: E o/a cara escritor/escritora não é nada? Sim, ele é a projeção dele na escritura. Ele vai inventar o personagem mais importante do romance: o narrador/a. Outra coisa: as determinações socioeconômicas e culturais castram a possível e desejada individualidade autoral. Ele está preso à língua e ao estilo adotado, que não são criação dele. E ele está presíssimo às formas literárias do seu tempo ou que vieram antes dele. Mesmo quando há ruptura ela está sendo considerada em função do que está sendo rompido (risos). Você vê, Marcio, que o espaço para o simples dom não existe. A menos que a gente entenda esse dom como a capacidade de leitura desses interditos todos. Daí ok. Mas muitas pessoas pensam em dom como uma unção e não é... claro que não é.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

GON: São tantos que admiro... Como irei te responder? Diria, neste momento, G. Flaubert, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Guimarães Rosa, estes em primeiro plano, sempre. Mas em outros momentos, talvez eu dissesse outros nomes. Então expresso o que me vem agora, estes quatro nomes.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

GON: A literatura brasileira atual é abundante e vigorosa, mas falta articulação com as grandes questões da sociedade brasileira, como relembrou Antonio Candido. Dá para ter essa articulação sem perder a literariedade. Não citarei nomes aqui, pois são tantas pessoas que gosto de ler, entre os contemporâneos, que não quero aventurar-me em citar apenas de memória.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

GON: “Ponciá Vicêncio” (relendo), da Conceição Evaristo e “Torto arado”, do Itamar Vieira.

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6- O que você já publicou até aqui?

GON: Publiquei doze livros de ficção. Os títulos andam por aí na internet.

[Nosso blog conferiu a lista, ficção e não ficção:]

  • Faina de Jurema (1981)
  • O nome e o verbo na construção de São Bernardo (1988)
  • A ficção na realidade em São Bernardo (1990)
  • O bruxo do contestado : romance (1996)
  • Pedaço de Santo (1997)
  • Oleg e os clones (1999)
  • Marcelino Nanmbrá: o Manumisso (2000)
  • Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem Nauá (2002)
  • O menino oculto (2005)
  • Libertinagem & estrela da manhã (2006)
  • Marcelino (2008)
  • Cruz e Sousa: o poeta alforriado (2010)
  • Gramática comparativa Houaiss: quatro línguas românicas: português, espanhol, italiano, francês, com Ana Maria Brito e José Carlos de Azeredo (2010)
  • Amores exilados: romance (2011)
  • A ficcionista (2012)
  • Secchin : uma vida em letras (2013)
  • Ilusão e mentira : as histórias de Adamastor e de Lalinha (2014)
  • Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira (2016)
  • Grito (2016)

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

GON: Comece lendo o romance “A Ficcionista” que publiquei em 2012.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

GON: Leio de tudo, incluindo rótulos de cervejas e vinhos. Gostaria mesmo é de ser poeta como vejo brilhantes colegas serem. Mas, quando eu escrevo, sou cem por cento prosa. É minha sina.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

GON: Sou professor na UFRJ. Sobre direitos autorais, o que ganho.... nem vale comentar.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

GON: A literatura se constrói com a língua, que já é significante antes de o texto ser escrito. Ela cria um segundo sistema de significações. Então ela se refere á língua e não ao real. A linguagem do dia-a-dia é um sistema ideológico, imagens, mitos, conceitos. Não traduzem a plena e independente consciência do autor da frase, que ele acha que tem. O coroamento mais perceptível disso aí são os clichês. Onde fica o engajamento da literatura? Justamente ao mostrar com a sua ilusão que a linguagem já em si é ilusão. Mostrar para o cara que o seu discurso veicula uma ilusão – em maior ou em menor escala. Daí então, como você pode perceber, podemos afirmar que a literatura é revolucionária.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

GON: Quando saiu o primeiro livro impresso, com editora e tudo. “Faina de Jurema”, 1981. Romance experimental escrito nos anos 70.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

GON: Não perguntou se tinha um projeto literário. Sim, tento escrever os livros pensando num todo. Tudo está traçado no Faina de Jurema. A minha carreira vai de romance de formação e de defesa do cafuzo na literatura brasileira, como no “Marcelino...” (ninguém atentou para esse fato, o herói cafuzo na literatura brasileira) até mais “ descolados” como o “Menino oculto” ou “A Ficcionista”, ou como o de extração histórica tal “O Bruxo do Contestado”. Queria que todos fossem vistos formando um todo.

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13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

GON: Estou com um romance pronto, cujo título é “Esquisse”. O PDF está sendo traduzido para o francês e uma editora parisiense vai publicá-lo no primeiro semestre de 2021. Ainda não tenho editora para ele no Brasil.

Por último, deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

“Em Nova York. A porta quase arrebenta, não eram batidas, mas murros, acordei com a impressão de levar pauladas na cabeça. Já vai, já vai, balbuciei, um momento, abri e dois homens de capuz me empurram, caí, o de olhos claros me mantinha imobilizado com o pé no peito, o outro, tipo indiano, chutava as minhas costelas, senti um pano enfiado goela abaixo, tossi, não conseguia respirar, o pano na boca impedia qualquer ar (...) É isso que tu qué, seu escroto, a herança? Seu brasileiro viadinho (...) sabe o que eu faço com essas merdas de cartaz do Bosh? Isso aqui, ó rasgo pedacinho por pedacinho e enfio na porra da tua boca, senti o algodão do guardanapo ser substituído por pedaços de papel. Acabou enfiando o quadro inteiro em pedacinhos na minha boca, senti que ia morrer sufocado, o braço dormente, o travesseiro apertando o nariz, as costelas doíam , a cabeça latejava.”

(Trecho inédito do seu novo romance, “Esquisse”)

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Cinco e-books, sendo que “O bruxo do Contestado” está disponível para leitura grátis pelo Kindle. Clique aqui.


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Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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