café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Conheça o mundo da poeta baiana Rita Santana

Manoel de Barros diz que “poesia é o belo trabalhado. É artesania!", eu também sinto assim”, diz a poeta e contista RITA SANTANA.

Sobre política e literatura, ela é arretada e categórica: “Eu já nasci engajada! Uma mulher negra já nasce sabendo que é preterida numa sociedade racista, machista, escrota, como é a sociedade brasileira”.

Admitindo influências de Adélia Parado, Hilda Hilst, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Teles, entre muitas outras, esta poeta e contista conversou com nosso #cafépósmoderno e revelou seu imenso mundo de leituras, reflexões, escritas e ‘baianicidade’. Mergulhe conosco, mas sem pressa. Pegue o café e venha...


rs primeira.jpg [Foto: Angela Hernandez]

Nosso #cafépósmoderno recebe Rita Santana que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Constato, através de velhos documentos, livros e cadernos, que o ato da escrita me acompanha desde a adolescência e que se desenvolveu concomitantemente ao surgimento da leitora. A aquisição da máquina de datilografia foi um marco.

Lembro de ter uma consciência poética, adquirida com as quadrinhas que dividíamos nos intervalos do catecismo e, principalmente, através dos livros didáticos e das enciclopédias que eu lia. No entanto, começo a ter um olhar mais atento à escrita na Universidade. Antes disso, já escrevia em cartões poéticos para o grupo de teatro que ajudei a fundar em Ilhéus com minhas irmãs e outros jovens artistas, o “Caras e Máscaras”. Mas não aspirava, naquele período, escrever como uma profissão, como se configuraria mais tarde. A Atriz regia meus interesses.

A determinação em fazer Letras, quando ainda pairava a dúvida entre Direito ou Filosofia, foi uma opção clara pela Literatura. Sem dúvida, eu decidi estudar o que eu amava, na impossibilidade de fazer uma faculdade de Artes Cênicas. Àquela época, não havia nenhuma política pública que possibilitasse deslocamentos assim, ações que só vieram com os governos petistas, anos mais tarde.

A UESC foi fundamental e, durante o semestre em que estudamos algumas narrativas portuguesas, lemos Almeida Faria, escritor português, com Tica Simoes, professora fascinante e de fundamental importância em minha formação. Além de lermos Eduarda Dionísio - com o livro “Retrato de um Amigo enquanto falo” - uma mulher gigantesca que mexeu com a jovem militante de esquerda, que, desde então, já se esboçava em mim; mexeu com a jovem mulher, através daqueles princípios feministas e poéticos tão espetaculares e profundos, contidos em seu livro-denúncia, que tocavam no machismo instituído entre os revolucionários portugueses. É óbvio que o todo do curso contribuiu muito e formou aquela jovem. O meu contato com Drummond e Bandeira foram basilares, através do curso com a professora Margarida Fahel, nossa Margaridinha. Após a leitura de “Rumor Branco”, de Almeida Faria, necessitei escrever um conto: “Tramela”. A partir dali, nasceu a escritora.

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Desde cedo, tínhamos uma máquina de datilografia comprada por meu pai e ela sempre esteve muito comigo, está até hoje, sou sua cuidadora.

Esses estímulos familiares dos livros, de incentivar a leitura, os estudos, comprar enciclopédias, tudo isso colaborou para a invenção dessa criatura tosca, ligada aos livros. Não temos tradição de universitários na família, portanto, tudo era novo para todos nós, principalmente para meus pais. Acho que havia muito mais o meu desejo de Ser. Escrever sempre foi uma necessidade.

Quando saí de Ilhéus para morar em Salvador, a atriz me moveu, mas trouxe na bagagem vários contos escritos e que já tinham sido publicados no suplemento Cultural do jornal “A Tarde”, através do olhar generoso do grande Poeta e editor do jornal, à época, Florisvaldo Mattos.

Quando cheguei aqui, escrevi mais alguns contos para compor o livro e procurei, com o tempo, saber como o publicaria. Concorri duas vezes e ganhei o [prêmio] Braskem de Literatura para autores inéditos, em 2004.

