café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Cecília Terrana, a dramaturga do Pequeno Engenho das Artes

Cecília Terrana é formada em Letras pela UFRJ, trabalhou com dança entre 1983 e 2004, sendo bailarina, coreógrafa e professora. Em 2005 associou-se à sua irmã, Anita Terrana, na Companhia Sereníssima de Teatro, especializada em teatro para eventos e campanhas empresariais, atuando e escrevendo textos por encomenda. Formou-se pela ETET Martins Pena em 2008 com “Viúva, porém honesta”, de Nelson Rodrigues, direção de Dudu Gama, e participou de todas as temporadas realizadas em 2009. Em junho de 2019 concluiu a pós-graduação latu sensu em História e Cultura africana e afro-brasileira pelo IPN/Universidade Santa Úrsula.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Cecília Terrana que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu lembro de começar a escrever de uma forma muito dispersa lá pelo Ensino Médio. Os cadernos da escola ficavam cheios de coisas que não eram da matéria da escola... Na faculdade de Letras os amigos me chamavam de “poeta bissexta”, escrevia um poema ou um conto de vez em quando. Também mantive diário em vários momentos. Enquanto eu fui bailarina a dança era minha prioridade absoluta, mas em 2004 eu precisei parar de dançar por motivos financeiros e aí minha irmã me convidou a trabalhar com ela no teatro. Fazíamos pequenas peças e esquetes para eventos em empresas e eu passei a escrever os textos sob encomenda para os temas de cada evento. Nessa época escrever passou a ser trabalho remunerado, e foi a minha salvação!

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Aprender a ler foi a minha primeira conquista, e desde então eu sempre fui uma leitora voraz, e isso sempre ajuda a escrever. Mas eu trabalhei com um coreógrafo, o Henrique Schuller, e uma vez ele propôs que os bailarinos fizessem um exercício diário de escrita em fluxo livre, todos os dias ao acordar, como parte do processo criativo. Eu levei isso a sério por uns dois anos! Acho que isso me ajudou muito a não sofrer com travas e pressões na hora de passar uma ideia para o texto. Mas também trabalho muito com a audição, pois muitas vezes elaboro o texto falando antes de escrever, mesmo que não seja um texto teatral.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Garcia Marques, com certeza. Perdi a conta de quantas vezes li “Cem anos de solidão”. Graciliano Ramos e Clarice Lispector também deixaram marcas. Sempre me encanto com os contos de Machado de Assis. Na poesia Mário Quintana é o favorito.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Por acaso me chegaram dois livros de autores que eu não conhecia e que foram gratas surpresas: “Carta para Ana Camerinda”, de Fernando Paiva, e “Cicatrizes para colorir”, de Tiago Savio. Eu recomendo.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Leio muitos livros emprestados (e sempre devolvo!) Fiquei bem impressionada com “Laços”, de Domênico Starnone, e “A amiga genial”, de Elena Ferrante. Minha irmã me emprestou “Budapeste”, do Chico Buarque, vou começar hoje.

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6- O que você já publicou até aqui?

Em 2011 meu conto “O dia em que amamos nosso filho” foi selecionado num concurso e entrou na antologia da Editora Taba. Como meu foco nesses últimos anos tem sido a dramaturgia, eu estava mais interessada em encenar meus textos do que publicar. Em 2017 terminei de escrever [a peça] Casa Invadida, mas quando fomos fazer uma primeira leitura com atores para começar a levantar o projeto de produção, eu percebi que não estava satisfeita com o texto e parei. Também percebi que as outras peças que falavam sobre a casa, escritas entre 2010 e 2015, formavam um ciclo e comecei a pensar em publicar. No ano passado uma amiga me indicou para a Editora Metanoia e o processo foi correndo com bastante tranquilidade, com previsão para lançamento em março. Só não podia imaginar que a quarentena fosse decretada justamente quando o livro ficou pronto. Fizemos o lançamento virtualmente.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Eu ainda me considero mais dramaturga e se estivéssemos em tempos normais eu indicaria ir ao teatro. Casa Invadida tinha estreia marcada para agosto e deveria estar em cartaz... Mas nesse momento o melhor é ler o livro, que se chama “Quatro Casas” e está disponível para venda no site da Metanoia.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

A poesia me encanta pelo poder de concisão, às vezes um verso revela um mundo! Mas sou apaixonada pela narrativa: uma boa história me pega pela mão e eu vou feliz. Então adoro mergulhar num longo romance, conviver com personagens por um bom tempo, morar com eles e depois me despedir com gratidão por terem compartilhado comigo suas confidências, seus sofrimentos e alegrias.

9- Se ainda não dá para viver só de livros, como você sobrevive?

Eu fiz a faculdade de letras porque na minha época ainda não existia faculdade de dança, pois como já disse, a dança era minha prioridade. Então passei alguns anos trabalhando como bailarina, professora, coreografa. O que me sustentava realmente eram as aulas para crianças em academias de ballet. Depois as escolas foram absorvendo as aulas de dança como atividade extra classe, ficava mais prático e mais barato para os pais. Muitas academias fecharam e a hora/aula nas escolas era muito barata, e com isso foi ficando difícil sobreviver de dança.

