café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A perspectiva poética de Amanda Vital

A poeta Amanda Vital é editora-adjunta da revista Mallarmargens, mestranda em Edição de Texto pela Universidade Nova de Lisboa e estagiária na editora Ponto de Fuga. Autora do livro de poemas “Passagem” (Patuá, 2018), ela estreou em 2015 com o livro “Lux” (Editora Penalux). Tem poemas e traduções em revistas, jornais e suplementos literários do Brasil e de Portugal, além de publicações em antologias.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Amanda Vital que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Fui uma criança muito tímida, introvertida, andando pela sombra dos adultos. Sentia que minha forma mais precisa para expressar sentimentos, sensações e descobertas era através da escrita. Como gostava de ler, meus pais me compravam livros sempre que podiam. Então, desde os meus 9 ou 10 anos, eu mantinha alguns diários, cadernos de crônicas, compilações de folhas de rascunho com histórias em quadrinhos. Gostava de tentar praticar, eu mesma, todo aquele universo de formas que eu lia. A poesia veio um pouco mais tarde, aos 13, altura em que eu já tinha um fardo de experiências traumáticas – mas já com uma centelha de esperança, porque começamos a aprender poesia de uma maneira mais aprofundada na escola. Experimentei escrever em versos e acabei gostando. Algo ali, naquela nova prática, sempre me pareceu mais certeiro. E tem me salvado de muitos monstros até hoje.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acredito que haja uma sensibilidade nata, crua, em alguns escritores – ainda que só se manifeste tardiamente – que tenha campo para se desenvolver em bons trabalhos linguísticos e literários. Sempre é necessário algum esforço (muito ou pouco, a depender da facilidade de expressão de cada autor) para as lapidações da escrita. O que há para esse aperfeiçoamento está disposto entre estudos, leituras, experiências de vida e os próprios exercícios de escrita. Então, eu diria um equilíbrio de tudo isso: vivência e estudo, experiência e prática. Mas veja, não menciono a palavra “dom”. Tenho algumas ressalvas nessa questão da escrita baseando-se pura e simplesmente por um dom. A aprendizagem (e aqui, também considero o conhecimento de mundo, porque a vida também é aprendizado) não deixa de ser a peça fundamental em uma trajetória literária. Há que se absorver primeiro para ter o que se oferecer depois.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Fico com a concisão de universos de Paulo Leminski, a escrita-bisturi de Hilda Hilst, a potência de se “pintar uma aldeia e ser universal” de Adélia Prado, as movimentações imprevisíveis de Clarice Lispector, a força e a precisão de Cecília Meireles, as possibilidades do oculto de Augusto dos Anjos, os itinerários de Carlos Drummond de Andrade, os feijões – e as pedrinhas – de João Cabral de Melo Neto.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Muitos (muitos, mesmo) autores da cena atual me deixam de joelhos diante das tantas possibilidades e profundidades de escrita. Tenho contato diário com suas obras pelas redes sociais, em revistas literárias e no meu próprio trabalho na revista Mallarmargens, além de seus próprios livros e antologias – a maior parte, claro, de editoras independentes. Alguns começaram há relativamente pouco tempo e já se encaminham para espaços bastante felizes, outros têm mais linhas de estrada e criações surpreendentes. É um privilégio ser contemporânea de, por exemplo, Pedro Tiago, Nuno Rau, Marcelo Labes, Deborah Dornellas, Maria Valéria Rezende, Edimilson de Almeida Pereira, Líria Porto, Nydia Bonetti, Silvana Guimarães, Sândrio Cândido, Adriane Garcia, Carolina Braga Ferreira, Maria Esther Maciel, Luís Serguilha, Mariana Basílio, Arlene Lopes, Bianca Grassi, Ricardo Aleixo, Daniel Francoy, Zainne Lima da Silva, Ithalo Furtado, Caio Augusto Leite, Marceli Andresa Becker, Rafael Tahan, Alexandre Guarnieri, Wanda Monteiro, Carlos Orfeu, Clarissa Macedo, Prisca Agustoni, Flávio Amoreira, Maria Oliveira, Sérgio de Castro Pinto, Lau Siqueira, Ana Farrah Baunilha, Óscar Farinheiro, Cinthia Kriemler, Ana Martins Marques, Ana Elisa Ribeiro, Arthur Gomes, Noélia Ribeiro, Sabrinna Alento Mourão, Larissa Bontempi, Hirondina Joshua, Telma Scherer, Antonio Carlos Secchin, Fiori Ferrari, Pedro Tostes, Bruna Mitrano, Adília Lopes, Germana Zanettini... alguns desses tornaram-se grandes amigos meus, e é sempre bom quando temos apoios que nos são recíprocos, em um ambiente de afetos e diálogos constantes. No mais, é sempre um prazer ler o que vem deles e de tantos outros – porque, certamente, ainda esqueci um monte (e me faltam leituras de outro monte), fora os que ainda estão por vir. Ainda bem.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou mergulhada na antologia Futuro, da Flanzine (número 21), editada por João Pedro Azul. Esse número da Flanzine é o primeiro em leitura virtual, vem em formato pen-drive e divide-se entre poemas, ensaios e materiais audiovisuais de artistas contemporâneos em língua portuguesa, todos perpassando a temática “futuro”. Ficou muito interessante todo o conjunto, da curadoria à edição. São dessas coisas que só lendo e vendo, mesmo, para perceber.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Meu livro de estreia foi o “Lux”, de poemas, pela Editora Penalux, em 2015; e o segundo é o “Passagem”, de 2018, pela Editora Patuá. Também há uma plaquete virtual, “Perspectiva”, com cinco poemas, editada pela Revista Mirada (2020). Publiquei poemas em alguns suplementos, zines e revistas literárias físicas e virtuais – como Correio das Artes, A Bacana, Acrobata, Mallarmargens, Caliban, Ruído Manifesto, Germina e RelevO –, além de antologias como 29 de abril: o verso da violência (poemas, Patuá, 2015) e Ventre Urbano (contos, Penalux, 2016). Não achei difícil publicar. Hoje em dia, temos diversos espaços altamente receptivos, com uma visão bastante democrática de literatura. Então, quando comecei, já encontrei esses espaços abertos – após muito suor pelo chão, dos que vieram antes de mim, que lutaram por essa democratização e ampliação de oportunidades a autores pouco conhecidos, fora dos círculos mainstream.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Recomendo começar pelas publicações mais atuais em revistas literárias para, se gostar, partir para a leitura do livro mais recente, “Passagem”. É o processo que eu, mesma, sigo com as minhas próprias leituras de autores contemporâneos. As seleções de revistas são excelentes portas de entrada para conhecer a literatura de alguém; além disso, acho bacana conferir os trabalhos mais recentes de um autor vivo, na grande parte das vezes ainda em metamorfoses e em evoluções favoráveis dentro da literatura que faz.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Prefiro trabalhar com poesia – seja escrevendo, lendo, analisando ou editando. Também gosto de contos, curtos ou longos, mas tenho um interesse profundo no território da poesia. Não consigo explicar, apenas sinto um “à vontade” maior para trabalhar nele, porque é o gênero que mais leio e de que mais gosto.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Atualmente, sou editora-adjunta da revista Mallarmargens e estou em estágio curricular para a conclusão do mestrado, além de realizar projetos internos ligados à revista (como curadoria e mediação de eventos online, que estamos fazendo agora, em tempos de pandemia; edição e organização de antologias, entre outras atividades). No entanto, são exercícios não-remunerados; portanto, fora isso, sou uma estudante à procura de emprego em uma situação bastante desfavorável. Não sei o que seria de mim, nesse momento, sem todas essas ocupações que me preenchem os dias.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Vejo a arte enquanto um universo intrínseco à política, porque até a ausência de política dentro da arte já é um posicionamento político em si – é a falta dele, a abstenção, a fuga, o receio, a mensagem de desvio. A arte responde às movimentações políticas do macro e do micro; ela dialoga, intervém, denuncia, manifesta, questiona. E essas comunicações com a política podem vir muito sutis, moderadas, quase imperceptíveis dentro da arte; não necessariamente são explícitas ou facilmente detectáveis.

