café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Procuro uma utopia, uma harmonia possível entre os contrários”, confessa a poeta Alexandra Vieira de Almeida

“Na poesia, os que mais me influenciaram foram Rimbaud, devido ao transbordamento de imagens, Murilo Mendes, pelo surrealismo e Cecília Meireles, pela transcendência das formas”. É assim que a poeta Alexandra Vieira de Almeida demarca um dos seus campos de influências. Conheça mais sobre esta mulher que vive mergulhada na carpintaria das palavras.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Alexandra Vieira de Almeida que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Desde criança que escrevo. Comecei a escrever desde os 10 anos. Minha mãe Clea foi minha principal incentivadora. Entre minha infância e adolescência escrevi 30 poemas que depois datilografei. Minha mãe achou há alguns anos estas folhas amareladas e datilografadas por mim e me mostrou. Fiquei muito feliz com este achado, pois pensei que tivesse perdido esses meus primeiros poemas. Falei com a ilustradora Giselle Vieira, formada pela UFES, e ela resolveu ilustrar vários desses poemas, selecionando alguns. O resultado ficou maravilhoso. Foi daí que surgiu a ideia de meus livros infantis escritos na minha fase adulta com “Xandrinha e seus amiguinhos”.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acredito que o processo criativo seja uma mescla entre a inspiração e o trabalho difícil com a escrita. Platão, no livro Íon, nos falou que o poeta é tomado por um deus. Já o poeta Valéry nos falou sobre o trabalho bem árduo da linguagem literária. Acredito que os dois têm suas razões, pois há um hibridismo entre o dom original, onde a matéria-prima da inspiração é lapidada com maestria pela técnica e pelo conhecimento, estes adquiridos com muita leitura. A joia rara que é a trajetória final tem de passar por um longo processo de elaboração em que muitos cortes e modificações têm de ser feitos nos textos originais para que se cumpra um perfeccionismo maior. O escritor precisa de uma inspiração que não sei de onde vem tal o mistério desse dom originário que ele traz desde cedo e que é aprimorado pelo trabalho minucioso da elaboração mental. A sensibilidade e o intelecto se casam numa harmonia perfeita.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Meus livros preferidos na prosa são “Dom Quixote”, “Viagem ao redor de meu quarto”, “Dom Casmurro”, “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, “Grande sertão: veredas” e os contos de Lygia Fagundes Telles. Na poesia, aprecio a obra completa de Rimbaud, Baudelaire, T.S. Eliot, Emily Dickinson, Cecília Meireles, Drummond, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Olga Savary e Hilda Hilst. Na prosa, quem mais me influenciou foi Clarice Lispector, devido ao tom enigmático e labiríntico de sua escrita. Na poesia, os que mais me influenciaram foram Rimbaud, devido ao transbordamento de imagens, Murilo Mendes, pelo surrealismo e Cecília Meireles, pela transcendência das formas.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Na literatura atual, gosto muito dos escritores amigos que me influenciam até hoje, como Antonio Carlos Secchin, Salgado Maranhão, Luiz Otávio Oliani, Tanussi Cardoso, Cláudio Leal Cacau, Igor Fagundes, Astrid Cabral, Lina Tâmega Peixoto, Anna Maria Fernandes e Claudia Manzolillo. Acho a poesia deles de grande literariedade, trabalhando com temas importantes e impactantes na nossa literatura, sendo as principais vozes de nossa poesia contemporânea.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo, no momento, três livros maravilhosos. O primeiro, da Editora Penalux, o romance “Vinte anos”, de Pedro Torres Lobo, para a confecção de uma nova resenha em parceria com essa primorosa editora. Os outros livros, dois romances premiados, são “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, que tem toda esta relação telúrica envolvendo as personagens e “O pai da menina morta”, de Tiago Ferro, rico em experimentalismos e fragmentações linguísticas. Estou amando esses romances magníficos por sua força e impacto.

6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar, sendo mulher?