Migrei para o teatro, mais especificamente para o teatro institucional, e numa parceria com minha irmã Anita Terrana, criamos a Companhia Sereníssima de Teatro. Aqueles eventos e campanhas nas empresas nos sustentaram por muitos anos. Como não tinha formação de atriz, entrei para a Escola Martins Pena e foi maravilhoso. Em 2012 conseguimos formalizar a Sereníssima e começar entrar nos editais de patrocínio e em 2014 um texto meu foi encenado no Projeto Sartre Mais Uma, no Teatro do Solar de Botafogo.

Teoricamente hoje sou produtora, mas a gente não consegue manter a atividade teatral regularmente, então eu também dava aulas de alongamento a domicílio, principalmente para idosos. Isso até a quarentena... Fui salva por um projeto de pesquisa para escrever um livro de memórias sobre o Lar Anália Franco de São Manuel, que vai fazer 100 anos em 2024.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Jean-Paul Sartre escreveu vários livros. Depois começou a escrever peças teatrais porque considerou que era a forma mais eficiente de expor uma ideia. Eu também penso assim, o teatro é muito eficiente pra provocar a reflexão porque mobiliza o espectador pelo raciocínio e pela emoção ao mesmo tempo, seja qual for o tema. Mesmo quando eu escrevia por encomenda para as empresas, não era possível dissociar o teatro do contexto sociopolítico da ecologia, da sustentabilidade, da saúde, da prevenção de acidentes, etc, que eram os temas mais pedidos. Acho que nenhuma obra de arte está desconectada da realidade presente.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Acho que ainda não me sinto assim, mas a publicação do livro me chamou a atenção para a comunicação pela palavra escrita que eu ainda não tinha explorado muito. Eu não tinha muita certeza se um livro com textos teatrais iria interessar a pessoas que não são dessa área, mas fiquei gratamente surpresa com o retorno de amigos e conhecidos que leram “Quatro Casas” e tiveram uma grande interação com os personagens e as histórias. Com essa pausa forçada na atividade teatral eu comecei a me aventurar em contos e até num romance...

12- E os livros de pano, o seu diálogo com as crianças?

De uns anos pra cá eu comecei a fazer livros de pano. É um trabalho totalmente artesanal e por isso mesmo muito lento. Com a pausa forçada também tive oportunidade de terminar alguns. Como também fiquei sem poder ver minha sobrinha-neta que tem quatro anos, comecei a gravar pequenos vídeos contando histórias para mandar pelo whatsapp. Recentemente juntei as duas coisas e fiz vídeos contando as histórias de dois livros de pano: “Você sabe o que é gratidão?” e “Você sabe o que é tolerância?”. É uma maneira de me reaproximar do público infantil, pois desde que parei de dar aulas de dança eu não tinha mais muito contato com crianças. Os vídeos estão no meu canal do YouTube.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Durante a quarentena comecei a escrever contos e trabalhar em fragmentos que estavam guardados, mas ainda não tenho material para um livro de contos. O romance está no primeiro tratamento, também não está no ponto de uma publicação, mas já tem nome: “Comédia Romântica”.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto:

PEQUENO CONTO MÍSTICO | Cecília Terrana

Saiu do claustro com a roupa do corpo. Em suas orações não havia tempo para perguntar qual o propósito daquele rompimento súbito. Havia uma floresta escura para atravessar: em suas preces só pedia orientação sobre o caminho mais seguro, sobreviver.

Conseguiu atravessar as chuvas torrenciais, chegar a lugares habitados, encontrar abrigo, trabalho, ocupação, renda, enfim, sobreviveu.

De longe observava as muralhas. Nunca se desligou daquele lugar, daquele mergulho, daquela entrega tão completa que a fez notória entre as que buscavam o retiro espiritual.

Um dia entrou numa igreja e ouviu o coro cantar. Foi breve a percepção daquelas vozes preenchendo as harmonias do espaço, mas a comoveu até às lágrimas. Pensou: não sou louca, não passei anos de minha vida me dedicando a uma miragem. Sempre pensou em voltar, sempre agiu como se fosse voltar a qualquer momento e retomar as práticas místicas que tantas revelações lhe trouxeram.

Mas o tempo passou.

Tanto que foi aberta uma estrada pavimentada pela floresta. O templo abriu as portas à visitação. Voltou.

Ao entrar não viu nada do que se lembrava. Não há mais os círculos concêntricos que era preciso percorrer para conquistar a percepção. Não há mais os longos exercícios de espirais, até conseguir vê-las brilhando no ar. Não há mais o ritual de tempo e espaço.

Em telas cheias de quadrados, pessoas de todas as partes do mundo se unem em belas orações. (agosto 2020)

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Onde encontrar Cecília Terrana?

Facebook, entre aqui.

E-mail: [email protected]

Site da Cia. Sereníssima, entre aqui.

Compre o livro “Quatro casas” aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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