Em 2006, após alguns anos de espera para ser publicado, surge o “Tratado das Veias”, pelo Selo Letras da Bahia. “Alforrias” viria em 2012, pela Editus e “Cortesanias” seria publicado pela Caramurê em 2019.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Lembro agora de uma lenda em torno do Padre Antônio Vieira, onde se narra que ele teria sido afetado, um dia, por um estalo na cabeça, e a partir daí, ele teria se tornado muito inteligente. Isso só acontece com santos ou seres iluminados. Eu nunca esperei por milagres. Sempre fui uma leitora, principalmente na adolescência, onde o tempo era mais meu, mais amigo e a necessidade de evasão da realidade ou de compreensão mais ampla da realidade eram preocupações que me afetavam.

Escrever - e aqui falo obviamente da minha experiência - requer leitura, descoberta, pesquisa e escrita constante. Preciso ler sempre e cada vez mais, como se o tempo, a ampulheta estivesse acabando toda a areia e eu precisasse correr em busca do tempo perdido. Trabalho muito e parte desse trabalho é lendo, aprendendo.

Escrever é uma busca eterna. Labor! Manoel de Barros fala no documentário de Pedro Cézar ("Só dez por cento é mentira!"): “Poesia é o belo trabalhado. É artesania!". Eu também sinto assim; gosto de trabalhar o texto; é o meu ofício.

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É preciso dedicação e investimento: comprar livros, procurar entender quem está escrevendo, estudar, pesquisar e escrever muito. Correr atrás dos clássicos que ainda não foram lidos, ler os contemporâneos, ouvir os contemporâneos, pois agora há os podcasts e eles nos trazem outras vozes também. Resgatar autoras e autores durante a preparação de um novo livro, de um novo projeto. Trabalhar sempre.

Hoje, tenho tido tempo para a disciplina da escrita. Escrevo com mais frequência porque agora tenho mais tempo, tenho quase todo o tempo do mundo.

Outro dia, ouvi uma palestrante, escritora, dizendo que Carolina de Jesus era uma exceção, pois ela era escritora e não teria sido uma leitora. Fiquei indignada! Carolina era uma leitora assídua, desesperada, comprometida com a leitura. Ela tinha consciência plena de que, para exercer o seu ofício, era necessário ler e escrever cotidianamente. Carolina é uma aprendizagem necessária; uma aprendizagem de delicadeza e refinamento. Entretanto, inspiração é um milagre que acontece! A ideia de um poema ou de um conto às vezes nos chega quase pronta, o cerne chega e o que me resta é burilar. Agradecer ao Universo. Geralmente, ela é fruto do trabalho, ela é chamada pelo trabalho, mas acontece. Muito raramente, mas acontece. Às vezes, sonho com versos; às vezes acordo com a ideia de um poema ou de um conto. A ideia já surgiu, enquanto eu lavava pratos. Lavar pratos é um momento de intimidade com o pensamento. Agora, na pandemia, beira à tortura!

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Hemingway me abalou muito cedo com a leitura de “O Sol também se levanta”. Na mesma época, li Mario Puzo, “O Poderoso Chefão”, que foi um impacto. Estou com alguns clássicos aqui na fila para serem devorados. Machado me fisgou, desde “Helena”, que também li muito jovem, depois veio “Dom Casmurro”, seus contos, como a “Missa do Galo”. Hoje, estou voltando aos seus contos com certa disciplina, como também aos romances que não li.

Nessa busca pelo não lido, estou num relacionamento sério com “D. Quixote de la Mancha”, de Cervantes e me encontro completamente apaixonada, e o melhor: é uma paixão que me faz gargalhar, sorrir, ser feliz, como deveriam ser todas as paixões. Cervantes é genial! O livro é tudo: divino e absolutamente humano!

Sartre me marca muito, desde jovem, quando li seus contos do livro “O Muro”. Mas “A Náusea” foi um arrebatamento em ideias, pensamentos, o manuseio do pictórico, a abordagem dada ao Amor. Um livro para o qual eu desejo voltar, um dia, assim como desejo voltar às páginas de “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera. Sofri um impacto tremendo com “Germinal”, de Émile Zola; andei por aquelas terras inóspitas e com aquela gente bravia. Adensou o sentimento de classe e a radiografia do amor, tão impensável em tempos de fome, exploração e miséria.

Jorge Amado me fez sofrer muito com “Mar Morto”, “Capitães da Areia” e com “Tereza Batista Cansada de Guerra”, marcas emocionais caras, inesquecíveis. Aquele lirismo de “Mar Morto” é pra sempre, indelével.

