café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A beleza das palavras, o sorriso flor do Nilo e a leveza de ser Claudia Manzolillo

Seus poemas encantam as redes sociais, mas ela é mais. É contista e prepara um romance. Escreve porque precisa, ama porque tem urgências. Conheça um pouco mais a escritora Claudia Manzolillo.


cm 1.jpg

Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Claudia Manzolillo que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

A escrita me acompanha desde muito cedo. Fui leitora precoce de contos de fadas e histórias em quadrinhos. Logo me senti chamada pelo desejo de escrever. Havia um suplemento infantil de um jornal que recebia textos dos pequenos leitores. Eu pedia a meu pai, também um grande contador de histórias, que levasse ao correio minhas cartinhas, que seriam publicadas sob pseudônimo. Essa é a lembrança mais remota que tenho de minha relação com o mundo literário. Na adolescência, o lado romântico aflorou intensamente e escrevi poemas que hoje, ao ler, vejo o excesso próprio da juventude. A maturidade limou o que excedia e aprofundou o que havia de qualidade. Além disso, o gosto pela literatura me acompanhou na escolha profissional ao me direcionar para o magistério de Letras e mestrado na área, com foco na obra de Lygia Fagundes Telles.

cm lygia.png

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Creio firmemente que, assim como alguns vêm dotados de uma inclinação para as artes plásticas ou musicais, outros possuem uma vertente artística para a expressão através da palavra. O contato com bons textos funciona como um estímulo à criatividade, que semeia e frutifica em boa terra. Uma abertura ao canal da palavra existe e tenderá ao acréscimo vocabular, ao despertar de ideias e a oportunidades de selecionar autores e estilos com os quais há uma identificação natural. Assim se forma um(a) escritor(a).

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Como iniciação literária, os clássicos da literatura infantil (Andersen, Dickens, Lewis Caroll, Collodi, Eleanor Porter, Monteiro Lobato) me proporcionaram um primeiro contato com as letras. Com o decorrer do tempo, comecei a me interessar pela leitura de poesia. Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e Vinicius de Morais acompanharam minha adolescência. Cito alguns livros que conservo em minha estante como muito caros ao meu gosto: Dom Casmurro e Quincas Borba (Machado de Assis) São Bernardo e Angústia (Graciliano Ramos) Mar Morto (Jorge Amado) Primeiras histórias (Guimarães Rosa), As meninas e A noite escura e mais eu (Lygia Fagundes Telles) Todos os contos (Clarice Lispector), A espada e a rosa (Marina Colasanti), Contos mínimos (Heloísa Seixas).

Figuram, também, as obras completas de Lygia Fagundes Telles, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Adélia Prado, além de livros de Marina Colasanti, Hilda Hilst, Marly de Oliveira, Manoel de Barros, Mário Quintana, Emily Dickinson, Florbela Espanca, Sibilla Aleramo, cujos poemas tenho traduzido na quarentena, Maria Teresa Horta, Miguel Torga e Eugênio de Andrade.

cm adelia prado.jpg

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Há uma efervescência de talentos literários presentes nas redes sociais, veículo contemporâneo de divulgação da boa literatura. Há tantos escritores de qualidade que não gostaria de esquecer de nenhum. Destaco alguns: Fanny Aktinol, Tanussi Cardoso, Jorge Ventura, Luiz Otávio Oliani, Alexandra Vieira de Almeida, Sonia Maria Mazzei, Elke Lubitz, Tere Tavares, Lia Senna, Chris Herrmann, Águeda Magalhães, Luzia Catanhede, Eliana Pichinine, José Couto, Silvana Conterno, Lourença Lou, Adelaide do Julinho, João Francisco Lima Santos, Selma Jardim, Marcelo Mourão, Janet Zimmerman, José Antônio Cavalcanti, Radyr Gonçalves, Aloísio Sveiter, Luís Augusto Cassas, José Eliziário de Souza, Jô Diniz, Teca Mascarenhas, Alberto Bresciani, Nathan Souza, José Regi, Solange Damião, Lázara Papandrea, Cristina Siqueira, Mariza Alencastro, Ednaldo Borges, Rejane Dockhorn, Aírton Souza, Lou Albergaria, Adri Aleixo, Adriane Garcia, Delcio Alves Pereira, Karin Scarpa, Lena Jesus Ponte e Wanderlino Teixeira Leite Netto (os dois últimos não publicam em meios virtuais).