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11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”!

Não houve um momento de revelação, um sinal ou um estalo. Fui escrevendo e não parei mais. Do que chamam o que eu faço ou o que sou, aí é com os linguistas, os etimologistas, os estudiosos... Eu só escrevo, mesmo.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

As perguntas foram ótimas e eu só agradeço imensamente por estar neste espaço. Também aproveito para poder parabenizá-lo pelo trabalho excelente, incansável e generoso, no Café Pós-Moderno.

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13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Ainda este ano, pretendo finalizar projetos na revista e no estágio (segredos confidenciais), escrever um prefácio (também segredo confidencial) e seguir me movimentando com o que mais gosto de fazer.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

  • mãe, hoje eu vi o mar: parecia um lençol de seda
  • que avó abanava e quando estendia sobre a cama
  • sempre ficavam algumas preguinhas ela precisava
  • puxar com cuidado deixando liso sobre o colchão
  • a maré também evita preguinhas por cima da areia
  • o mar é um bocado de avó perfeccionista de gênio
  • instável a estender um imenso tecido infinito para
  • cosê-lo: o mar afinal é uma avó abanando as águas
  • em viscose azul em tafetá turquesa em seda verde
  • espetando barcos em pequenas almofadas de areia
  • um ventilador atrás da nuca a assoprar suas ondas
  • os pés no pedal: os pés nos pedalinhos: duas mãos
  • deslizando numa bancada de granito a desfazer-se
  • entre os dedos: uma fita métrica anil no horizonte:
  • mãe, hoje eu vi o mar e meus cabelos têm retalhos

"costura" | Amanda Vital

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Onde encontrar Amanda Vital?

Facebook entre aqui.

Instagram entre aqui.

E-mail: [email protected]

Site entre aqui.

Seus livros:

Passagem (poemas, Editora Patuá, 2018) compre aqui.

Perspectiva (plaquete de poemas, Revista Mirada, 2020), leia aqui.

Poemas recentes traduzidos para catalão (por Josep Domènech Ponsatí), leia-os aqui.

Blogues colaborativos em que Amanda Vital participa semanalmente:

Zona da Palavra, fundado pelo professor Márcio Leitão (UFPB). Entre aqui.

Equimoses, fundado por Pedro Tiago (Óbidos/Portugal). Entre aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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