café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021).

A VELHICE FELIZ DE CÍCERO CONTRA A VELHOFOBIA NOSSA

"São suas próprias faltas, suas insuficiências, que os imbecis imputam à velhice" (Cícero).


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Nas sociedades ocidentais capitalistas, o envelhecimento passou a ser encarado como um problema grave. Se antes envelhecer era sinal de vitória da vida, de sabedoria acumulada, de beleza da alma, hoje é visto como algo vergonhoso (“com essa idade ainda quer frequentar festas?”), desperdício (“esse já poderia ter morrido de Covid-19”), déficit previdenciário (“os velhos estão dando prejuízo ao INSS porque estão vivendo muito tempo depois da aposentadoria”) e feiura (“a cara cheia de rugas e pelancas, ninguém merece”).

A indústria (de cosméticos, planos de saúde, plásticas, rejuvenescimento etc.) trava uma batalha – de alto rendimento financeiro – contra o envelhecimento e muitos tem até vergonha de dizer a idade.

Envelhecer, na sociedade de mercado e velhofóbica, é entrar na “população sobrante” que está fazendo “hora extra no mundo”. E isso é paradoxal, pois foi o desenvolvimento do mundo da técnica que proporcionou a bênção de um envelhecimento maior e mais saudável, agora transformado em maldição pela lógica do desempenho e da descartabilidade.

Que tal darmos um passo atrás para conhecer a sabedoria dos antigos?

Cícero (Marcus Tullius Cicero) foi advogado, político, escritor, orador e filósofo na Roma Antiga. Criado na cultura grega, ele foi um seguidor criativo de Platão, Aristóteles e do estoicismo. Nasceu em 106 a.C. e sendo um republicano contrário a ditadura, foi executado em 43 a.C., mas seu humanismo foi reavivado pelo Renascimento/Iluminismo. Antes disso, já era considerado pela Igreja como um “pagão justo” e serviu de base para muitos escritores, incluindo Santo Agostinho.

“Saber envelhecer” traz alguns insights fundamentais para nós. É uma defesa da dignidade da velhice. Nele, Cícero ensina que se alguém não encontra em si mesmo a felicidade, todas as idades serão insuportáveis e não somente a velhice. E se todos os jovens querem envelhecer, é uma estupidez lamentar que estamos envelhecendo.

“Por certo, os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade acharão execráveis todas as idades da vida. Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza. E a velhice, seguramente, faz parte delas! Todos os homens desejam alcançá-la [quem quer morrer jovem?], mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a inconsequência da estupidez!”

Não é qualquer velhice que é saborosa. Cícero diz: “Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.”

Sendo assim, como poderemos enfrentar a velhice com dignidade? Cícero responde:

“(...) as melhores armas para a velhice são o [1] conhecimento e a [2] prática das virtudes. Cultivados em qualquer idade, eles dão frutos soberbos no término de uma existência bem vivida. Eles não somente jamais nos abandonam, mesmo no último momento da vida – o que já é muito importante –, como também a simples consciência de ter vivido sabiamente, associada à lembrança de seus próprios benefícios, é uma sensação das mais agradáveis.”

Para quem viveu sabiamente, a velhice é um sereno deleite. E é injusto dizer o contrário, pois “são suas próprias faltas, suas insuficiências, que os imbecis imputam à velhice.”

Neste pequeno tratado, Cícero pretende responder a quatro questionamentos sobre o envelhecimento, considerando-o algo detestável.

“Pensando bem, vejo quatro razões possíveis para acharem a velhice detestável. 1) Ela nos afastaria da vida ativa. 2) Ela enfraqueceria nosso corpo. 3) Ela nos privaria dos melhores prazeres. 4) Ela nos aproximaria da morte.”

Vale muito conhecer as respostas de Cícero.

No final deste livreto, o filósofo fala de sua fé sobre a pré-existência da alma – reafirmando Platão – e sua continuidade depois da morte. Esta crença, que Cícero considera lógica, é algo agradável na velhice.

“Ignoro a razão, mas minha alma desperta sempre pressagiou o futuro, como se tivesse adivinhado que, uma vez deixada a vida, ela finalmente viveria. Não, se fosse verdade que as almas não são imortais, os grandes homens não desdobrariam tantos esforços para alcançar a glória e a imortalidade.”

E isso não faz Cícero um reencarnacionista.

“E, mesmo se um deus me oferecesse generosamente voltar a ser um bebê dando vagidos em seu berço, eu recusaria ser levado de volta ao ponto de partida após ter percorrido, por assim dizer, toda a arena.”

A transitoriedade da vida, o corpo físico como albergue, são temas deste livro e Cícero os toca no fechamento dos seus muitos argumentos em defesa da velhice. Diz o mestre:

“Não tenho vontade de queixar-me sobre a morte como o fizeram com frequência alguns, inclusive entre os sábios; tampouco vou lamentar ter vivido, posto que, minha vida o testemunha, não fui inútil. Aliás, deixo a vida não como quem sai de sua casa mas como quem sai de um albergue onde foi recebido. A natureza, com efeito, nos oferece uma pousada provisória e não um domicílio. Oh, como será bela a jornada quando eu partir para juntar-me, no além, à assembleia divina formada pelas almas, quando eu deixar o tumulto e o lamacento caos deste mundo!

Eis assim por que, Cipião – e para ti e para Lélio era um motivo de espanto –, considero a velhice tão fácil de suportar. Ela me parece bastante leve, até mesmo agradável. E, se me engano sobre a imortalidade da alma, é com muito gosto. Enquanto eu viver, recusarei sempre que me privem desse “erro” que me é tão doce. Se, como pensam certos pequenos filósofos, não há nada após a morte, então não preciso temer as zombarias dos filósofos desaparecidos. Se não estamos prometidos à imortalidade, mesmo assim continua sendo desejável extinguir-se no momento oportuno. A natureza fixa os limites convenientes da vida como de qualquer outra coisa. Quanto à velhice, em suma, ela é a cena final dessa peça que constitui a existência.”

Mergulhar na filosofia é um dos mais agradáveis movimentos de uma velhice inteligente, sensível, corajosa e sábia. São dicas de Cícero para os que hoje vivem o terror diante do envelhecimento numa sociedade onde o importante é ser “novo”.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Lançou a novela “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017), “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições) e, recentemente, saiu seu primeiro livro de poemas: "Santeria: jaculatórias poéticas para almas desassossegadas" (MCE, 2021)..
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