Raquel de Queiroz veio contundente com “Dôra Doralina”, um romance denso e inesquecível. A ideia de mulher imensa, grandiosa, quebrando o estabelecido me fascinava, além do nomadismo dos artistas que ela também trazia ali.

Borges e Virginia Woolf são grandiosos em mim. Ter lido “Orlando”, que considero insuperável, foi revolucionário em minha vida. Acho que ela tem uma dimensão gigantesca no mundo literário e em mim ela provoca explosões, cataclismas, luzes se acendem em meu cérebro, quando a leio. “Um Teto Todo Seu”, “Mrs. Dalloway”, seus contos… Ela é arrebatadora! Com Borges, sinto algo muito parecido. “Aleph” foi uma loucura e seus poemas me perturbam com sua grandiosidade, amplitude, possibilidades. Ambos têm poderes imensuráveis com a leitora e espero que atinjam, de alguma forma, a escritora também, um dia, de alguma forma.

Lá, nos primórdios, Hermann Hesse foi um estrondo naquela jovem, ainda no magistério. Vi que todas as estruturas sociais eram uma grande armação e aqueles livros me ensinaram a ser mais livre, “Sidarta” e “Demian”. Teria que os ler novamente para entender o que fizeram, o estrago que fizeram.

O “Quarto de Despejo” é um clássico lido em diversas universidades lá fora, e que precisa ser definitivamente consolidado aqui, em nossas universidades, escolas, vestibulares. Carolina Maria de Jesus, naquele livro, nos dá uma aula sobre o que é ser escritora. A sua busca pela literatura dentro da escrita é fascinante. A sua forma de registrar o mundo, a política. Imensa! Imensa! Mudou a minha forma de ver o trabalho da escritora, definitivamente.

“O Amor nos Tempos do Cólera” de Gabriel Garcia Marques estragou a minha vida amorosa para sempre!

O que é João Guimarães Rosa com “Grande Sertão Veredas”, que é uma leitura inacabada, e, principalmente “Sagarana”, que esteve muito comigo nas buscas da juventude. Linguagem!

“O Guarani” é uma obra de beleza profunda e inesquecível; “Senhora”! José de Alencar é fascinante! Não sei como tudo isso influencia a minha escrita.

Posso afirmar que Adélia Prado com “Bagagem” foi determinante para que eu escrevesse o “Tratado das Veias”, em alguns versos ela está presente; alguns versos são dela; há Adélia ali!

Fernando Pessoa é uma influência, ao lado de Drummond, Hilda Hilst com sua prosa e seus versos, ela é formidável, magnífica! A maior referência e, oxalá, influência. O meu encontro com ela se deu ainda na faculdade, lendo sobre ela na Biblioteca, depois, comprei um livro com a sua prosa no sebo da cidade, Ilhéus, que eu frequentava e que me deu muitas alegrias. Ainda ali, George Pellegrini me presenteou com “Sobre a Tua Grande Face”, numa edição belíssima de Massao Ohno, que eu emprestei a um namorado e nunca mais vi o livro, nem o namorado.

Sônia Coutinho é outra grande marca em minha alma. Uma escritora genial que descobri, ainda explorando a biblioteca da Universidade. Li alguns contos seus ali, em alguma antologia com escritoras, talvez uma antologia erótica; depois li o seu “O Jogo de Ifá”, na UFBA, quando frequentava aulas como aluna especial com a professora Ívia Alves. “Uma Certa Felicidade”, editora Sete Letras, é um livro maravilhoso; amo a sua escrita, amo!

“O Amante” de Marguerite Duras me faz levitar de tão fantástico. Lygia Fagundes Teles e Clarice Lispector são meus pilares nos contos e “Onde Estivestes de Noite”, o conto, fica assombrando a minha alma, sempre.

Nélida Pinõn, contista, também me impressiona muito e é, certamente, uma grande referência; “A Casa da Paixão” foi um romance especial. Lima Barreto com o seu “Cemitério dos Vivos” me impressionou enormemente, nunca mais serei a mesma; um homem de lucidez e talento extremos emparedado no Brasil racista que temos. Um Brasil enlouquecedor para se nascer negro, mulher e pobre.

Na Poesia, ainda, algumas marcas são cruciais: Gregório de Mattos, Augusto dos Anjos, Neruda, Lorca, Cruz e Souza. “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, “A Hora da Estrela” e “A Paixão Segundo GH” falam diretamente comigo. Clarice, assim como Machado, são escritores universais, e o mundo começa a descobri-los, finalmente.

