café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

"A arte precisa incomodar", diz a escritora Cinthia Kriemler

Ousada e engajada, a escritora Cinthia Kriemler gosta mesmo é de incomodar e desalojar as expectativas previsíveis. Sua escrita (forte, realista e direta) é um grito em defesa das questões sociais e existenciais que marcam uma sociedade injusta como a nossa.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe a escritora Cinthia Kriemler, que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Literatura, apenas aos 50 anos. Na contramão da maioria dos escritores, que começa cedo. Passei a vida trabalhando muito e, embora tenha sido sempre uma leitora voraz, nunca tinha pensado em escrever ficção. Eu fui uma pessoa que dividiu a vida por décadas. Até os 20 anos, queria namorar, estudar e sair. Aos 20, queria me dedicar unicamente à minha vida profissional. Aos 30, queria ganhar dinheiro trabalhando muito, solidificar uma carreira e ser uma boa mãe — pra mim, nunca foram coisas antagônicas. Aos 40, queria ser reconhecida como uma profissional de referência na minha área, que é a Comunicação. Mas aí eu esbarrei numa realidade: na casa dos 50, eu iria me aposentar. E a grande dúvida, uma verdadeira angústia, foi pensar no que eu faria depois que parasse com as minhas atividades profissionais. Aí, exatamente aos 50 anos, vi um chamamento para uma atividade de escritores. Era uma coisa reduzida, mas que me atraiu. Um concurso de contos. Participei, fui recebendo notas e avaliações a cada semana, e, ao final, tinha certeza de que havia encontrado o que queria fazer depois de me aposentar. Escrever. Publiquei meu primeiro livro aos 52 anos, em 2009. Um livro irregular, entre o razoável e o ruim, porque cheio de problemas. Mas foi a força que eu precisei para seguir em frente. Continuei participando dos tais desafios de escrita por muito tempo. Depois, me tornei jurada deles. E aí publiquei meu primeiro livro com a Editora Patuá, em 2012. Crônicas. Um livro que já teve outra qualidade de escrita, mas que, ainda assim, ainda não representava o que eu queria ser. Continuei lendo muito os autores contemporâneos. Analisando estilo, percebendo novidades e mudanças interessantes. Comecei a me organizar mentalmente. Não que eu achasse ruim ou bom o que lia. Apenas comecei a estabelecer os “isso, quero fazer/isso, não” . Quando lancei meu segundo livro com a Patuá, de contos (os contos são a minha base eterna), cometi uma sofreguidão: coloquei no livro todos os contos que tinha escrito, sem perceber que estava grande demais e, por isso, irregular. Foi somente a partir do meu terceiro livro com a editora que encontrei o meu caminho. Escrevi um livro de contos, em 2015, que é, até hoje, o meu predileto: Na escuridão não existe cor-de-rosa. O livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2016.

2 – Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Acredito que ambas as coisas. É claro que é necessária uma predisposição para a escrita. Acredito que, em muitos momentos, a gente tenha mesmo inspiração. Mas também acredito, firmemente, que sem muito trabalho, sem revisão, sem cortes, sem uma autocrítica muito grande nenhum escritor consiga produzir bons textos. Existe no meio literário uma vaidade imensa. Autores não gostam de ser criticados. Mas eu acredito que superar ou amansar essa vaidade faça parte do trabalho da escrita. É preciso que a gente tenha a capacidade de dar a cara a tapa. Quando eu escrevo, peço a uma autora ou a um autor que leia a obra e faça uma avaliação crítica. E acato o que eles dizem. Tenho muita opinião e muito gênio, mas também sou muito atenta ao que me apontam. É claro que só procuro pessoas a quem respeito muito, pessoal e literariamente. Mas preciso dessa leitura delas. O meu processo criativo é o caos. Tudo me inspira. E, às vezes, nada me inspira. Posso passar um mês inteiro sem escrever uma linha. Isso do escritor que todos os dias se obriga a sentar e escrever pelo menos uma lauda, eu acho maravilhoso, mas não funciona comigo. Sou indisciplinada. Se eu fizer isso, forçar, vou me sentir sufocada. E, para mim, a escrita é oxigênio. Mas, é claro, já houve ocasiões em que, sufocada ou não, eu precisei correr. Geralmente, quando aceito convites e demandas. O prazo é determinado por quem convida. Eu cumpro. Em termos de temática, o que me inspira são as questões sociais. Normalmente, escrevo mais textos ligados ao universo feminino, mas, de um modo geral, falo de todos os invisibilizados. Os temas que norteiam minhas obras são: solidão, violência doméstica, abandono, infância violada, pedofilia, velhice, racismo, homofobia. Expostos de uma forma crua, direta, realista.