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Acabei de ler A negra cor das palavras (Penalux, 2020), de Alexandra Vieira de Almeida, poeta que vem se destacando no cenário contemporâneo. Estou relendo Para onde vou (vou sozinha), publicado pela 7LETRAS, de Fanny Aktinol, excelente poeta brasileira que reside no exterior. Na fila de leitura, estão as recentes publicações em e-book de Lia Senna (e depois... o AMOR), Chris Herrmann (Entre amoras e amores) e Tere Tavares (Folhas dos dias), todos pelo selo Ser Mulher Arte Editorial.

cm alexandra.jpg

6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei, em 2015, um livro de contos, A dona das palavras (Editora Penalux), premiado pela UBE/RJ em 2016. Recentemente, durante a pandemia, pela mesma editora, publiquei Perfis femininos na ficção de Lygia Fagundes Telles, um ensaio sobre as personagens lygianas.

Meus textos estão em diversas antologias, como Crocevia di versi (edição bilíngue, AvantGarde), Blasfêmeas, mulheres de palavra (Casa Verde), A mulher na literatura latino-americana (UESPI), Mulherio das Letras (vol. 1, Mariposa Cartonera), 2ª Coletânea de Prosa – Mulherio das Letras (Indicto Editora), Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições), Poesia de Ouro, 104 poemas garimpados nas redes sociais (org. José Couto, Penalux). Tenho poemas publicados em revistas eletrônicas, como: Philos, mallamargens, germina, Revista de Ouro, Solo, entre outras.

cm a dona das palavras.jpg

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Minha sugestão é ler A dona das palavras (Penalux, 2015), meu livro de contos, disponível no site da editora, na amazon.com e nas americanas.com.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Tenho uma espécie de urgência na leitura, por isso prefiro as narrativas curtas e os poemas, quer dizer, prosa e poesia são sempre bem-vindas.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Atualmente, reviso livros, textos científicos, artigos, monografias, o que ajuda a compor o orçamento de professora aposentada.

cm perfis feminos novo.jpg

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Por tanto vivido, tenho minhas restrições a engajamentos políticos. Prefiro observar e, se possível, ter uma visão crítica particular, que não se estenda ao meu fazer literário. Claro que as causas sociais estão em meus textos, tanto em prosa quanto em poesia, porque o homem/a mulher são seres sociais, que vivem num meio onde são vítimas do poder, da opressão e das desigualdades, isso, sem dúvida, perpassa meus escritos.

Não sou exatamente uma escritora de bandeiras. Eu me vejo como uma mulher do meu tempo que se sensibiliza com o que está posto neste mundo, o que, muitas vezes, me fere, profundamente, a alma. Essas feridas procuro cicatrizá-las através da palavra.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Sempre escrevi para mim, mas, em um momento de solidão e dor, passei a ler para alguns amigos e depois postar nas redes sociais. Creio que, ao ver meu livro pronto e durante a noite de autógrafos, percebi que deixei de ser apenas a mulher que escreve para alguns e passei a ser a escritora para muitos.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Você me deu a oportunidade de me apresentar de um modo bem agradável. Sinto-me privilegiada em ter tido este espaço para discorrer sobre minha experiência literária.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Tenho muitos escritos guardados, cerca de 200 poemas e alguns contos curtos, além de contos infantojuvenis. Para este ano, tenho a intenção de publicar uma reunião de poemas e, talvez, um livro para crianças. Há dois anos, venho escrevendo um romance, que faz um resgate de minha origem italiana, numa mistura entre ficção e realidade.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

  • AMOR/AMARO
  • Ama-se pela falta ou pelo excesso
  • Ama-se pelo gosto de estar lado a lado
  • Ama-se pelo apelo tácito da pele
  • Ama-se pelo desejo mesmo de doar-se
  • E no outro ser parte, uno e duplo
  • Face do bem-querer, estar no outro
  • No leito, no rio, no mar.
  • Cotidianamente aprende-se o amor
  • nos gestos miúdos, adensa-se o amor.
  • Amaro se torna o amor se não é amor
  • Que o Amor, de fato, confia e espera,
  • Não sopra a chama da discórdia
  • Amansa e redimensiona
  • Equilibra e apara arestas.
  • Se é Amor
  • O amaro vira amora
  • Néctar de flor
  • Sol no inverno
  • Nesga de luz
  • Em tempos de cegueira.
  • Publicado em Poesia de Ouro, 104 poemas garimpados nas redes sociais (org. José Couto, Penalux)

    cm final.jpg

    Onde encontrar Claudia Manzolillo?

    Facebook: claudiamanzolillo/facebook

    E-mail: [email protected]

    Seus livros estão disponíveis no site da Editora Penalux, na amazon.com e nas americanas.com


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marcio Sales Saraiva