Não encontrei dificuldades em publicar meus livros sendo mulher, pois a qualidade dos textos falou mais alto do que o gênero. Fui bem recebida por todas as editoras em que já publiquei. Tenho seis livros de poesia já publicados. Minha casa editorial é a Penalux, uma editora parceira que confia no meu trabalho e que prima pela qualidade literária, pela confecção dos livros com capas maravilhosas e pela comunicação sempre eficiente entre funcionários e autores. Meu livro mais recente de poemas é “A negra cor das palavras” (2019) que já ganhou várias resenhas maravilhosas, revelando os matizes principais da minha obra com grande profundidade e complexidade que a verdadeira literatura exige. Os outros livros anteriores de poesia publicados são: “40 poemas”, “Painel”, “Oferta”, “Dormindo no verbo” e “A serenidade do zero”. Tenho também um livro infantil, “Xandrinha em: o jardim aberto”. Por fim, tenho um ensaio chamado “Literatura, mito e identidade nacional”.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Prefiro seguir a ordem cronológica, começando desde meu primeiro livro de poesia “40 poemas” até o atual “A negra cor das palavras”. Acredito que o leitor perceberá uma evolução gradual de um livro até outro. Houve, realmente, um amadurecimento maior nos meus mais recentes livros. O professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e crítico literário Marcos Pasche me disse que houve um amadurecimento maior com meu livro “A serenidade do zero”. Igor Fagundes, poeta, ensaísta e professor da UFRJ me disse que enquanto nos meus livros anteriores eu tinha mais o voo, com a imaginação muito em aberto, a partir de “A serenidade do zero” tive um equilíbrio entre o voo e o pouso, com uma conscientização maior da escrita, dando mais sentido e ordem aos textos.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Leio todos os gêneros literários. Não tenho uma preferência. Mas na hora de escrever, prefiro a poesia. Tenho mais facilidade e domino mais a técnica ao lidar com os poemas. Tenho mais dificuldade de escrever prosa literária como contos e crônicas. Já escrevi alguns, mas preciso aperfeiçoar a técnica. Pretendo escrever novelas e romances no futuro, meu grande desafio.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Fiz a faculdade de Letras, mas, no início, tive que trabalhar duro para fazer a faculdade. Trabalhei em lanchonetes e fiz alguns estágios. Ao terminar a graduação e licenciatura, quis logo fazer o Mestrado e fiquei extasiada ao passar no processo seletivo. Na minha dissertação, trabalhei com a temática da desconstrução de Derrida ao falar da literatura nacional a partir das questões de identidade nacional e mito em três romances: Ubirajara, Macunaíma e Utopia selvagem. Emendei logo o Mestrado com o Doutorado e mudei o foco na pesquisa ao analisar a poesia mística e não mais os romances de temática indígena. Comparei dois poetas distantes no tempo, mas ligados pela religiosidade, San Juan de la Cruz e Murilo Mendes. Analisei como se faz a tradução do sagrado para o literário nesses dois poetas. Como professora, o meu primeiro contato com o ensino foi num estágio na UERJ através de um supletivo. Depois, passei no [concurso do] Município do Rio de Janeiro como professora. Também trabalhei como professora na Universidade Estácio de Sá e na UERJ, com um contrato que durou pouco tempo, pois deixei o trabalho como professora universitária para só me dedicar ao Doutorado. Fiz a mesma coisa no Mestrado. Deixei meu trabalho como professora na prefeitura do Rio para me dedicar só à pesquisa, ganhando uma bolsa. Também no Doutorado, tive uma bolsa. Mas depois disso tudo, abandonei a carreira acadêmica, indo trabalhar na Secretaria de Estado de Educação (RJ). Atualmente trabalho em função burocrática na SEEDUC. Também sou tutora de ensino superior a distância na UFF a partir do Consórcio Cederj. Por fim, tenho um trabalho como resenhista de exclusividade com a Editora Penalux, que me divulga bastante a partir de minhas resenhas sobre autores da casa. Então, nesse sentido, não vivo de literatura. Realizo outros trabalhos para me sustentar e à minha família.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acredito que é bem enriquecedor o escritor dialogar com seu tempo, trazendo questões importantes atuais para serem discutidas. Mas não acho que isso tenha que ser uma regra. Quem defende a “arte pela arte” também tem suas razões. Eu não defendo, de forma radical, nem a direita e nem a esquerda, já votei em políticos dos dois lados, sem ser naqueles que são radicais e antidemocráticos, é claro. Já no meu terceiro livro de poemas, “Oferta”, já vislumbrei, em alguns momentos, a relação entre o poético e o social, culminando de forma mais impactante no meu livro mais recente de poemas, “A negra cor das palavras”, que aborda uma temática mais social com a apresentação da etnia oprimida [por sua] negritude. Mas minha obra não se prende a uma visão política feroz. Como disse Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras e professor emérito da UFRJ, na quarta capa do meu livro, não sou panfletária. Nuno Rau, poeta, historiador da arte e arquiteto não vai falar da questão da etnia, mas algo mais ligado à subjetividade do artista ao fazer uma trajetória da cor negra e sua simbologia maior, que vai além do aspecto político, recaindo na questão estética. Portanto, não procuro defender de forma ferrenha uma posição que destrua o outro. Procuro uma utopia, uma harmonia possível entre os contrários.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Quando meu trabalho começou a ser valorizado a partir de comentários críticos de autores de peso, entre outros fatores. Além disso, quando meus textos foram traduzidos para vários idiomas, tendo o reconhecimento internacional. Tenho textos em inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês e chinês. Também quando meus poemas começaram a ganhar mais visibilidade quando foram publicados em revistas e jornais importantes, como o jornal Rascunho, a Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, a convite do Acadêmico Marco Lucchesi, e o Suplemento Literário de Minas Gerais.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Não tenho perguntas a sugerir. Sua entrevista foi perfeita, com perguntas relevantes sobre o papel do escritor e de sua escrita.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Até o final do ano, irei publicar o meu sétimo livro de poemas, “O pássaro solitário”. São 33 poemas, um número simbólico e iniciático, que abordam questões como a solidão do ser, sua relação com a realidade, os bairros cariocas, o mundo virtual, a pandemia etc. O prefácio está sendo escrito pelo imenso Tanussi Cardoso, pelo qual tenho a maior admiração, sendo uma das maiores vozes de nossa literatura. O posfácio é de Claudia Manzolillo, grande poeta e contista, que tem um livro de crítica excepcional sobre a escritora Lygia Fagundes Telles. Cinco poemas desse livro constam na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras. E mais dois, sobre os bairros do Rio de Janeiro, no Suplemento Literário de Minas Gerais.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Dentre os pássaros, um rei

encolhido, solitário

na sua plumagem dourada

contradiz os sons e alaridos.

O silêncio se acostuma com as horas

Pássaro e ousado

a leitura do mundo em seus olhos.

Acordado no dia

o sol, límpido e austero.

Voo em alinho

no alinhave da rede humana.

Malabares em surdina

cortejando o chão, voo.

O entrecortar de nuvens, ar

no longínquo espaço do risco.

Zigue-zagues em desatino, lindo

o ar se molha de chuva

É o choro do pássaro

na sua solidão profunda.

O pássaro solitário

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Onde encontrar Alexandra Vieira de Almeida?

Facebook, clique aqui.

E-mail: [email protected]

Na página da autora na Editora Penalux, você encontrará todos os livro. Clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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