café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

"Eu sobrevivo de ruim", ironiza o escritor Paulo Japyassú

O escritor e roteirista Paulo Japyassú é natural de Juiz de Fora, Bacharel em Direção (1979) e Mestre em Teatro (1998) pela Uni-Rio. Em 2001, publicou o romance “Sempre que você me chamar” (Editora Francisco Alves). Em 1985, ganhou o primeiro lugar no Concurso de Contos Eróticos da Editora Ondas, Revista Clube dos Homens, com “Praia de Ébano”. Publicou o conto fantástico “Uma figueira em Bangu” no , onde também publicou “Repúblicas na Memória”, uma distopia com traços de realismo mágico. “Um Abraço no Mundo” é seu último romance, correndo as editoras: em clima de comédia romântica, personagens lidam com a quarentena no Engenho Novo e no Lins, subúrbios cariocas. Seus trabalhos, bem como peças, contos e romances estão publicados também no smashwords.com e na Kindle Amazon.


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Nosso #cafépósmoderno recebe Paulo Japyassú que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu comecei a escrever para teatro nos anos setenta, quando a gente fazia muito criação coletiva: os textos estavam censurados, a gente tinha que bolar outros. E fui nessa batida de escrever peças infantis para montar até os anos noventa. Contos eram coisas que eu escrevia desde o Ginásio, quando a professora de Português, Dona Ilva Duarte, nos obrigava a escrever uma redação por dia; então, eu tinha muita coisa guardada e fui amadurecendo aquilo até chegar a “Sempre que você me chamar” (Francisco Alves, 2001), meu primeiro romance a ser publicado e lançado, com coquetel e tudo. Nessa época eu era roteirista de Vida ao Vivo Show, programa de Pedro Cardoso e Luiz Fernando Guimarães, na TV Globo, de onde parti para escrever muitos roteiros para o Canal Futura.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

É um dom que só desabrocha regado a suor.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Sófocles, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Guimarães Rosa, Ana Miranda, William Faulkner, Ray Bradbury, Isaac Asimov, e mais recentemente, Fernanda Torres. Admiração e influência, tudo junto.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Os que li recentemente e indico são a Fernanda Torres, em “Fim”; o Fernando Paiva, “Carta para Ana Camerinda”; o Valter Hugo Mãe, “A Máquina de fazer espanhóis”; o Marcio Sales Saraiva, “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz”; a Ana Miranda, “O Retrato do Rei”.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

“História do Brasil”, volumes 3 e 4, de Rocha Pombo, sobre Dom Pedro II, porque é assunto do meu novo romance, ainda embrionário; vai me dar um trabalho danado!

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Publiquei “Sempre que você me chamar”, pela Francisco Alves, em 2001. Não foi difícil: eu tinha uma agente literária que me botou na ficha da editora. Mas, ela se mudou do Brasil e o dono da Francisco Alves pediu pra sair. Depois, ficou difícil despertar o interesse das editoras e eu parti para as publicações online, que podem ser pedidas como livro físico; mas, ter uma editora fixa é insubstituível.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Recomendo começarem pelo último, “Um abraço no mundo”, que é curtinho e muito gostoso. Apaixonei! “Sempre que você me chamar” está agora nos sebos e se pode pedir à Estante Virtual, também é realista. “Repúblicas na memória” eu acho uma maravilha, mas é uma leitura mais densa, e “Uma figueira em Bangu” é uma delícia, mas é complexo.

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8- Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário. Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Prosa. Poesia nunca foi o meu forte, mas estou com “Orações insubordinadas” no meu canal do Youtube: poemas-orações que eu leio. Acho que ficou bacana [entre aqui e assista]. Contos, eu tenho uma coletânea, “Vargem Alegre, memórias generosas”, que está no Kindle; é interessante, é um trabalho mais imaturo. Eu gosto mesmo é de romance e de novela! Estou bolando uma rádio novela, “Vênus Bronzeada”, para o público masculino, como forma de encarar o mundo virótico em que vivemos hoje, mas estou pelejando demais com fazer podcast, vídeo, audiobook essas coisas... Gosto da página, poxa!

