café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A fantástica usina criativa de Ana Lúcia Merege

Autora de dez livros para o público juvenil e jovem adulto, a escritora e bibliotecária Ana Lúcia Merege também organizou ou coorganizou sete coletâneas de contos de ficção fantástica, entre elas, “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições). Seu "Duendes" venceu o Prêmio Le Blanc, organizado pela ECO/UFRJ e pela UVA - Universidade Veiga de Almeida. Conheça um pouco mais essa riquíssima e fantástica produção literária.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe a escritora ANA LÚCIA MEREGE que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei muito, muito cedo. Na verdade, aos 4 anos, quando aprendi a escrever, os meus desenhos costumavam ter legendas ou balõezinhos – eu já estava apresentando personagens ou ilustrando cenas. Inventava muito também. Por uns bons 20 anos minha mãe guardou fitas cassete em que eu, com 5 ou 6, tagarelava sobre deuses gregos, sobre o Mogli, sobre o Robin Hood, histórias vindas de outras que eu lia ou que meu avô me contava. Minhas primeiras fanfics, digamos. Também inventava super-heróis baseados nas minhas roupas. Eu tinha uma camiseta de esquilinhos cor de laranja, então quando vestia eu me transformava no Orange Squirrel. Doido, né?

As primeiras tentativas de escrever de fato foram por volta dos 9 ou 10 anos, mas nunca tive orientação nisso – eu tinha apenas os modelos dos muitos livros que lia, fui aperfeiçoando a escrita com a imitação e com a prática. Naquele tempo não havia internet, grupos de escritores, livros sobre escrita criativa, nada disso. Atravessei a adolescência escrevendo, mas não produzi nada que estivesse bom o bastante para publicar até depois dos 25 anos (até hoje, muita coisa que faço vai para a gaveta e de lá não irá sair). Meus pais incentivavam, mas sempre disseram que Literatura não dava camisa e eu deveria ter outra profissão. Talvez a deles, professores de Português, mas fugi do magistério e fui fazer Biblioteconomia. E aqui estou.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Não é um dom, exatamente, mas acredito que algumas pessoas tenham jeito para a comunicação verbal e escrita, para imaginar histórias e transpor para o papel (espero que eu seja uma delas). As leituras ajudam muitíssimo. Eu tenho dentro de mim uma biblioteca de referências culturais e emocionais; se vou ler uma obra de fantasia ambientada no mundo eslavo, o Górki lido na adolescência me ajuda a entrar nesse universo; um livro juvenil pode refletir outros que eu li quando criança e suscitar ainda outra criação, é como uma teia em que tudo está interligado. Mas escritor nenhum nasce pronto; se eu não tivesse praticado muito, minha escrita não seria fluente, não conseguiria estruturar e desenvolver as histórias, ou talvez elas precisassem de muito mais copidesque e revisão do que precisam hoje. E aí entra o que talvez possamos chamar de dom, que é mais a vontade de escrever, a necessidade de contar essas histórias e encontrar um canal para elas. Eu fiz muita coisa no campo da arte – desenhei, fiz teatro, aprendi um pouco de violão –, mas parei tudo, não quis dedicar minha energia àquilo. À escrita eu me dediquei e me dedico sempre.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Eu gosto de histórias mitológicas e populares, de contos de fadas, de histórias de aventura como as de Robin Hood e Os Três Mosqueteiros, de coletâneas de contos como a Mar de Histórias, que vem desde a Antiguidade até os tempos modernos recolhendo tudo que é interessante. Eu gosto de Boccaccio, de Shakespeare, de Cervantes, de Balzac, de Górki, de Jack London, de Érico Veríssimo, de Graciliano, de Ursula Le Guin, de Margaret Atwood. Muitos livros marcaram minha vida; entre os contemporâneos, cito “A História Sem Fim”, “A Lua da Rena” (eu tenho um lado meio xamânico, uma coisa meio ligada à ancestralidade que não conseguiria explicar aqui, mas influencia muito minha criatividade), “O Senhor dos Anéis” e “O Jogo das Contas de Vidro”. Bem recentemente, “Golem e o Gênio” foi um livro que mexeu bastante com minha cabeça e me empurrou de volta a uma trilha que eu havia perdido.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Falei do Golem acima. Também gostei de “Circe”, de “O Urso e o Rouxinol”, dos contos enviados para coletâneas como “Mitografias” e “Duendes”. Eu gosto de obras que explorem conteúdos ancestrais, arquetípicos, que revisitem mitologias, e/ou que mergulhem fundo na psicologia dos personagens e tragam de lá imagens e emoções poderosas. Gostei muito de “Canção de Ninar” e “No Jardim do Ogro”, por exemplo, da Leila Slimani. Brasileiras, gosto da Ana Paula Maia, da Gisele Mirabai, da Priscila Matsumoto. Do pessoal mais amigo, da ficção fantástica, nem vou falar, porque não tem como enumerá-los. É tanta gente incrível batalhando e fazendo boa arte... É um privilégio estar entre eles.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Neste exato momento – hoje – não estou lendo nada de ficção; estou revisando conteúdos para um curso, abertos aqui estão livros sobre mediação de leitura, “A Verdadeira História da Ficção Científica”, de Adam Roberts, e “Fantástico Brasileiro”, de Enéias Tavares e Bruno Matangrano, recomendadíssimo. Mas se fizesse a pergunta ontem, eu estava terminando de ler “Enraizados”, de Naomi Novik, e um livro de contos de terror gótico do Rubens Pereira Jr. , pesquisador e resenhista do gênero.