Helena Parente Cunha, Glaucia Lemos e Sônia Coutinho me deram a noção de que era possível ser uma escritora baiana ou alguma sensação de pertencimento, de possibilidade, de proximidade, além da ousadia dos seus escritos.

“O Cortiço” foi um assombro para a jovem leitora. Mas gostaria de encerrar com “O Pequeno Príncipe” por ser tão intenso em suavidade e beleza e por permanecer impresso na Alma. É também com “A Cor Púrpura” de Alice Walker que li no primeiro ano da Faculdade. Nossa vizinha e colega universitária, Telma Modesto, nos emprestou, a mim e a minhas irmãs e acredito que todos os amigos e colegas de Telma leram aquele livro.

Muitos livros chegaram de forma mágica, misteriosa. Muita coisa li e ouvi numa coleção bárbara da minha tia Solange. Aquelas capas de discos ilustradas por Elifas Andreato! Desde lá, clássicos da música que influenciaram. Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, o Poeta! Enfim!

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Falarei de dois romances que li recentemente e que me marcaram. Julián Fuks me conquistou com o seu “A Resistência”. Abalada com a condução da narrativa e a sua autoficçao tão corajosa, tão cheia de revelações, descobertas, aprendizagens. Agora, durante a quarentena, li “As Margens do Paraíso”, de Lima Trindade e estou fascinada ainda hoje, sempre que lembro do livro, chego a ter ciúme, quando me deparo com as suas postagens revelando outras leitoras e leitores apaixonados. É um livro incrível, surpreeendente, sedutor e muito rico em imagens. Seria um roteiro fantástico para o cinema e espero que aconteça. Seriam dois belíssimos filmes.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Finalmente, estou lendo “D. Quixote de la Mancha” e estou me divertindo muito, amando a leitura. Estou lendo Judith Butler e achando incríveis suas reflexões, complexas, desafiadoras, assim, me aproximo novamente da Filosofia.

Estou lendo poemas de Maya Angelou e acabei de ler o seu “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, um impacto de leitura em minha Alma. Leitura dolorida porque a alteridade se confunde, afinal, também fui uma menina negra, num Brasil extremamente racista.

Aos poucos, estou namorando os poemas de T.S Eliot e já vi que terei encantamento.

Li de Ailton Krenak “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” e estou lendo, agora, “A Queda do Céu” de Davi Kopenawa e Bruce Albert, com um prefácio contundente e generoso de Eduardo Viveiros de Castro. Duas leituras que considero essenciais para enfrentar com lucidez e espiritualidade essa pandemia horrorosa. Estou me transformando com esses autores que são representantes dos povos originários. Sinto vontade de abandonar a velha forma em que vivi até aqui. Abandonar essas camadas desimpotantes e buscar outro lugar, outra forma de vida. Uma sede que sempre esteve comigo, afinal, “A Vida não é útil” e “O Amanhã não está à venda!”

P.s.: Quero retomar algumas leituras que foram interrompidas lá atrás, devido ao trabalho, como “Torto Arado” de Itamar Vieira Junior, “A Divina Comédia” e a biografia de Jorge Amado, escrita por Josélia Fonseca, que me deixou profundamente impressionada e me religou ao meu ilustre conterrâneo. E “Um defeito de cor”, que também interrompi a leitura.

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6- O que você já publicou até aqui?

  • Tramela, contos, 2004. (Prêmio Braskem de Literatura para autores inéditos)
  • Tratado das Veias, 2006, poemas. Selo Letras da Bahia.
  • Alforrias, 2012, Editus.
  • Cortesanias, 2019, Caramurê.

Algumas antologias:

  • Tudo no mínimo: antologia do miniconto na Bahia. Organização: Roberval Pereyr e Aleilton Fonseca. Mondrongo.
  • Diálogos: Panorama da nova poesia grapiúna. Organização: Gustavo Felicíssimo. Mondrongo.
  • Outro livro na Estante: contos inspirados em músicas de Raul Seixas. Organizadores: Herculano Neto e Gustavo Felicíssimo.
  • Mulheres Poetas & Baianas. Organização: Fernando Oberlaender.
  • Memoria de leituras de Poetas Invitados Y Participantes: Festival Internacional de Poesia de Cali. 2016.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Adoraria que começassem com “Cortesanias” porque é o mais próximo de mim, dessa Rita atual. Considero o mais profundo e o mais belo; ele é permeado pela contemplação, por referências das artes plásticas que me são caras, mas também diálogos com autores, sensações, busca pela palavra. O livro já traz alguma coisa dessas sensações que estamos experimentando com a pandemia. Eu sinto exatamente assim, um livro de contemplação do belo, mas também de mergulho no eu, em nossas reflexões, no que nos cerca, além do exercício de olhar para o outro, as alteridades. O título traz essa busca por gentileza, cortesia, educação, amor à cultura, valorização do belo, da palavra, da arte… Um comportamento que é ou seria uma forma de resistir ao grotesco instituído na atual presidência da república. Precisamos combater a violência, a agressão, os genocídios e o livro já traz preocupações assim. Um livro de pesquisa, intuições, apaixonamentos e vontade de dialogar com algumas vozes, alguns pincéis. Revelação de algumas identidades que me formam.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Hoje, sinto necessidade de voltar a ler romances com mais voracidade. Adoro ler contos e preciso sempre deles. Adoro ler crônicas também. A Poesia é o ar, o alimento. Preciso ler Poesia todos os dias. A escritora caminha sendo mais Poeta, mas não desisto dos contos e eles não desistem de mim, espero.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Entreguei a minha vida e o meu tempo ao funcionalismo público, sou hoje uma professora aposentada, acabei de ganhar essa nova identidade, essa nova condição. Trabalho desde os 19 anos, o que considero um exagero dentro desse mundo capitalista ordinário, onde damos pouca importância à felicidade e à vida e supervalorizamos a produção, a escravidão, o estar aprisionado ao trabalho. Saímos agora de uma reforma da previdência perversa. Sonho com países que destruam essa mentalidade. Aliás, na Nova Zelândia, Jacinda Ardern está pensando em reduzir os dias de trabalho. Trabalhar menos para ser mais feliz, para viver mais. Precisaríamos caminhar nessa direção, mas o retrocesso em que vivemos congela a crença de que consigamos sair dessa circunstância torpe. Aqui, ainda convivemos com negacionistas e precisamos repetir todos os dias que a Terra não é plana. Logo, trabalhei 29 anos para aposentar aos 50. Daí, a ampulheta já derramou muita areia e agora tenho mais tempo para ler os livros que me esperam e escrever mais. Espero sobreviver à pandemia!

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Eu já nasci engajada! Uma mulher negra já nasce sabendo que é preterida numa sociedade racista, machista, escrota, como é a sociedade brasileira. Uma sociedade capaz de votar em Bolsonaro é uma sociedade profundamente perversa e excludente, perigosa, não confiável. Uma gente que não lê e não aprofunda as questões, acredita na mídia, não aprendeu a examinar e questionar o jornalismo. Uma Educação também excludente e que contribui para esse tipo de pensamento.

Em 2019, trabalhei com meus alunos o conto de Clarice Lispector que fala sobre as 13 balas que a polícia usou para matar Mineirinho. Um golpe estético e ideológico é aquele conto. A disciplina era Ética, tínhamos apenas uma aula por semana, mas a literatura era motivo de reflexões filosóficas, ideológicas, humanistas.

Em todas as áreas em que atuo há engajamento. Preciso ler sobre o feminismo, sobre o feminismo negro para ter discernimento e posicionamento político na sociedade em que vivo. Estou em constante busca e exposta a desafios. Tudo é muito veloz e eu envelheço. Agora, acabei de ler Krenak e já estou lendo Davi Kopenawa para entender sobre essa perspectiva antropológica dos povos originários, o que fizemos e como deveríamos pensar o mundo a partir de agora.

Meus textos precisam refletir um posicionamento ideológico e precisam da liberdade para o exercício do Belo, para devaneios com o nada, para inutilidades sugeridas por Manoel de Barros. O movimento é dialético. São alguns dos meus faróis agora. Ando querendo ouvir Sidarta Ribeiro falar sobre os sonhos, Krenak dizer que somos árvores. Viveiros de Castro denunciar o descaso que os nossos povos originários sofreram, inclusive em governos do PT.

O horror atual! A tragédia em todas as áreas com um governo genocida, medonho que temos hoje.

