café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A poética ética, estética e neomarginal de Giovani Miguez

Após grave depressão, Giovani Miguez voltou a escrever poemas. Diz ele: “(...) devo muito a Cacaso, Chacal, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão e Torquato Netto por me abrirem os olhos para o marginalismo poético e para uma poesia vívida e ávida. Por eles, voltei à poesia” e a viver. Conheça um pouco mais sobre este poeta inquieto.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Giovani Miguez que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Escrevo desde cedo, ainda no ensino fundamental arriscava poesias. Essa escrita poética foi sistemática e disciplinada até os 18 anos mais ou menos. Daí parei. Segui, entretanto, escrevendo em blogs, páginas de redes sociais, jornais da minha cidade e muita coisa em anotações íntimas. Eram escritas políticas, de inquietações sociais, etc. Foram vinte anos afastado do texto poético.

Em 2016, após passar por um grave estado depressivo, iniciei terapia e durante este período, após as sessões, anotava o que chama de registros éticos e estéticos. Assim nasceu "Quase Histórias: Est(éticas) existenciais" (Autografia, 2019), um livro com aforismos psicofilosóficos, às vezes poéticos, e com haicais e aldravias produzidas quando faltavam elementos que motivassem algum aforismo. "Quase Histórias" foi escrito entre 2017 e 2018. Foi um reencontro com a poesia, inusitado e dolorido, mas muito acolhedor.

Em 2019, assumi minha est(ética) e o ofício poético e produzi uma avalanche de poemas, quase por espamos; estes reunidos em "Animal Poético: Diário est(ético)" (Multifoco, 2020). Foram 456 poemas produzidos compulsivamente, todos os dias, de forma hiperativa, uma empreita autoral "hiperpoética", um período de intensa transformação, de muda!

Desde então, venho escrevendo poemas diariamente; ora como catarse, ora como distração, ora como fazer filosófico. Nesta toada, já foram quase 2000 poemas, fragmentos e anotações sempre poéticas. Gosto do poema curto, especialmente das aldravias e haicais. Mas, não limito-me a eles. Faço da poesia um exercício ético e estético, sempre existencial e engajado, com frequência panfletário.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Escrever, para mim, é como ler, um ato ético e estético. Não há como dissociar as duas coisas. Todo leitor é um escritor em potencial e, por outro lado, todo escritor deve (ao menos deveria) ser um leitor. Eu sou um leitor indisciplinado, porém compulsivo e extremamente eclético. Minhas referências são majoritariamente filosóficas, sociológicas, psicológicas e antropológicas em função da formação e dos interesses intelectuais. Curiosamente, apesar de adorar poesia, fiquei vinte anos sem ler sistematicamente poetas e estou há uns dez, pelo menos, sem ler romances, exceto, pelos contos e crônicas que leio para mero entretenimento.

Dito isto, penso que a boa escrita prescinda de algum esforço, ou seja, leitura e transpiração, mas há um componente intuitivo e de vontade que precisa estar presente. Como diz o ditado: "o hábito faz o monge", mas o monge precisa ter vocação para o monastério.

Eu não sou muito disciplinado no sentido de tentar a perfeição, construir estilo, construir algo considerado como tendo valor literário. Recebo até algumas críticas por isso. Mas, apenas quero expressar minhas percepções do mundo, registrar minha existencialidade est(ética). Sinceramente, não persigo isso, mas percebo na minha poética certo estilo, uma poética que marca e se reflete no meu eu-lírico. O esforço e a transpiração estão mais na persistência e na compulsão que movem meu ethos de escritor e não propriamente no esmero.