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6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei onze livros solo, sendo um de não-ficção: “Os Contos de Fadas : origens, história e permanência no mundo moderno”, e os demais para o público juvenil e jovem adulto. Organizei ou coorganizei sete coletâneas de contos de ficção fantástica, publiquei uns vinte contos e alguns artigos. Mantenho um blog sobre o universo Athelgard [clique aqui e conheça], onde estão ambientados vários dos meus livros e contos, alguns dos quais podem ser lidos gratuitamente lá mesmo. Também tem o link para compra dos livros, artes e outras coisas. E tenho um blog com outros textos e notícias sobre mim, que mantenho desde 2002 [clique aqui e conheça].

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Depende! Se gostar de fantasia épica, pode ler a trilogia iniciada por “O Castelo das Águias”. Se for criança, uns 9 a 12 anos, sugiro começar por “Orlando e o Escudo da Coragem”. Se não gostar de elfos e/ou quiser contos mais adultos, leia os que publiquei nas coletâneas “Excalibur” e “Medieval”, ou ainda “O Ouro de Tartessos”, “O Beijo de Rudra” e “A Voz do Sangue”, entre outros contos publicados na Amazon, todos com selo da Editora Draco. Ou então meus contos na revista Trasgo, revista A Taverna e coletâneas como “Martelo das Feiticeiras”, da Argonautas, e “Terror na Amazônia”, da Parágrafo.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Prosa, sem dúvida. Gosto de poesia, mas não escrevo, leio pouco, não acompanho a produção. E tanto para ler quanto para escrever, em geral, sou mais o conto longo ou noveleta. É o formato em que geralmente me saio melhor.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Não dá mesmo! Sou bibliotecária, trabalho desde 1996 na Biblioteca Nacional. É como ganho meu pão. O bom é que muita coisa que eu aprendo lá eu uso na Literatura e vice-versa, além de a Biblioteca abrir muitas portas para eventos, entrevistas e outras oportunidades de interagir, aprender e divulgar o que faço. O ruim é que nem sempre tenho tanto tempo quanto gostaria para dedicar à escrita e projetos literários. Agora estou de home office, produzindo textos e fazendo cursos online, porém os trabalhos domésticos aumentaram também.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho que todas as pessoas devem se posicionar quanto a questões sociais, porque ninguém é uma ilha. Precisamos uns dos outros, precisamos ter consciência das desigualdades que nos cercam, das injustiças, da opressão, e nos posicionar contra elas. Faço isso pessoalmente e em redes sociais, como se pode ver pelos meus posts frequentemente indignados. Como escritora, faço desde meu primeiro livro. Nos de Athelgard, sou explícita quanto a várias causas que defendo: falo de igualdade, de sororidade, de feminismo, de respeito à natureza, bem como às crenças e à cultura de cada indivíduo. Falo do perigo que é estigmatizar o outro pela origem, sexo ou cor da pele. E, nos últimos tempos, venho brincando (espero que não aconteça de verdade) com a questão da censura aos livros para jovens; pergunto se vão me execrar pelo xamanismo de “Anna e a Trilha Secreta”, pela revolta camponesa de “Pão e Arte” ou pelos magos, bruxas e duendes que estão por toda parte.