Há momentos em que produzo apenas poemas de amor e de desejo e poemas de nada, apenas para brincar com palavras e ser feliz com o resultado sonoro do texto. É importante pra mim ter a arte como meta sempre. O engajamento está atrelado ao apuro estético para mim, que pode soar anacrônico, ultrapassado, e pode ser rejeitado por leitores, mas são as minhas necessidades estéticas que são privilegiadas quando escrevo. Os últimos poemas que escrevi para algumas antologias trazem críticas ao desmatamento, à morte das abelhas, ao ser humano. “Cortesanias” e os outros livros tocam em questões ambientais, políticas.

11- Em que momento da vida você sentiu...“eu sou escritora”.

Quando escrevi o conto “Tramela”, pedi que minha professora Tica Simões e o meu grande amigo e Poeta George Pellegrini o lessem, então, o enviei para o suplemento Cultural do jornal “A Tarde”, e ele foi publicado. Daí, escrevi outros contos com propósitos profissionais.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Gostaria que o mundo pós-pandemia fosse mais preocupado com a natureza, o meio ambiente e a vida. Que passássemos, de modo coletivo, a valorizar as coisas mais essenciais. Que nossos rios fossem tratados com mais respeito e devoção como os povos da floresta os tratam. Que aprendêssemos a viver melhor e valorizar o que hoje desprezamos. Que houvesse proteção, valorização e respeito aos quilombolas, aos povos originários. Uma transformação gradual e verdadeira que me fizesse melhor! Que nos víssemos em nossa mesquinhez, vaidade, competição, ciúme, arrogância, prepotência e víssemos a feiura em que vivemos. Que os carros particulares fossem vistos como as sucatas inúteis que são hoje e passássemos a ter uma prioridade em transportes coletivos, com uma energia limpa. Que o povo brasileiro passasse a amar seus artistas, seus poetas, músicos, pintores, cientistas e que eles estejam presentes nas conversas entre os jovens. Que a Educação tenha outras prioridades, mais essenciais. Que aprendamos novamente a Sonhar.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Desde novembro, dezembro, trabalhei, exaustivamente, para participar de antologias poéticas importantes, simbolicamente. Logo, estou em alguns livros especiais que aguardam o fim da pandemia e trazem uma poesia bem distinta daquela que tenho feito até aqui. Uma poesia com a qual não tenho nenhuma intimidade, no sentido de reconhecer a minha escrita. Gosto muito disso, desse estranhamento!

Agora, começo a escrever e a pensar em meus novos projetos. Começo a organizar os arquivos. Estou muito estimulada a escrever, pois agora tenho tempo, tempo da pandemia - complicado devido às crises de adaptação, devido às dores das perdas, e são muitas! O número de mortes, o pânico de contrair o vírus e sofrer, padecer, sucumbir, perder os mais próximos, os mais distantes, os desconhecidos, tudo é dor! A política genocida e indiferente à população que estamos vivenciando, o racismo que nunca dá trégua, a dor do Outro que também me afeta porque é minha! Entretanto, os projetos começam a se delinear lentamente. Tenho lido, tenho escrito todos os dias. Então, sem que haja pressa, alguns livros surgirão.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Poema da Quarentena | Rita Santana

  • Não há mais calendário,
  • Nao há mais horas,
  • Sequer o amanhã houvera.
  • E o medo, inseto tosco, apavorado,
  • Também do coração, em agonia, esgueira-se.
  • Não há mais perdas, não há mais prazos.
  • Não há urgências, nem importâncias.
  • Há apenas a Espera,
  • Essa fera sentada à porta de casa
  • A nos rosnar que a Morte , enfim,
  • Existe e está no limite da soleira.
  • Ou que, nas mãos da Poeta
  • Imersa em utopias,
  • Sem pena e sem tinteiro,
  • Sem alianças, sem anéis,
  • Nas mãos da Poeta
  • A morte, cruel, crudelíssima,
  • Escondera-se.

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Algumas pistas (textos diversos para você copiar e colar no seu navegador):

https://www.germinaliteratura.com.br/rita_santana.htm

https://www.germinaliteratura.com.br/2013/naberlinda_ritasantana_dez13.htm

http://diversosafins.com.br/diversos/pequena-sabatina-ao-artista-15/

http://diversosafins.com.br/diversos/pequena-sabatina-ao-artista-65/

https://comoeuescrevo.com/rita-santana/

http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/404-rita-santana

https://caramure.com.br/acervo-literario/


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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