Agora, é claro que isso depende muito de cada um. Como leio muito certamente sou influenciado pelas leituras que constituem esse meu aparato intelectual. Por isso, costumo dizer que sou poeta, mas também sou um filosofante, um caminhante. O processo criativo para mim está intimamente ligado ao processo de pensar e caminhar, estes indissociáveis entre si.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Na poesia, acabo sendo muito influenciado por Matsuo Bashô, Quintana e Manoel de Barros, mas na minha poesia vejo muito de Leminski e Kerouac (e seus haicais). Na filosofia, sou totalmente influenciado por Xavier Zubiri. Na psicologia, por Carl Gustav Jung. Nas ciências sociais, por Gabriel Tarde, a meu ver um injustiçado no campo da sociologia. Transito muito dentre da lógica de uma psicossociologia que pretendo imprimir nas minhas reflexões sobre leitura e escrita. Como não leio muito romance, não arrisco dizer que admiro alguém em especial. Soa até estranho dizer isso, mas não tenho essa admiração pela prosa ficcional, por ser um leitor forjado na leitura de ensaios. Mas, digo uma coisa: Tolstoi e Miguel Torga, os contistas, são leituras que me fazem um bem danado. Gosto muito também de Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa, por razões distintas, mas que se complementam. Voltando à poesia, penso que devo muito a Cacaso, Chacal, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão e Torquato Netto por me abrirem os olhos para o marginalismo poético e para uma poesia vívida e ávida. Por eles, voltei à poesia.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Tenho me deliciado com autores como a mineira Mell Renault, de Esmeraldas , os cariocas Cristovam De Chevalier e Vitor Colonna, os paulistas Vitor Miranda e Henrique Pitt. Autores, que considero neomarginais (a minha "geração do Instagram") e, de algum modo, herdeiros do movimento marginal de 1970. Gosto muito do diálogo com essa turma que faz poesia de modo tão especial e autêntico

Tenho lido muito também a angolana Paula Tavares e o imortal Carlos Nejar. A poesia deles tem sido uma aula de como fazer boa poesia com certa erudição, mas sem perder de vista uma certa dimensão de entendimento do que está escrito. E tento manter na cabeceira poetas como Elisa Lucinda, Marina Colasanti, Fernando Korproski (amo seu "Pequeno Dicionário de Azuis) e Antonio Cícero (por ser um poeta filósofo) para meu exercício poético. Busco referências para o que venho chamando de "pedágio poético"; ou seja, ler poetas para ser poeta.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Neste exato momento estou lendo "Didascalicon: a arte de ler", de Hugo de São Vitor. Gosto dessa leitura tida como conservadora, mas que me aproxima de conceitos espirituais sobre o exercício intelectual. Gosto de forma como autores da tradição tratam o esforço intelectual da leitura. A ideia de que o conhecimento se adquire pela leitura e meditação discutida pelo autor, assim como a metodologia para se realizar a boa leitura me atraem muito. É claro que tomo essas leituras com certo cuidado, mas não as deixo de fazer por bobo capricho ideológico.

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6- O que você já publicou até aqui?

Estou no terceiro livro publicado - incluindo "Da Ilha da Poesia" (Selin Trovoar), este em parceria com um poeta de rua, Ricardo Garcia, que habita num pequeno espaço na Avenida Paulista, em frente ao MASP e o Trianon - e com um quarto "Um poema por dia" (Selin Tovoar) no prelo. Este último um projeto que nasceu como e-book “Sobre(viventes)" da necessidade de transformar a minha poesia em algo bem mais acessível, mas que está sendo revisto e ampliado. A ideia é que o livro (na versão online) seja distribuído gratuitamente e que o leitor desejando apoiar o artista possa adquirir a versão impressa. Afinal, "é dando que se recebe"!

Fora isso, não tenho muita coisa publicada para além do que disponibilizo majoritariamente no meu perfil Instagram (@GiovaniMiguez), onde concentro todo meu esforço autoral e no que estou, ainda timidamente, construindo no site Umaniste.blog, um espaço, mas também um espaço de encontro com outros poetas de desenvolvimento de outros projetos, como a biblioterapia, por exemplo.

Aliás, essa palavra, encontro, define bem a minha razão poética. Penso que poesia é encontro, basicamente isso, e nos encontramos na poesia, seja com o outro ou com nós mesmos.

