café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

"Sou do tipo perfeccionista que beira o TOC", confessa o poeta Baltazar Gonçalves

“Li de Marcos Rey a Allan Poe, de Sidney Sheldon a Proust, de Clarice Lispector a Patrick Süskind, de Graciliano a Dostoiévsky, Borges e Machado, Garcia Marques, Lorca, Cecília e Rilke”, além dos clássicos da História. Este mundo formou o poeta Baltazar Gonçalves. Conheça-o mais nessa entrevista.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe hoje Baltazar Gonçalves que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento do seu trabalho.

1- Quando você começou a escrever?

Os fatos e a memória deles no tempo se confundem. Vou pontuar quatro momentos nessa cronologia.

a) Quando menino, pedi uma caderneta com a intenção escrever nela um diário das viagens para Minas Gerais. A primeira lição que o menino aprendeu foi que não é possível escrever as impressões enquanto as vive. Lembro-me de ter registrado pouco e aprendido a guardar na memória - e o menino foi viver.

b) Escrever com intenção de fazer poesia, foi aos quinze. Um colega na fábrica de calçados, onde tive meu primeiro emprego, pediu que eu escrevesse para a namorada dele. Foi a primeira vez que me coloquei no lugar de outra pessoa para exprimir um sentimento conhecido mas que não era meu. Era dia dos namorados, eles estavam separados, o rapaz queria reatar e precisava impressionar a moça. Tomei gosto, escrevi mais coisas que se perderam junto da ingenuidade da infância.

c) Na faculdade escrevia sempre, mas as ciências com suas técnicas e procedimentos têm essa mania de reprimir a lírica. Nessa época, tudo que escrevia era voltado para a ilusão do historiador de recontar a História num revisionismo sem fim. Foi nesse tempo de descobertas que reescrevi a história de José do Egito sob a ótica do desejo reprimido baseado mais em Reich do que em Freud. Eu juntava gente para ver as peças que escrevia e apresentava o processo de criação na forma de ensaio inspirado na metalinguagem de Pirandello em seu Seis Personagens em Busca de um Autor. Estávamos no inicio dos anos 90, eleições diretas, movimento operário doendo na pele e a queda do muro de Berlim via satélite. A sensação vibrante era (e ainda é) de que tudo é linguagem, representação e discurso.

d) Por vinte e cinco anos ocupei meu tempo produtivo ensinando História ciente da importância da Educação na transformação e ascensão social. Das séries iniciais ao ensino superior, usei arte e filosofia como instrumentos de trabalho. Só retomei o percurso de imersão na Literatura como escritor em 2008, com a criação do blogue Depois eu contA.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Ambas as coisas. Só se aprende a escrever de fato lendo. Por outro lado, qualquer pessoa pode utilizar a técnica e aprimorar seus limites criativos, superar-se e criar, mas a transpiração, a prática da escrita, por mais apurada que seja, sozinha, nunca produzirá outro Shakespeare. Sou do tipo perfeccionista que beira o TOC e me vejo justificado por Bilac:

“Longe do estéril turbilhão da rua,/ Beneditino, escreve! No aconchego/ Do claustro, na paciência e no sossego,/ Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!”

Quando termino um trabalho, só encontro sossego quando leio e me emociono. Construir um texto capaz de imprimir emoção é o propósito, estudar a melhor forma de produzir tal efeito é o grande exercício. Não sinto o que escrevo antes ou durante o feitio, mas depois de muitas revisões quando parece ter sido escrito por outro, talvez pelo leitor idealizado.

Humberto Eco, em uma das suas conferencias reunidas no volume Seis Passeios Pelos Bosques da Ficção, tipifica os leitores numa escala ascendente até o chamado leitor ideal, aquele para quem de fato o autor escreveria, uma entidade que faria leitura de todas as camadas do texto e ainda sinalizaria outras para o próprio compositor da obra. Eu mesmo, enquanto leitor, tenho esse comportamento, começo como se pudesse me despir dos discursos e me livrar do juízo de valores, invento um lugar sem paradigmas ou ideologias para captar o discurso no flagrante de uma segunda leitura atenta e, por isso mesmo, mais saborosa. As leituras que se pode fazer de um mesmo texto acontecem simultaneamente, do mesmo modo como se aprecia a fotografia de um filme numa cena de por do sol, sabendo que nada ali é natural ou dado sem artifício.

