café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Epifania e carpintaria na obra do poeta Salgado Maranhão

José Salgado Santos, ou simplesmente Salgado Maranhão (Caxias, 1953) é poeta e compositor maranhense que nasceu no povoado de Canabrava das Moças, e desde cedo auxiliou os pais na lavoura. Foi alfabetizado tardiamente aos 15 anos. Seu gosto pela poesia veio com os trovadores e as rodas de viola que eram feitas em sua casa, confessou o poeta, que aos 20 anos se mudaria definitivamente para o Rio de Janeiro. Antes passou pelo Piauí, Teresina, onde conheceu o poeta tropicalista Torquato Neto e de quem recebeu o nome poético de batismo Salgado Maranhão. Até o momento, recebeu três prêmios: União Brasileira de Escritores (1998), Prêmio Jabuti de Literatura (1999 e 2016) e Prêmio ABL de Poesia (2011).


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Salgado Maranhão que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Minha primeira experiência com a poesia não foi através da leitura, mas, da audição. Nasci no sertão maranhense e lá vivi até aos 15 anos, trabalhando na lavoura de subsistência com a minha família. Nesse cenário, não havia livros nem escola, e meus primeiros contatos com a arte foram através da rica cultura do povo: os Repentistas, o Bumba meu Boi, as Danças do Divino e do Tambor de Crioula. Escrever só depois que emigrei para Teresina, no final de 1968, quando me alfabetizei.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Depende do tipo de texto que se queira escrever. Para textos de análises crítica carece mais de disciplina e bagagem intelectual do que de inspiração. Porém, o mesmo não se pode dizer do poema, posto que, normalmente, ninguém consegue escrever boa poesia quando quer. A motivação do texto poético envolve outra movimento do inconsciente, outra lógica que não contempla à racionalização corriqueira, mas, responde à lógica interna da própria poesia, incluindo as imagens e a música das palavras, configuradas no ritmo; que não visam apenas transmitir verdades, mas, produzir belezas. Vide Drummond: "inventei novas palavras/ e tornei outras mais belas".

Quanto ao meu processo criativo, é bastante aleatória no que toca à poesia, porém, quando ela chega, sou bastante disciplinado, porque entendo que a composição poética se dá em dois momentos: o da epifania e o da carpintaria, que se integram no produto final, que é o poema.

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3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Costumo dizer que tenho dívidas com tantos mortos que é até difícil enumerar. Mas, depois do primeiro encantamento com os repentistas, meu encontro com a norma culta, deu-se logo com Camões e Fernando Pessoa, numa biblioteca pública em Teresina. Depois vieram Gonçalves Dias, Manuel Bandeira, Drummond, Baudelaire, Cruz e Sousa, Maiakovski, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, que conheci através do Torquato Neto, quando eu ainda morava em Teresina, e que também me apresentou os Concretos. Claro, teve também muita prosa, de Machado de Assis a Jorge Amado, de José Lins a Érico Verissimo.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Estou ligado a muitos poetas da cena literária atual. Alguns com quem interajo com frequência (estou num grupo com mais 5 poetas: Antônio Carlos Secchin, Antônio Cícero, Adriano Espínola, Geraldo Carneiro, Paulo Henriques Britto e eu, naturalmente) para leituras de nossos próprios poemas. Dessas leituras, surgiu até uma antologia, publicada pela Ibis Libris, em novembro último. Além disso, recebo livros de poetas do Brasil inteiro e tenho tido agradáveis surpresas, sobretudo, das mulheres negras.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Leio mais de um livro de uma só vez. E de gêneros variados. No momento, aproveitando a quarentena, voltei a reler o Ulisses, de Joyce, ao mesmo tempo que leio também uma antologia dos poemas de Octávio Paz, que comprei há 2 anos nos EUA e ainda não tinha tido tempo e calma para ler. Sem falar nos livros recentes de alguns poetas maranhenses atuais, que estão fazendo poesia da melhor qualidade.

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6- O que você já publicou até aqui?

Eu publico desde 1978. Já comecei publicando por uma grande editora a antologia “Ebulição da Escrivatura”, que saiu pela Editora Civilização Brasileira. Neste livro, composto de 13 poetas, tinha poemas meus e fui também um dos organizadores. De lá para cá, lancei 14 livros individuais e ganhei vários prêmios literários. entre os quais, o Jabuti (duas vezes) e o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Porém, apesar disso, não posso dizer que seja fácil publicar, porque, ainda que não seja mais o meu caso, a maioria dos poetas tem que arcar com os custos da edição dos seus livros. Atualmente, publica-se muito, mas na base do autocusteio.