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3- Quais “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita? Prosa e/ou poesia:

Autores: Machado de Assis e toda a sua obra. Assim, bem destacado. Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Aloísio Azevedo, Jorge Amado, José Lins do Rego, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Adélia Prado, Lygia Fagundes Telles, Nelson Rodrigues, Monteiro Lobato, Florbela Espanca. Livros: todos os de Machado. Mas tenho uma queda especial por um que não é considerado entre os maiores, A Mão e a Luva. Outros, que me marcaram: Memórias do Cárcere, Jubiabá, O Cortiço, Romanceiro da Inconfidência, Menino de Engenho, Grande Sertão: Veredas, Morte e vida Severina, Água viva. Nossa! É tanto livro que me marcou que não vou dar conta de citar nem a metade. Porque cada um marca por um motivo. Alguns livros estrangeiros: Os Irmãos Karamázov, Cem Anos de Solidão, Como água para chocolate, Casa dos Espíritos, Os Miseráveis, Anna Karênina, Alice no País das Maravilhas, O nome da rosa, Cartas a um jovem poeta, Cartas a um amigo alemão. Assim como os livros nacionais, há muitos outros que estou deixando de citar. E esses são só de autores clássicos.

4 – E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica?

É sempre um risco a gente citar contemporâneos. Porque quem fica de fora não entende que é uma questão da memória no momento. Mas, mesmo assim, vamos lá. No Romance: Itamar Vieira Júnior, Deborah Dornellas, Maria Valéria Rezende, Micheliny Verunschk, Nara Vidal, Graziela Brum, Márcia Barbieri. No Conto: Maria Fernanda Elias Maglio, Alê Motta, Sandra Godinho Gonçalves, Thays Pretti, Mário Sérgio Baggio, Geraldo Lima, Tiago Medeiros. Na Poesia: Adriane Garcia, Lisa Alves, Marceli Becker, Silvana Guimarães, Wanda Monteiro, Kátia Borges, Amanda Vital, Mariana Basílio, Ines Campos, Alberto Bresciani, Carlos Orfeu, André Luiz Pinto, as portuguesas Maria do Rosário Pedreira e Maria Teresa Horta.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Comecei a ler Travessências, da Melissa Suárez (Contos, Editora Patuá), e também Alguém para segurar a minha mão, da Giovana Damaceno, que é de não ficção (Editora Penalux). Mas parei para começar a leitura de um romance para o qual vou escrever um prefácio. Assim que terminar, retomo. Mais recentemente li o Velhos, da Alê Motta. Eu sou assim: começo mais de um livro, quase sempre. E vou lendo aos poucos.

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6 – O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar, sendo mulher?

Não, não foi difícil. E ser mulher não interferiu em nada. Engraçado, não? Num país machista, eu, mulher, e mais velha, não tive dificuldade em publicar. O primeiro livro foi um projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, FAC. Daí pra frente, todos os outros foram pela Editora Patuá. Nunca enviei originais para grandes editoras. Sei como é o modus operandi delas. Se você não for apresentado por alguém, levado por alguém, indicado por alguém não vai conseguir chegar até eles. Mas posso dizer com certeza que estou muito satisfeita na editora que me publica. Dentre as pequenas, a Editora Patuá é muito conceituada e tem feito um excelente trabalho. O Eduardo Lacerda já viu alguns de seus autores e autoras receberem grandes prêmios, como o Jabuti e o Prêmio São Paulo de Literatura. Portanto, não seria errado dizer que, entre as pequenas, a Editora Patuá se sobressai. E é uma casa editorial amiga. Quanto à minha produção, são, ao todo, oito livros impressos. E dois e-books na plataforma da Amazon. Fora algumas antologias. O primeiro livro foi pelo FAC-DF: Para enfim me deitar na minha alma (2009). Pela Editora Patuá: O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020); Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Pela Editora Penalux (Organizadora): Novena para pecar em paz (Antologia, 2017). E-books: Atos e Omissões; Contações.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Depende. Se a pessoa gostar de contos, recomendaria começar pelo Na escuridão não existe cor-de-rosa. Se gostar de romance, tanto faz por qual dos dois começar.

8 – Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Como escritora, a prosa. Conto e romance. Embora eu goste de repetir que o meu berço são os contos, e que jamais quero abandoná-los, confesso que tenho adorado escrever romances. Como leitora, alterno poesia e prosa. Não tenho preferência de gênero na hora de ler. Gosto de ler coisas boas. O que é bom? Pra mim, uma boa trama, um conteúdo que atraia, um cuidado estético para além da capa e das ilustrações. Há livros que eu leio que tocam música para os meus ouvidos. Quando quem escreve consegue dar ritmo às palavras. E não importa se é um ritmo mais lento ou mais rápido, importa a harmonia que esse ritmo causa na leitura. Leio gente jovem, gente da minha idade, mulheres, homens. Em prosa e em poesia, repito. Mas tenho alguns senões. Não gosto de textos rebuscados. Aqueles que parecem ter sido escritos para impressionar o leitor com a inteligência e a sabedoria do autor. Não gosto de clichês, mas há autores tão bons que um clichê aqui outro ali não compromete. Não gosto de biografias (sei que é uma falha, mas não consigo ler). Não leio livros com apologia ao racismo, à homofobia, ao machismo, à xenofobia. Gosto de quem escreve forte. De forma direta ou indireta.