Como o “visconde partido ao meio” do Ítalo Calvino, a minha metade historiador não permite que o poeta seja inteiro e a outra metade, a do poeta, não deixa de considerar a História; as partes se completam no exercício da escrita, a face menos destruída de um pode ser o que o outro consegue captar de mais claro. Voltando à pergunta, mergulho de forma intuitiva na ideia e lapido com a técnica os espaços em branco, sem deixar que o evidente desfigure a humanidade percebida no instante. Preservar aquele primeiro encantamento provocado, o fascínio pelo objeto palavra na infância, custa caro. Não posso me dar ao luxo de deixar escapar a inspiração ou dom.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Muitos. Antes de chegar aos clássicos da Literatura Ocidental, li historiadores, sociólogos e filósofos. Talvez por isso eu busque nas leituras que faço o discurso, o narrador nem sempre óbvio e as estruturas na construção dos textos. Afinal, é o modo como se narra e não o narrado em si que faz a diferença quando falamos de Literatura. Todo texto para mim é narrativa, inclusive poemas.

Entre os clássicos da historiografia posso citar no meu percurso: Marc Bloch, Eric Hobsbawm, José Murilo de Carvalho, Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Gramsci. Karl Marx, Max Weber, Wilhelm Reich estiveram na minha estante ao lado dos educadores Anísio Teixeira e Paulo Freire. Joseph Campbel, e seus estudos de mitologia comparada, abriram minha mente para o que há de comum entre os homens, independente do tempo.

Li de Marcos Rey a Allan Poe, de Sidney Sheldon a Proust, de Clarice Lispector a Patrick Süskind, de Graciliano a Dostoiévsky, Borges e Machado, Garcia Marques, Lorca, Cecília e Rilke. Muita coisa. Kafka, Shakespeare, (padre) Antônio Vieira, Platão. Me afasto de Guimarães Rosa e Fernando Pessoa de tempos em tempos - essa gravidade que exercem em tanta gente pode ser entendida na obra A ANGUSTIA DA INFLUÊNCIA do crítico norte-americano Harold Bloom.

Entre 2001 e 2012, eu estava saturado de poesia e rock and roll e para não perder a sanidade de vez, fiz uma espécie de detox e parei de ler qualquer coisa para me dedicar à obra de Saramago. No autor português encontrei sustento para a alma do poeta e argumentos para o historiador. A História do Cerco de Lisboa fundou um novo período na minha vida.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Três vozes marcantes: Carlos Henrique Schroeder, Alexandre Guarnieri e a sonetista portuguesa Maria João de Sousa. As redes sociais dão evidência a muitos que estavam excluídos de cena, aprecio essas vozes anônimas, trago-as para perto do meu trabalho, todos estão na antologia “Tanto Mar Entre Nós”, organizada por mim e lançada este ano pela Editora Penalux.

BRASIL - Carlos de Assumpção, Ema Machado, Helena Souza, Jessica Kauana de Bastos, Luís Felipe Ascelino, Marco Aurélio Vieira, Rodrigo Bro, Rosinei Lamas, Tânio Sad Peres Corrêa Neves, Tárcia Caires Saad e Vitor Luan Sidonio Rodrigues

ANGOLA - João Apolinário Dalango Sebastião

PORTUGAL - Patrícia Maia Noronha e José Manuel Serradas

AÇORES - Malik - Manuel Augusto Sousa

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou relendo “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess.

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6- O que você já publicou até aqui?

- contos pela Editora Scenarium - Livros Artesanais - poemas na antologia “Poema de Ouro” organizada por José Couto - publiquei poesia por dois anos na revista eletrônica portuguesa “Inomináveis”. - “Tecido na papelaria” (poesia) foi lançado em 2019 pela Editora Penalux. - Organizei a antologia “Tanto mar entre nós” que saiu este ano também pela Penalux. - Publico regularmente no blogue “Depois eu contA”.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

