café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Ácido-concreta-lírico-marginal ou a arte de Carlos Barroso

O poeta Carlos Barroso é um artista contemporâneo e também jornalista. Do grupo fundador das revistas “Cemflores” e “AquiÓ”, publicou recentemente a antologia “41 poemas contra”. Ganhou o prêmio Esso de Reportagem em 2001. É criador e curador da Mostra de Arte dos Jornalistas mineiros. Conheça um pouco mais sobre este crítico e criativo arquiteto de palavras e imagens.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Carlos Barroso que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Tenho registros pouco nítidos sobre isso, pois parece que sempre escrevi, mas inicialmente na cabeça, passando/registrando pouco em papel.

Quando cursava Jornalismo (UFMG), dedicava meu trabalho à luta estudantil, ainda na ditadura militar. Por volta de 1977, vi uma frase que me marcou, “palavra é canhão”. Disse então para mim mesmo que passaria a escrever com afinco e também a do movimento cultural. Tinha, então, alguns poemas, contos e fragmentos escritos.

Em 1978, fundei a Revista Cemflores, junto com Marcelo Dolabela (falecido recentemente, considerado o mais brilhante poeta contemporâneo de Minas – e mesmo do Brasil), e com dois grandes poetas, Luciano Cortez e Avanílton de Aguilar.

Cemflores, uma revista de poesia, invenção e arte, hoje é estudada em teses de doutorado em Minas, e foi um berço, não esplêndido, mas um início propriamente dito de poesia & arte.

Embora tenha ido para o Jornalismo com afinco – tinha até três empregos concomitantes; algo possível na época –, como repórter político, até mesmo como comentarista da Rede Bandeirantes, em Belo Horizonte, jamais deixei a poesia de lado. Mas o excesso de trabalho me fez adiar muitos projetos que só foram retomados em meados da década de 1990. De lá para cá, tenho elaborado livros que, sem pretensão, podem ser chamados de “objeto”. Trabalhos elaborados um a um, a partir de uma proposta, uma ideia.

"Carimbalas" (2008), lançado ao lado de Dolabela, que lançou “Carimbós”, é um exemplo: todo em carimbos, montados por mim, 97 exemplares (não consegui chegar a 100 rsrs), me custou quatro meses de extenso trabalho, três ou quatro horas em cada madrugada.

Fiz também uma publicação chamada “Usura”, com cartões colocados dentro de envelopes bancários descartados, cada um diferente do outro, ao descobrir que pessoas escreviam em envelopes deixados de propósito nos balcões (para outros lerem) poemas, declarações de amor, xingamentos, observações, análises, desenhos, críticas políticas etc etc. Igual se faz em porta de banheiro. Mas essa elaboração me custou meses de pesquisa em agências bancárias. Entrava tanto em agências que passei a ficar com medo de as câmeras flagrarem a minha presença constante, e eu ser tomado por golpista ou coisa que valha.

A penúltima publicação que lancei, “Cunilíngua Pátria”, em 2017 (antes, portanto, da miniantologia/e-book “41 poemas contra”), é uma latinha-de-vaselina-de-poesia com 69 trabalhos, verbais e visuais, também em cartões. Foi outra publicação que deu muita canseira, uma trabalheira danada. Tudo feito um a um.

Paralelo a isso, há o trabalho de arte contemporânea e outros formatos: objetos, instalações, vídeo-poemas, artefatos, como é o caso da lata de lixo em que a tampa roda em câmera lenta, com a palavra História, de um lado, e History do outro. Não dá para descrever como foi difícil conseguir esse efeito na tampa... mas a História continua rodando na lata de lixo rsrs. E o Ledpoema “Salvar”, que também gosto muito.

Em 7 de setembro de 2018, só para completar sobre o que faço e penso, fiz uma instalação (“Muro”), a construção de um pequeno muro de tijolo (com apoio do pedagogo Fábio Mesquita), em frente à portaria onde ocorria a abertura da 33º Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera

Enquanto o gângster Trump defendia o seu muro segregador-racista nos EUA, eu e Fábio fazíamos esse gesto simbólico no Brasil. O tema da bienal, naquele ano, foi “Afinidades Afetivas”. Mas não houve essa “afinidade” comigo.

