café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Cinco poemas de Raphael Cerqueira Silva

Visconde do Rio Branco, MG (Brasil)


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1. De onde você vem?

Sou Raphael Cerqueira Silva, mineiro de São Geraldo, mas desde 1998 moro em Visconde do Rio Branco, MG. Sou graduado em Direito e História, servidor público, escritor de contos, poemas e crônicas. Publiquei “Confissões”, livro de contos em 2020 e divulgo meus textos em ‘Algumas Reminiscências Poéticas’ no Facebook, no meu Instagram, no Recanto das Letras (aqui), no Medium (aqui) e no blogspot (aqui).

2. Carlos Drummond de Andrade disse que “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece.” Quem você ama ler? .Quais são as suas referências literárias?

Gosto de ler Carlos Drummond, Wislawa Szymborska, Adélia Prado, Hilda Hilst, Manoel de Barros, Fernando Pessoa, Mia Couto, Lygia Fagundes Teles, João Ubaldo, José Luís Peixoto, Paulo Coelho, Milton Hatoum, Michel Laub. Minhas leituras são de estilos bem variados.

3. Já lançou algum livro? Participou de antologias?

Sim, lancei um livro de contos. “Confissões” foi publicado em 2020 pela Porto de Lenha Editora. Já participei de antologias, como Sarau Brasil, Alvorecer, Poesia em Caixa Alta, Semana da Poesia do Fórum Lafayette, MPB Miscelânea Poética Brasileira volumes 1, 2 e 3, entre outras.

4. Federico Lorca disse que "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." E quando foi que você tocou esse mistério?

Meu primeiro contato como leitor de poesia foi Antologia Poética do Drummond, por indicação de uma professora. Antes, havia lido poemas avulsos nos livros didáticos e apostilas de escola. Mas “a poesia realmente fez folia em minha vida”, como dizia o Peninha, nos tempos da faculdade. Quando voltei a Drummond e comecei a ler Pessoa, Quintana, Hilst, Manoel de Barros, Florbela. O acesso à biblioteca da faculdade me despertou para a poesia. As redes sociais, por outro lado, me apresentaram poetas contemporâneos, como Bráulio Bessa, Carpinejar, Marcelo Labes e Mayanne Velame, Caio Fernando.

5. “Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa). E quais são os seus sonhos?

Meu sonho? Gostaria de ser lido por mais pessoas além do círculo de amigos, familiares e contatos do WhatsApp. Essas pessoas são muito importantes para me estimular, mas penso que alcançar pessoas desconhecidas deve ser muito gratificante. Meu sonho, mesmo, é ver meus versos e minha prosa ganhar a estrada, atravessar serras e veredas, quem sabe ser musicado e virar trilha sonora de alguma paixão, algum recomeço, preenchendo o silêncio de uma noite.

A SOLIDÃO DE DRUMMOND

  • A solidão de Drummond
  • à beira mar,
  • à beira do caos
  • sem rimas e sonhos
  • é a solidão da vida
  • arrastada na lama,
  • incinerada à sombra da noite
  • no silêncio dos anônimos.

AINDA NÃO OUVI SIMONE

  • Na praça, sentimentos dúbios
  • atravessam os canteiros malcuidados.
  • Ainda não ouvi Simone
  • anunciar o Natal.
  • Um São Sebastião trespassado
  • fita-me da Matriz:
  • não sei o que pensa sobre mim.
  • O que dizer desses canteiros
  • dessa praça que outrora conheceram a beleza...
  • Ainda não ouvi Simone
  • anunciar o Natal.

LONGANIMIDADE

  • Meu amigo,
  • vivemos tempos estranhos:
  • a mocidade se esvai
  • ligeira
  • e a esperança adormece,
  • petrificada.
  • Ah, meu amigo
  • os amores são raros
  • e instáveis.
  • Sonhos, quase não os temos
  • e o corpo requer outros cuidados,
  • menos desejos.
  • Meu amigo,
  • o gado rumina pensamentos
  • os dias, famintos,
  • silenciam nossos olhares
  • a fé se cercou de dúvidas
  • e não somos mais tão racionais...
  • Ah, meu amigo
  • faltam soluções
  • alternativas foram tolhidas
  • e as noites, densas,
  • despertam-nos inquietudes.
  • Meu amigo,
  • para se viver agora
  • é preciso esforço, dores
  • doses extras de burocracia
  • e muita longanimidade.

NA SOLIDÃO DE MACONDO

  • Na solidão de Macondo
  • chorei.
  • Chorei choros noturnos e diários,
  • carente de sentimentos.
  • Em Macondo, chorei
  • solitário
  • sob céus borboleteados.
  • Nas ermas ruas
  • de Macondo,
  • sobre lágrimas e suores,
  • quedei.
  • Na solidão de Macondo
  • sem querer
  • chorei por ti.

SEM SAÍDA

  • não há saída:
  • no lusco-fusco do outono
  • vejo recortes de vaidades
  • máscaras desfeitas ao léu
  • não há saída:
  • meus livros guardam dinheiro
  • meias verdades, outras vaidades
  • que se perderão
  • como as máscaras
  • quando entenderem que não há saída.

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Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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