café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

É preciso romper com "a mesmice da cultura pasteurizada veiculada pela TV", diz o escritor Valdemar Valente Junior

Valdemar Valente Junior é Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ. Pós-Doutor em Literatura Brasileira pela UERJ. Professor Assistente do Curso de Letras da Universidade Castelo Branco (UCB). Ensaísta e resenhista. Autor de vários livros como “Dispersa sequência: ensaios de Literatura Brasileira” (2014), “O mel do engenho, o fel da palavra: desconstrução da ideologia na poesia satírica de Gregório de Matos” (2015) e “Entre a cidade e o campo: Mário de Andrade e a Música Popular” (2016).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Valdemar Valente Junior que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu comecei a escrever por volta dos dezoito, dezenove anos, em Salvador, onde nasci. Pouco depois publiquei alguns livros, quase todos alternativos, obedecendo ao espírito dessa época, no que tange à posição que a Poesia Marginal assume ao romper com a estagnação da palavra confinada ao livro. Eram os anos da ditadura militar, e havia no ar uma consciência que tocava os poetas jovens, sem espaço no mercado editorial. Essa atitude consistia na ocupação de ruas e praças com recitais de poesia, a exemplo do que ocorreu em diversos pontos do país, como uma atitude de rebeldia e contestação política. Eu participei de vários desses eventos.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Hoje eu quase não escrevo poesia. Haroldo de Campos costumava dizer que com o tempo se pode ver quem são os verdadeiros poetas. Ter o impulso da poesia aos vinte, trinta, quarenta anos é ótimo. Depois dos sessenta, isso cabe somente aos grandes poetas, o que nunca foi o meu caso. Depois, coincidiu que a mudança para o Rio de Janeiro e o ingresso no curso de Letras da UFRJ me fizeram ter uma concepção mais sistêmica, mais orgânica do fenômeno literário. Daí a minha dedicação aos estudos literários ter me levado ao pós-doutorado e ao exercício do magistério ao longo desses anos. O passo seguinte consistiu no meu esforço em transformar em artigos acadêmicos o somatório de todas as minhas leituras, uma vez que já publiquei alguns livros e devo lançar mais um nos próximos meses.

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3- Quais os “clássicos” da literatura que você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Uma vez, eu estava na praia com um amigo, que também é professor, e um sujeito bêbado, ao ouvir a nossa conversa, me perguntou se caso eu tivesse que viajar numa nave espacial, que livros eu levaria. Eu não tive dúvida em responder que levaria Angústia, de Graciliano Ramos, mas também levaria Crime e castigo, de Dostoiévski, Os sertões, de Euclides da Cunha, Dom Casmurro, de Machado de Assis, O som e a fúria, de William Faulkner, Clara dos Anjos, de Lima Barreto, O estrangeiro, de Albert Camus, Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, O castelo, de Franz Kafka... A lista é enorme, não cabe numa nave espacial (risos).

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Eu gosto muito dos africanos, O último voo do flamingo, de Mia Couto, Nação crioula, de José Eduardo Agualusa, Os da minha rua, de Ondjaki; dos portugueses, Índice médio de felicidade, de David Machado, Em teu ventre, de José Luís Peixoto, Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, dos hispano-americanos, A contadora de filmes, de Hernán Rivera Letelier, O rei de Havana, de Pedro Juan Gutierrez, Santa Maria do circo, de David Toscana; dos brasileiros, Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, Memórias de um sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, A paixão de Amâncio Amaro, de André Laurentino. Esses me impressionam muito. Entre os brasileiros, existem outros muito bons: Ronaldo Correia de Brito, Antônio Carlos Viana, Marcelo Mirisola, Ana Paula Maia, Marcelino Freire, Sérgio Rodrigues, Ferréz. Esses autores e obras são indicados aos que queiram estabelecer relações de cumplicidade com literatura, fugindo da mesmice da cultura pasteurizada veiculada pela televisão.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Eu acabei de ler A rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa, e O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe, e estou lendo O mestre de Petersburgo, de J. M. Coetzee.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Eu publiquei vários livros de mimeógrafo, offset, xerox, na fase heroica da Poesia Marginal, mas isso já passou. De uns dez ou doze anos até o presente momento, tenho publicado artigos em várias revistas universitárias pelo país. Publiquei também alguns livros de artigos, mas em edições reduzidas. Agora, que eu vou ter, pela primeira vez, a oportunidade de publicar um livro com uma tiragem um pouco maior, vendido no site da editora, a ser lançado até o mês que vem.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Por meu próximo livro, que reúne doze artigos numa sequência que vai do Barroco à Literatura de Cordel. Um livro para professores, estudantes e pesquisadores dos cursos de Letras e História. Assim que estiver à venda, vou divulgá-lo por meio das redes sociais.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Romance e crítica literária: preferências de leitura, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João do Rio, Marques Rebelo; Antonio Candido, Roberto Schwarz, Benedito Nunes, Alfredo Bosi; preferencias de trabalho literário, sou essencialmente um autor de artigos e resenhas.