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9 - Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive? Fale-nos um pouco sobre sua história de vida, formação etc.

Não, não dá pra viver só de literatura. Eu sou formada em Comunicação e tenho uma Especialização também na área. Ambas, graduação e pós-graduação, pela Universidade de Brasília. Trabalhei minha vida toda com isso. Inclusive dando aula. Sou servidora pública aposentada, faz seis anos. Falo e leio inglês com fluência. Cometo um francês enferrujado e um pouco de espanhol. Sou carioca, mas moro em Brasília há 51 anos. Filha única, divorciada, uma filha que mora comigo, dois cachorros. Áries com ascendente em Sagitário. Essa sou eu em menos de 10 linhas.

10 – Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Não visto desse conceito de “arte pela arte”. Toda forma de arte é uma expressão subjetiva que vai atingir alguém também de forma subjetiva. E sempre vai atingir alguém. A partir desse pressuposto, já é impossível dizer que se faz arte pela arte. Ninguém pinta, esculpe, toca piano, escreve apenas porque acha bonito. Existe uma necessidade, uma vontade de expressar. E expressar é arrancar do dentro para entregar para o fora. Expressar é comunicação. E comunicação é transformação. Porque não depende só de um lado, mas de muitos. Se sai de mim, há entrega. E as entregas são imprevisíveis. Mas nunca por acaso. O que a gente faz nas artes é testemunho do que a gente é, pensa, percebe, acredita. E de como a gente se sente em relação a essas provocações internas ou do ambiente. O que a gente escreve é testemunho de um tempo. De uma inquietação. Pra mim, a arte precisa incomodar. A minha escrita precisa ser incômoda. Quero que ela tire o sono, que ela provoque as pessoas para a reflexão, que tire as pessoas da sua zona de conforto (e não para dar a elas conforto). Então, não dá pra fazer arte pela arte. O contexto sociopolítico afeta diretamente a minha escrita. Eu desejo que os meus textos representem questões sociais, minorias, injustiçados, esquecidos. E também que falem da solidão, que é um dos frutos mais sutis e insidiosos da má política. Solidão de idosos, de crianças, de mulheres, dos invisíveis.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Eu escrevo. Prefiro dizer assim. E que eu estou na estrada. Uma estrada que escolhi trilhar de forma visceral, apaixonada e ética. Eu sou escritora quando um texto meu é debatido. Quando a minha escrita é analisada e contextualizada por um leitor desconhecido. Como aconteceu, por exemplo, com o meu texto “Depoimento de uma mulher que apanha”. Foram mais de 13 mil visualizações, seguidas de declarações de mulheres (em sua maioria anônimas) me relatando abusos e violências. Identificando-se com as palavras. Além disso, por duas vezes, recebi pedidos de teatros de periferia para trabalhar esse texto. Essa foi uma das ocasiões em que me senti escritora. Acho que me sinto escritora por fluxos.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Sinceramente, nenhuma. Você fez um raio-x completo. Me virou do avesso (rs).

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Um romance. Mas só para o ano que vem. Eu venho de um período em que publiquei um romance e um livro de contos com uma diferença muito curta de tempo entre um e outro (oito meses). Não queria ter feito isso, mas acabei fazendo. Sabe quando você pensa assim: Já está pronto mesmo, melhor lançar do que guardar na gaveta. Pois é, foi o que eu fiz. Cedi à tentação. Aí, veio a pandemia e eu acabei não conseguindo fazer o lançamento físico do livro de contos. Portanto, primeiro ainda tenho que fazer isso, assim que der. De qualquer maneira, não tenho conseguido escrever muita coisa agora. Tenho escrito mais poemas e, mesmo assim, esporádicos.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

“de tudo o que nos incrimina

o que nos condena

é a mudez”

Poema culpa, do livro Exercício de leitura de mulheres loucas, Editora Patuá, 2018.

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Onde encontrar Cinthia Kriemler?

Facebook: https://www.facebook.com/kriemler

Instagram: @kriemler

E-mail: [email protected]

Seus livros:

Na Editora Patuá (livros e algumas antologias):

Clique aqui

Na Amazon (livros e contos avulsos):

Clique aqui


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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