Faço, portanto, esse trabalho descrito, preferivelmente. Nunca procurei editoras (que, em compensação, também nunca me procuraram) ou entrei em concursos ou editais. Faço tudo pela Edições CemFlores, um selo editorial para chamar de meu rsrs... É necessário frisar que não tenho nada contra quem publica por editoras, obviamente, nem contra o mercado editorial. Tanto que penso em procurar uma editora em breve.

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2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Dizem que o processo de criar é 99% de transpiração e 1% de inspiração. No meu caso já houve de tudo, mas leitura, pesquisa e invenção (sem cópias; tem muita gente copiando...) são extremamente necessários.

Vida/ o sonho/ acontecimentos/ reflexão/ o interior/ o exterior/ livros&livros/ imagens&imagens/ sons&sons/ invenção/ criacão/ sentimentos. Tudo isso é importante, acredito, não necessariamente nessa ordem. Devem ter mais coisas, mas o que interessa é colocar tudo e o que mais pintar no liquidificador e ver o que sai, com uma boa dose de autocrítica.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Minha cabeça foi feita, primeiro, pela HQ (Quadrinhos). Depois, os clássicos, incluindo brasileiros (Machado, Rosa etc). Mas eu falaria de poetas, desde Homero, Dante, Camões, vê Rimbaud, Baudelaire, Maiakovski, Emily Dickinson, Pessoa, Pound. E Carlos Drummond, João Cabral, Augusto dos Anjos, Leminski, os concretistas (Pignatari, Haroldo & Augusto de Campos), poema-processo e por aí à fora.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Tem o nome extraordinário de Marcelo Dolabela, que já citei. Têm mulheres magníficas fazendo poesia em Minas; não vou citar nomes para não criar embaraços.

Penso (alguma coisa) que, quem veio da poesia mimeógrafo, é antropófago, deglutidor, gosta de todos os gêneros (por extensão, também humanos), desde que seja boa poesia.

Identifico nomes fazendo um trabalho excelente em Minas e no país. Falta, contudo, conversa. Quando vejo aqueles livros de cartas, entre poetas extraordinários, fico até com uma ponta de inveja. Talvez hoje esteja até pior que a “política literária”, tão bem definida e ironizada em poema homônimo por Drummond (o poeta municipal briga com o municipal para ver qual é capaz de bater o poeta federal etc). Poetas (são muitos) acreditando piamente que estão grávidos do rei (da poesia). E que têm na barriga sêxtuplos ou mais: Homero, Shakespeare, Oswald, Pound, Drummond, Cabral, os concretistas, Leminski e por aí a fora. Assim estabelece-se uma barreira ou o muro de Trump, impedindo a conversa. Tinha vontade de mostrar um poema, perguntar: tenho dúvida sobre esse texto, o que você acha? Trocar chumbo (não fascista)...

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo a antologia de poesia “Entrelinhas, Entremontes” (Editora Quixote), de Vera Casa Nova, Marcelo Dolabela e Kaio Carmona, que saiu há pouco, com uma centena de bons poetas de Minas (estou na antologia) e, também, relendo Irmãos Karamazov.

Esperando chegar, pelos Correios (temos de lutar contra a privatização dessa conquista brasileira, como propõe a ignorância bolsonarista) dois livros: “O Futebol nas Ciências Humanas no Brasil”, da Editora Unicamp. Na publicação, o professor e poeta Gustavo Cerqueira Guimarães dá uma pincelada em meu poema goldgoodgodgol (consta da miniantologia), no artigo “Poéticas do futebol: formas do jogo no papel”, em meio a trabalhos de grandes craques da literatura. O outro [livro que estou esperando chegar pelos Correios] é “26 poetas na Belo Horizonte de ontem” (Editora Fino Traço), de Kaio Carmona. Será que fica feio elogiar livros que faço parte? hehehe

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Contei a história acima. Elaboro livros-objeto, uma produção entre a literatura e a arte plástica contemporânea. O fazer sempre é difícil, principalmente quando você faz o processo de ponta a ponta, sem intermediários. Até mesmo para concluir um objeto pequeno, como é o “Cristo a metro” (que também está na miniantologia “41 poemas contra”), foi uma parada dura. Tem poema que vem de pronto, “imexível” (como diria aquele ministro ignorante do Fernando Collor, Magri, que poderia também se tornar ministro do Bolsonaro, pois é do mesmo naipe); tem outro que estou há mais de 40 anos tentando concluir, ainda sem sucesso.