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Aos 16 anos, lendo “A História Sem Fim”. Pensei: “Cara, dá pra viver neste mundo e inventar histórias em outros e voltar sempre que eu quiser. É isso que eu quero fazer da minha vida”. Mas houve outro momento, já em 2009, quando fui a São Paulo para o lançamento da coletânea “Imaginários”, da Editora Draco. Estava no palco com outros escritores e pensei: “Cheguei lá. É isso mesmo que eu quero”. Foi o ano em que lancei meu primeiro livro por editora profissional, e depois dele vieram mais dez, sem contar os contos e coletâneas.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Dentro do seu foco, acho que fez as perguntas certas. Posso acrescentar que, naquilo que se refere ao engajamento social, grande parte dele se faz ao realizar meu trabalho na Biblioteca Nacional, escrever sobre cultura, ir a escolas e outros eventos falar de literatura. Os que detêm o poder, e não falo apenas dos que ocupam cargos políticos, mas daqueles cujos interesses são favorecidos, estão fazendo o possível para acabar com nossa capacidade de questionamento, de reivindicação, de transformação. Como escritora e bibliotecária, sempre lutarei para que isso não aconteça.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

R. Espero lançar um trabalho em parceria com uma amiga este ano, um romance de aventura com uma pontinha de terror. Além de coletâneas em que estou envolvida como autora, planejo organizar mais uma, e estou escrevendo roteiro de quadrinhos ambientados em Athelgard.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Trecho de “Anna e a Trilha Secreta”...

─ Vou partir do princípio – disse Anna, e começou a ler a primeira história do caderno. Falava sobre como o mundo fora criado, de acordo com a visão de sua tribo, e ela a ouvira ser contada muitas vezes pelos mais velhos. A aranha escutou atentamente o início, depois começou a tecer, devagar e com capricho, criando uma longa rede que pouco a pouco foi se estendendo pelos galhos superiores. Anna interrompia a leitura apenas pelo tempo necessário para escalar, acomodava-se em posição segura e prosseguia, passando das histórias da tribo às do povo de Maryan, voltando à Floresta dos Teixos para lembrar caçadas emocionantes e em seguida viajando pelas sagas de heróis e dragões que pertenciam aos homens. De conto em conto, chegou ao fim do caderno; mas então já se encontrava no alto da árvore, e foi com alívio, misturado a uma sensação de vitória, que ela viu o céu noturno logo acima de sua cabeça. E, bem à frente, o ponto violeta, maior e mais brilhante do que o havia enxergado até então.

─ O Aventureiro – murmurou, emocionada.

– Muito obrigada, aranha!

─ Também agradeço. Ouvi novas histórias, cheias da magia do seu povo, e graças a elas os próximos que vierem poderão usar a escada de teia. É o que histórias fazem – disse a aranha.

– Tecem caminhos.

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Onde encontrar Ana Lúcia Merege?

Facebook: https://www.facebook.com/analucia.merege

Instagram: https://www.instagram.com/anamerege/

Twitter: @anamerege

Livros pela Editora Draco, clique aqui.

Blogs:

http://castelodasaguias.blogspot.com/

http://estantemagica.blogspot.com/


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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