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9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu sobrevivo de ruim que devo ser! Ganhava meus cachês na Globo, no cinema, no teatro, como ator, mas o corona extinguiu esta profissão. Eu dou aulas de Inglês online para UMA aluna, dou suporte para outra fazer o seu TCC na área de Psicologia, faço pão, peço emprestado... O auxílio emergencial salvou! E continuo escrevendo sem parar.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Sartre falava que a gente botar o pé fora de casa já é fazer política. Clarice disse que escrevia para dar um grito. Junto os dois. Creio que a literatura é o que Schopenhauer disse: só a arte salva. A Arte articula a alma do ser com o ser do mundo, sociedade, cultura, inconsciente coletivo, tudo junto. A “arte pela arte” é uma miragem, porque você escreve dentro de um tempo histórico, você existe como ser político, mesmo que não queira. A obra tem valor intrínseco, não porque olha para seu próprio umbigo, mas porque é sempre, sempre um diálogo com o seu tempo. Hoje, quando eu sento para escrever, planejo tecnicamente e quando começo a narrativa, sai a alma pra fora, mas ela sai no hoje, mesmo quando é ficção científica, que é um gênero extremamente político, não no sentido programático, mas artístico, de visão de mundo modificado, visão de esperança para o hoje, para o eu que eu estou podendo ser hoje.

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11- Em que momento da vida você sentiu... Eu sou escritor!

Foi quando Dona Ilva me disse isso. E toda vez que uma peça minha que eu montava se comunicava com a plateia.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Este questionário está bem completo. Mas, vamos lá: quando a narrativa se libertará do modelão americano de storytelling? A Jornada do Herói é uma fatalidade da profissão? [E Paulo não respondeu...]

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Para este ano, se uma editora não se resolver a publicar meu “Um abraço no mundo”, que é uma estória muito da hora e pode ficar velha no ano que vem, eu vou mandar em audiobook – nem que, para isto, tenha que gerar um cérebro adjacente. E para os próximos meses, “A Tiara da Condessa”, que é também uma estória que se passa entre o Engenho Novo e o Lins, visitando a história desta região do Rio de Janeiro: um romance de aventura juvenil, uma turma de um colégio que monta uma peça com personagens históricos. Muito trabalhoso!...

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Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista:

“Pelejar contra o exato, dá erro contra a gente”. Isto é o que diz Riobaldo numa quebrada do Grande Sertão, uma vereda que encanta o cara toda vez que dá uma lida no Guimarães. A vereda em que se metem Deus e o Diabo na captura da alma do homem... Os livros todos em seus lugares na estante, o cara vai e pega um para reler. Jorge relê. Dona Nancy falava que reler nunca é ler a mesma coisa, porque o cara que lê é sempre um outro, não é o mesmo que descobriu Guimarães Rosa, se encantou com aquela linguagem que te dá pernada se tu não se ligar, se tu não ler e respirar, ler mais um pouco e respirar. Ler de enfiada dá para ler Fernanda Torres, essa menina que começou e já escreve dominando o esquema. Jorge também domina o esquema:

“Eu comprei como quarto e sala. Daí, fui ver o filme do Bruce Willis, sete vezes, para manjar o esquema dos móveis. Eu manjo o esquema, Fernanda Torres, eu vou começar como arquiteto; vou começar o começo do século vinte e um como arquiteto. Que tem ligação com a profissão em que me aposentei. Arquiteto: faculdade. Tranquilo: o Jorge Luiz não tem medo do estudo, né, Dona Nancy? Medo do Corona não tenho também. Não tenho medo de morrer, só pena de não viver mais, porque a vida é boa! (...)

O meu melhor amigo era o Mário Elias. Passamos no mesmo concurso para o Ministério da Justiça, como técnico, fomos nomeados para a mesma sessão. Era muito serviço, não dava tempo de conversar com a turma. Até que, um dia lá, na hora do almoço, por causa de um lugar na fila, o Mário Elias se encrespou comigo e não deu outra: porrada. Ficamos dois dias um ressabiado com o outro, mas, depois, fomos se chegando, fomos se chegando e colamos! Amizade forte pra caramba, com aquele sujeito cem por cento, o Mário Elias, que eu conheci primeiro a murro, depois a fundo. Então, quando a Marilene me contou que o sobrinho dela chegou do parque e contou para ela que tinha visto dois sujeitos brigando na porrada, pela descrição, ela concluiu que só podiam ser o Leandro e o Jorge. Eu não falei nada, mas, eu concluí que uma amizade forte tinha começado e que eles dois, passando o rancor inicial e a dor no queixo, iam colar, colar até que outra quarentena viesse para separar os corpos nessa união estável que é uma amizade que começa com porrada. Iam terminar se abraçando; como, de fato, aconteceu, dias depois. Daquela vez, eu concluí certo.

Deixo também esta frase que gosto muito: “a verdade precisa dos renegados” (David Icke).

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Seus livros ou textos (links para compra) na Amazon. Clique aqui.

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Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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