Publiquei:

  • Poetrecos (Poesia Orbital/1997)
  • Carimbalas (2008)
  • Sãos, Usura e Livraria (2010)
  • Futebol de Barro – 7 poemas de futebol&lirismo e 1 canção iconoclasta (plaquete/2014)
  • CunilínguaPátria – 69 poemas (2017).
  • E a miniantologia (e-book) 41 POEMAS CONTRA (julho/2020).

Todos pelo selo Edições CemFlores.

Também participei das mostras:

  • Coletiv4 (UFSJ/2015);
  • Ocupação Poética (UFSJ/2017);
  • Além da Palavra (Biblioteca Pública/BH/2018);
  • minimasminas (Café Kahlua/BH/2018);
  • Além da Palavra2 (Casa dos Contos/Ouro Preto/2018);
  • Faculdade de Letras (UFMG/2019).

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Comece pelo livro “41 poemas contra”, por ser uma miniantologia, e está à mão, seria interessante. Tenho trabalhos (talvez esparsos) em minha página no Facebook/Instagram, que podem ser conferidos.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Tudo. Tudo. Vale a qualidade.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sempre ganhei a vida com Jornalismo. Sempre como repórter ou no máximo comentarista. Como sempre trabalhei muito, nunca tive dificuldades. Jamais ganhei com literatura. Se houver oportunidade, quero ganhar. O poema não pode ficar eternamente em greve.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Grandes escritores e poetas sempre fizeram obras políticas. Alguns, talvez mais diretamente. É o caso de Bertolt Brecht. Outros menos. Mas o caldo é humano, por isso sempre político. Não se pode fabricar xarope. Mesmo porque não funciona nem para tosse. Não acredito em escritor que fica numa redoma de vidro (já fiz até um pequeno objeto, irônico, com esse sentido: “Redoma”).

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11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Sempre senti; sempre tive dúvida.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Maravilha-pura essa entrevista. Não faltou nada.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Passei em um edital público para uma exposição individual no saguão da Assembleia Legislativa de Minas, que é bom espaço; passam ali milhares de pessoas; passa boi, passa boiada (gente boa e gado). A exposição seria em agosto, mas agora será não-se-sabe-quando.

Da mesma forma, tenho outra exposição prevista no espaço da Faculdade de Educação (FAE/UFMG), no campus universitário.

A ideia é lançar livros de poesia/multiarte na abertura dessas mostras, e também, paralelamente, na mesma semana, em livrarias/bares. Primeiro em Belo Horizonte. Depois em outros estados.

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Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

pra conquistar esse amor | carlos barroso

  • nem trabalho de tarô
  • nem Ogum nem Xangô
  • ou poema de Rimbaud
  • nem haicai de Bashô
  • nem múltiplos orgasmos
  • ou romantismo de Carlos
  • pra conquistar esse amor
  • nem leitura de Lucáks
  • nem barra de chocolate
  • ou frase de Engels ou Marx
  • nem ideograma de Pignatari
  • nem ideia de Voltaire
  • ou aforismo de Baudelaire
  • pra conquistar esse amor
  • nem música de Beethoven
  • nem humor de Grande Otelo
  • ou uma noite em hotel
  • nem soco de Eder Jofre
  • nem romance de Joyce
  • ou pintura de van Gogh
  • pra conquistar esse amor
  • nem um beijo

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Onde encontrar Carlos Barroso?

Acompanhe Carlos Barroso no Facebook, entre aqui.

Instagram: @Carlos Barroso14

E-mail: [email protected] (“com “ z” mesmo, foi uma bobagem de época que tenho preguiça de mudar”, escreveu Barroso)

Todos os livros-objeto por serem pequenas tiragens estão esgotados. Na Livraria Scriptum (Belo Horizonte) e em sites (sebos) acha-se “Poetrecos”.

O e-book “41 Poemas contra” (PDF) e a "e-plaquete 2022" (PDF) com os poetas Vera Casa Nova, Emília Mendes e Jairo Fará são obras gratuitas e podem ser pedidas por e-mail ou diretamente pelo facebook do escritor.

Entrevista com Carlos Barroso em 2012 no BH News. Clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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