Não pensei muito nas dificuldades, mas consegui parcerias que transformaram tudo em algo mais fácil, apesar das dificuldades de um mercado editorial, eu diria, "estranho", que é este da autopublicação.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

"Quase Histórias" é onde tudo começou. Trata-se de um livro seminal onde renasce minha poética, mas é mais para conhecer o filosofante e o caminhante. Creio que ali estão contidas todas as ideais seminais que desenvolvo poeticamente. "Animal Poético" tem mais poesia jorrando, pois é o livro em que me assumo poeta e concentra uma produção intencionalmente poética. Minha obra até o momento segue uma cronologia e constrói-se sobre a lógica de um diário, um diário est(ético). Assim, eu começaria pelo começo e seguiria uma sequência. Mas, a lógica de construção nasce no Instagram e é lá que o leitor terá acesso a todos os rascunhos que vou depositando como num diário, um diário est(ético).

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Prosa poética é bem legal. Acho que a prosa quando encontra a poesia enriquece as duas. Contos e novelas são oportunidades para quem quer ler em tempos de tanta concorrência: televisão, streaming, redes sociais e uma cobrança quase escravizante por produtividade. A atividade intelectual precisa de tempo e ócio e quase ninguém tem ou foi ensinado a ter. O texto curto, porém rico, é um aliado da formação de leitores mais densos e intensos. Eu sou um defensor dos contos e novelas como caminho para que o leitor médio tenha acesso a uma literatura de qualidade.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sou servidor público. Não sei se conseguirei um dia viver de literatura. Desejo, é claro, mas não posso me apegar a isso. Como disse antes "é dando que se recebe" e sigo semeando minha escrita na esperança de que o reconhecimento faça de mim um autor viável. Feliz foi Voltaire que ganhou na loteria e pode viver da sua escrita. Infelizmente, apesar de nossas aspirações utópicas, a realidade é distópica e os boletos estão batendo à nossa porta. O escritor precisa ter consciência disso para que não culpe o ofício pelas circunstâncias que a realidade nos impõe.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Bobagem esse negócio de "arte pela arte". Eis a velha falácia da neutralidade do artista, da bela arte, da estética superior e blá blá bla. Arte é a expressão da cultura e a cultura é política, diversa e está em todo lugar. A arte, portanto, também é e só pode ser política. Arte burguesa é um saco! É claro que você como artista pode optar pela omissão. Mas, omitir-se é uma forma de alinhamento com o opressor, já dizia o anglicano Desmond Tuto. A arte deve ser engajada, no limite do caos, panfletária e, em tempos obscuros como o nosso, visceralmente antifascista, antirracista, antimachista, antihomofóbica e extremamente inclusiva! A arte é transformadora e revolucionária quando o artista entende as dimensões sociais da arte dentro do contexto cultural em que ela está inserida.

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Curioso que só me senti escritor quando passaram a me chamar de escritor. E isto é muito recente. Sinto-me, entretanto, um poeta. Meu filho, Benjamin, de seis anos, foi o termômetro. Nunca consegui explicar a ele o que fazia até que assumi minha condição de poeta. Daí ele passou a ter uma mãe enfermeira e um pai poeta. Até então, até publicar "Quase Histórias", eu mesmo não tinha orgulho de me assumir como gestor público (minha formação) ou servidor publico (minha ocupação). Agora, a condição de poeta foi natural. Minha esposa diz que isso se deveu ao fato de que eu mesmo não tinha convicção sobre o que era. Mas desde dezembro de 2019, sinto-me escritor. O reconhecimento me fez sentir-me assim. Talvez seja essa a primeira vantagem de se publicar um livro. A autoria te materializa como escritor.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

"Por que escrever?"

A resposta é simples, pois escrever é imperativo e natural. Um modo de deixar rastros da minha existencialidade e construir de algum modo minha eternidade real e material e não apenas metafísica.

Escrever é um exercício de pensar e caminhar e produzir a cartografia desses dois movimentos espirituais que fazem do homem esse "ser de realidade".

Escreva, oferte sua poesia em canais onde as pessoas possam ler e te conhecer. Produza "zines", crie blogs e mantenha perfis nas redes sociais (para a poesia, o Instagram é um grande palco). Mas, antes de qualquer coisa, entenda que na literatura é "dando que se recebe" e sou muito redundante nessa afirmação, pois é minha crença como escritor. Publicar é uma etapa posterior, mais movida pela nossa vaidade de autor que qualquer coisa. Ser um autor publicado é bacana, mas bom mesmo é ser um autor lido. Nem sempre ser publicado quer dizer ser lido. Como dizia Montaigne, inspirado pelo livro Eclesiastes: "é tudo vaidade!"