O meu primeiro livro, “Tecido na Papelaria”, é um passeio pelo bosque da ficção, pelos jardins da literatura, pelo pomar da poesia. Sugiro a leitura deste “grande painel decorativo”, ou o meu blogue cujo link está no fim dessa entrevista.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Depende do momento e da profusão de interpretações que as tramas possibilitam. Quanto mais conexões a obra demanda, melhor.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Como sobrevivo? Pasme, sobrevivo com salário de professor de escola pública. Não existe glamour em ser escritor, essa imagem não corresponde com a realidade. Se não há glamour, a indústria não investe. Se não há investimento, viver de literatura hoje não é diferente de quando Lima Barreto escreveu o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Se o homem é, por sua natureza, um ser político, então o escritor é agente político. Quando o escritor decide pela continuidade de um padrão estético no seu trabalho ou opta por nova roupagem, quiçá promovendo alguma ruptura, ele está cometendo um ato político. Dito isso, embora a pergunta seja tendenciosa porque pressupõe relação direta entre literatura e política, minha resposta vai à contramão. Meu trabalho com a Literatura não é engajado, minha biografia é: sou professor operário consciente da luta de classe, e como educador, em contato com as massas, promovo inclusão. Porem, quando escrevo, não pretendo refazer o manifesto comunista nem rever a Declaração Universal dos Direitos Humanos em forma de poesia. Fazer Literatura é mais que “apenas falar de literatura” quando “engajar-se em questões sociais” parece oportuno. Na minha opinião, a atual conjuntura extensão do multiculturalismo dos anos 80, lança holofotes nos guetos onde as vítimas de racismo, machismo, homofobia, gordofobia (...) sucumbem nos discursos de inclusão que não fazem outra coisa senão iluminar aqueles que, como na caverna de Plantão, continuam presos no simulacro e escravizados. A Literatura não tem função política, embora não seja isenta, e marca seu tempo abarcando toda ação humana. É recorrente recortar um clássico quando é conveniente para fazer do recorte sombra maior que a obra, Drummond é maior que “A Rosa do Povo”. Com as maravilhas tecnológicas desse novo admirável mundo novo, não é difícil se acostumar com o fascinante mundo virtual. Entre legendas de ‘bom dia’ ou ‘fotos me sinto extremamente feliz’, esquecemo-nos da prisão em que nos encontramos, acreditando que a sociedade do espetáculo não terá fim. Mas a poesia também desestrutura e o leitor merece desconfiar da luminosidade dos holofotes direcionados para simular a vida nesse palco. Se alguns poemas nos confortam ampliando a ilusão, outros nos apertam como abraço em velório e cumprem o papel de quebrar o encanto, revelando o estado pútrido das relações em que nos tornamos espectro do humano. Alguns poetas nos acordam do sono, marionetes no gabinete do Doutor Caligari, e no desaterro das consciências encaramos o fato de que existir não fácil, de que não existe elixir milagroso, de que as luzes nos cegaram já no parto.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

No dia seguinte ao lançamento do “Tecido na papelaria” em Franca, minha amiga Roseli Belga me enviou essa mensagem:

Dizem que nós humanos somos pós de estrelas, mas tem uns que são a verdadeira estrela e nasceram para brilhar! Vc é desses! Sempre foi, ainda quando seu brilho ofuscava uns e outros, provocando o caos. Coisa de quem só sabe criar, coisa de artista. Ontem foi um dia de redenção, um dia de consagração de um talento único, o dia esperado e merecido!! Enquanto te via ali, desfiando as contas da tua história e olhar sensível, um filme passava pela minha cabeça, em que via a voz antes incompreendida, taxada, sufocada, machucada, hoje aplaudida! Só você mesmo para reunir com maestria o novo e o “velho" representado em tantas vertentes em um só lugar ao se reinventar na poesia.. E eu chorei muitas vezes ontem, lágrimas de emoção, de alegria, de amor e satisfação de estar ali para ver com você esse novo cenário de reconhecimento do seu brilho!! Será só o primeiro de muitos eu sei, porque "a vida se encarrega de colocar as coisas no lugar".

Naquele momento eu me senti escritor.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Por que “Depois eu contA”? [e ficamos sem saber, curiosos...]

13- Qual é seu próximo projeto literário?

No momento estou finalizando o próximo livro que terá como título o nome do meu blogue. Eu planejei continuar promovendo o “Tecido na Papelaria” e a antologia “Tanto Mar entre Nós” nos cursos de humanas das universidades locais e também nas escolas públicas. Com a pandemia, isso ficou para depois, quando essa distopia que estamos vivendo passar.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

“Abro esta papelaria para recolher a quase indetectável ausência de quem por aqui passa. Seja cobrindo-se para se mostrar ou descobrindo-se para se esconder, esquecemos entre as prateleiras ínfimas parcelas do que somos ou projetamos ser. Um gesto, um olhar, suspiros. Eu acumulo expressões ainda no silêncio das manhãs e teço alfaiataria doméstica, talvez em busca de compreender o tecido desfiado que é a vida.

qualquer palavra despe a alma

PUXÃO

ARAME

LUVA

GANCHO

FARPA

AGULHA

qualquer palavra veste a alma”

(Abertura do livro “Tecido na papelaria”)

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Onde encontrar Baltazar Gonçalves?

e-mail: [email protected]

facebook: https://www.facebook.com/AntonioBaltazarGoncalves

instagram: @zerobilloriginal

Conheça o blogue DEPOIS EU CONTA aqui.

“Tecido em papelaria” e “Tanto mar entre nós” podem ser comprados aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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