  • Ebulição da Escrivatura (antologia poética, 1978);
  • Encontros com a Civilização Brasileira (poemas e ensaios)
  • Aboio ou a Saga do Nordestino em Busca da Terra Prometida (cordel, 1984);
  • Os Punhos da Serpente (1989)
  • Palávora (1985)
  • O Beijo da Fera (1996)
  • Mural de Ventos (1998, Prêmio Jabuti 1999)
  • Sol sanguineo(2002)
  • Solo de gaveta(2005)
  • A pelagem da tigra (2009)
  • A Cor da Palavra (2010)
  • Ópera de Nãos (2015, Prêmio Jabuti 2016)

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Quem desejar conhecer minha obra, eu sugiro que começa pelo meu livro “A cor da palavra”, uma reunião de vários livros, que eu publiquei até 2009. De lá para cá, editei mais 5 títulos que podem ser pedidos pelo site da Editora 7Letras [veja o link no final dessa entrevista].

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Leio de tudo. Mas, poesia é minha preferência [de trabalho]. Claro, ficção (romance, conto) me ajuda a respirar da densidade do texto poético. Nenhuma forma de texto mergulha tão fundo na linguagem quanto a poesia. Depois que aprofundamos a leitura dos grandes poetas, muitas vezes, torna-se enjoativa a leitura de certo tipo de prosa, pela falta de síntese, que é própria da poesia. Também leio com muito gosto filosofia e história.

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Ninguém que eu conheça consegue sobreviver de poesia. No meu caso, não é diferente. Embora tenha estudado Comunicação Social e Letras, não concluí nenhum desses cursos porque ambos interferiam essencialmente no que mais eu gostava de fazer: poesia. Assim, passei a exercer atividades que não batiam de frente com meu sonho. E, durante muitos anos, fui terapeuta corporal num resort francês. Porém, agora, faço conferências no Brasil e no exterior. Nos últimos 10 anos eu fui convidado a palestrar em, pelo menos, 90 universidades americanas, lançando quatro livros meus que foram traduzidos para o inglês por Alexis Levitin.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Para mim, todas as instâncias da vida se juntam na minha expressão poética. A poesia é uma voz multidisciplinar que pode inferir sobre qualquer tema ou assunto sem fugir de si mesma. Desde que, quem a pratique, seja, de fato, artista. Porém, se não o for, corre o risco de transformar militância ideológica em literatura ruim. Mas, se o leitor for sensível, saberá reconhecer.

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Eu sempre soube o que eu queria fazer desde o dia em que, numa biblioteca pública em Teresina, na década de 1970, eu abri uma antologia de Fernando Pessoa e li o “Poema em Linha Reta”. Dali para frente eu nunca mais fui o mesmo, nunca mais servi para nenhuma outra forma de vida que não fosse o penhasco da poesia. Por que penhasco? Porque ela não nos promete nada e quer tudo; porque além do talento, você tem que lutar o tempo todo com a palavra essencial. E, mesmo já tendo uma obra extensa e reconhecida, não sabemos nunca se no dia seguinte ainda seremos poetas.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Já disse tudo nas perguntas anteriores.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Este ano está sendo atípico, não dá para fazer muitos planos além de seguir escrevendo e deixar o vento ruim passar. Desejei publicar minha poesia reunida em dois volumes e tornou-se inviável em virtude dos entraves do coronavirus. Curiosamente, fora do Brasil, acaba de sair um livro meu em Portugal e outro sai ainda este mês nos Estados Unidos. No mais, estar vivo e sonhando nos tempos atuais já é uma grande proeza.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto:

Desamanhecer | Salgado Maranhão

  • Agora,
  • na cidade da tua ausência
  • outro dia
  • desamanhece. E súplice
  • um grito escorre na paisagem.
  • Todos os lugares
  • são feitos do teu antes.
  • Da janela,
  • a noite chega
  • com as mãos vazias. E
  • tudo ao fim se esvai
  • em volta
  • como um tecido de ventos.
  • Só meu coração insiste
  • em erigir teu nome...
  • para além do esquecimento

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Onde encontrar Salgado Maranhão)?

Facebook, entre aqui.

Livros de Salgado Maranhão (Editora 7 Letras), entre aqui.

Salgado Maranhão no portal de literatura afro-brasileira, clique aqui.

Dicionário Cravo Albin da MPB (Salgado Maranhão), clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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