A autopublicação, apesar de parecer viável, não é tão legal com os autores, por que as "editoras" estão mais preocupado em te vender produção e livros que te promover como autor ou venderem seus livros para os leitores.

Felizmente, encontrei na Selin Trovoar e na Multifoco um modelo de negócio mais amigo para o autor. A Selin, inclusive, tendo um esmero quase que de co-autoria que faz o autor sentir-se confortavel, confiante e amparado.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Atualmente estou finalizando "Um poema por dia", mas já considero um projeto dado. Quero lançar durante a FLIP.

Estou com dois livros prontos, com poesias já selecionadas - "Em terceira pessoa" e "Afetos e memórias poéticas" -, que pretendo finalizar para lançar em 2022, ainda não decido o formato.

Trabalho também uma série de poemas, especialmente tankas, que estou chamando de "Na casa da poesia", com uma poesia mais leve, mais fotográfica, de observação e menos existencial e engajada do que o que já publiquei até agora.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria...

Do meu livro "Um poema por dia", no prelo:

  • SOBRE(VIVENTES)
  • Somos viventes,
  • não sobreviventes!
  • As cidades estão inundadas,
  • não pelas águas que do céu desabam,
  • mas pelas vítimas de tanta indiferença,
  • pelas mentiras que se acumulam,
  • por tantas almas atormentadas,
  • pelo grotesco descaso.
  • Tornamo-nos sobreviventes
  • de uma existência abandonada,
  • de uma completa falta de compostura
  • de uma turba desorientada,
  • de minúscula estatura
  • existencial.
  • É preciso falar,
  • melhor, é preciso desengasgar.
  • Chega desse mundo de sobreviventes!
  • Precisamos de almas viventes,
  • existencialmente plenas,
  • emancipadas!
  • Precisamos falar deles,
  • dos milhares de sobreviventes,
  • dessa gente esquecida, covardemente,
  • por imposição de uma estranha minoria,
  • capaz de impor-lhe tanta agonia,
  • deixar-lhes adoecida.
  • Aprendi desde cedo
  • que é inevitável o medo.
  • Mas, nenhuma submissão
  • deve ser tolerada
  • em qualquer situação.
  • Aprendi que esperança
  • se constrói pelo caminho.
  • Mas não devemos nos submeter
  • a nenhum tipo de cobrança
  • sobre o que devemos ser.
  • Querem nos impor sobrevivência,
  • querem nos obrigar a uma vida de carência,
  • mas precisamos nos questionar
  • se queremos sobreviver
  • ou viver?
  • Não podemos,
  • em hipótese alguma,
  • aceitar este afogamento,
  • nos conformar com uma póstuma
  • esperança sem ao menos
  • um lamento.
  • Somos viventes,
  • não sobreviventes!

Meu trabalho também pode ser conhecido pelos vídeos a seguir. Nesses vídeos o leitor terá um excelente panorama da minha linha de trabalho. Clique aqui. São booktralers e video-poemas.

Onde encontrar Giovani Miguez?

Facebook/porGiovaniMiguez

Instagram/GiovaniMiguez

E-mail: [email protected]

Blog: www.umaniste.blog

Seus livros ou textos:

Quase Histórias (Autografia, 2019), Animal Poético (Multifoco, 2020) e da Ilha da Poesia, com Ricardo Garcia (Selin Trovoar, 2020), Um poema por dia (Selin Trovoar, 2020, prelo).

Link: www.umaniste.blog/leitura

“A arte deve ser engajada, no limite do caos, panfletária e, em tempos obscuros como o nosso, visceralmente antifascista, antirracista, antimachista, antihomofóbica e extremamente inclusiva”. É tiro, porrada e bomba, sem perder o lirismo. Conheça mais a obra do poeta “neomarginal” Giovani Miguez.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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