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9- Se ainda não dá para viver só de livros, como você sobrevive?

Eu cheguei da Bahia há trinta e cinco anos com uma sacola no ombro e setecentos cruzeiros no bolso. Completei minha formação em Letras e fui até o pós-doutorado. Sou casado, não tenho filhos, crio cinco calopsitas lindas e pretendo me aposentar nos próximos anos para ter tempo de ler o que gosto. Depois de dezenove anos lecionando na mesma instituição fui dispensado pela insânia neoliberal de uns patrões obtusos que não entendem nada de educação e só pensam em seus lucros. Uns arremedos de tecnocratas que mais parecem gerentes de sacolão, negociando batata, cebola e tomate. No momento leciono em cursos de pós-graduação on-line, por conta da pandemia, e vou levando em frente. Viver da venda de livros no Brasil é uma utopia.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Escrever é um ato político. Uns certos críticos brucutus nunca enxergaram o teor político contido na obra de escritores como Machado de Assis e Nelson Rodrigues. Quem escreveu o conto “Pai contra mãe” e a peça “Os sete gatinhos”, não pode de modo algum figurar na categoria dos alienados e reacionários, mesmo que o sejam. A literatura é muito maior que todos esses rótulos de farmácia.

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11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Eu sou apenas um curioso experimentando formas. No dia em que me sentir um escritor em sua forma acabada, paro de escrever, por não ter mais nada a dizer.

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12- Quando é que você acha que vai passar essa onda de mediocridade que tomou conta do país?

Não faço a menor ideia.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Este ano, o lançamento de “Papéis possíveis: manuscritos de literatura brasileira”. Para o próximo ano, vamos esperar, quero lançar um livro com as resenhas já publicadas ao longo dos últimos dez anos em revistas universitárias.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria...

“O menino acompanha o adulto sem deixar de olhar para trás e conferir a sucessão de desacertos que o faz oscilar entre a vocação para a literatura e a necessidade de arrancar da terra a sobrevivência com as próprias mãos. Assim, resta ao camponês em meio aos civilizados lutar contra o destino adverso que tenta se impor a qualquer custo, martelando o teclado da Olivetti e escurecendo cadernos com anotações. Esse “mostro de escuridão e rutilância”, reproduzido da poesia de Augusto dos Anjos, ainda constata que o curso de letras a que dá início é o lugar onde menos se lê. A distância que se estabelece em relação às pessoas e a diferença que as separa faz crer que tudo é nada a um só instante, e a escrita sugere sempre o desejo de dar conta de sua enorme dívida de silêncio. Escrever, portanto, indica o modo pelo qual o tempo se recompõe em sua sequência de injustiças e absurdos.”

Trecho da resenha intitulada “A matéria do tempo”, sobre o livro “Chove sobre minha infância”, de Miguel Sanches Neto, publicada pela Revista Macabea, disponível aqui para baixar o PDF.

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Onde encontrar Valdemar Valente?

Facebook, clique aqui.

E-mail: [email protected] [email protected]

Livros, veja-os aqui na Editora Penalux.

Quem quiser ler os seus artigos, digitar na barra do Google o nome: “Valdemar Valente Junior”.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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