café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

A poética lúdica e interativa de Flávio Nascimento

O poeta Flávio Nascimento nasceu em Palmares (PE), passou por João Pessoa (PB), morou no Rio de Janeiro e em Lumiar, hoje vive na cidade serrana de Nova Friburgo (RJ). Professor de Literatura com mestrado na PUC-Rio, sua produção poética tem mais de 50 anos. Conheça-o um pouco mais.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Flávio Nascimento, que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei a escrever antes dos 20 anos de idade. Meu primeiro livro, “Treva”, foi considerado pioneiro da poesia independente no Brasil.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

É talento, que precisa ser cultivado. É vocação e dedicação.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Recomendo ler LIMA BARRETO, autor que precisa ser mais valorizado. Destaco POLICARPO QUARESMA, IZAÍAS CAMINHA e VIDA E MORTE DE J. M. GONZAGA DE SÁ, três romances.

Admiro muito o múltiplo MÁRIO DE ANDRADE, autor de MACUNAÍMA.

Sou fã de GUIMARÃES ROSA e seu GRANDE SERTÃO VEREDAS.

Como poeta, cito DRUMOND e BANDEIRA.

Sou influenciado pelo CORDEL NORDESTINO e pelo poeta russo VLADIMIR MAIAKOVSKI.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Os poetas mais recentes de minha geração como GERALDO CARNEIRO, SALGADO MARANHÃO, BRÁULIO TAVARES, MANO MELO, entre outros.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Acabei de ler um livro de RUI CASTRO sobre o Rio de Janeiro dos anos 20 ["Metrópole à beira-mar"]. Recomendo todos os livros desse autor.

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6- O que você já publicou até aqui?

Minha principal publicação é a Antologia de 30 anos de carreira, POESIA NA RUA, editora Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2003.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Pela Antologia, POESIA NA RUA.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Gosto muito de POESIA e BIOGRAFIAS.

Tenho lido livros sobre grandes músicos da Música Popular Brasileira: GONZAGÃO E GONZAGUNHA, JOÃO NOGUEIRA, DONA IVONE LARA, DORIVAL CAYMMI, RENATO RUSSO e outros.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Sobrevivi trabalhando como Professor do Município do Rio de Janeiro. Formado em Português-Literatura. Fiz mestrado na PUC, mas dava aula de Educação Artística e Artes Cênicas.

10- Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Não separo Arte de Política. Estão intrinsecamente ligadas

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

Desde muito jovem.

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12- E a música?

Gosto muito de música também. Toco pandeiro e um pouquinho de violão.

Faz 14 anos que me aposentei. Depois disso comecei a gravar minhas canções, que fiz ora sozinho, ora com parceiros maravilhosos que fui conhecendo pela vida, desde 1980.

Já gravei 7 CDs. Alguns estão no Spotfy. Procure por “Flávio Nascimento”, mas tem um Flávio Nascimento lá, cuidado, tem que identificar pela foto ou pela obra. Lá tem os CDs ORVALHO, ALDEBARÃ...etc.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Pretendo publicar minha obra completa como poeta que poderá se denominar: “EM BUSCA DA POESIA POPULAR PARTICIPATIVA”. Até o momento, somente o primeiro volume foi publicado, mas são 4 volumes. Tem uma produção de mais de 50 anos de trabalho.

Deixe algo de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

ANTI-POSSE

  • Te amo tanto que te esqueço
  • Para não me saturar da tua imagem
  • É preciso que deixe de ser importante
  • Tu me procurares,
  • Pois na medida que me sinto livre, te vejo chegar:
  • Quanto mais longe de ti, mas estás aqui.
  • Vou ao teu encontro, como se não existisses
  • E surpreendentemente, estás próxima do meu corpo.
  • Eu te aguardo para viver a minha maior surpresa.
  • Eu te aguardo, sem querer te esperar, daí a minha urgência.
  • Faço um incêndio das lembranças tuas,
  • Sem saber que eras as chamas em que me deixo arder.
  • Eu me escondo na noite de tua ausência e me despejo
  • (me despojo) nos braços de tua aurora chegante.
  • Eu te amo, porque nada quero (cobro) de ti.
  • Eu tenho tudo que és porque não te possuo
  • Porque não é minha.

TITO E TECO (Trava-língua)

  • Tico deu um teco na asa do pato
  • Teco deu um peteleco no bico do marreco e derrubou o teco-teco
  • Tico e Teco não se tocam, se entoca, se escondem, se malocam
  • Tico e Teco, tico-tico, fazem telecoteco
  • Com tamborim, agogô, pandeiro e reco-reco
  • Rique-rique, nhoque-nhoque, Nheco-nhenco.

CECÍLIA MEIRELES E A NOTA DE CEM

  • Voltou Cecília, ela veio de uma nuvem, de uma nave, de uma ilha
  • Ela não veio cercada de sonho, de fantasia, de delírio de encanto,
  • Cheirando a rosa, a dália, a lírio do campo.
  • Ela não veio envolta me seda, em linho, em véu.
  • Ela não veio sob a forma de serafim, querubim e anjo do céu.
  • Ela não veio com jeito etéreo, volátil, aéreo
  • Sob a forma de gueixa, de cinderela de musa,
  • De cigana, de pitonisa, de medusa
  • Ela veio com o peso do chumbo, do ferro, do dinheiro, da grana
  • Ela veio com o sangue, o suor, a lágrima da luta cotidiana
  • Voltou Cecília!
  • Ela foi tirada de sua ilha de poesia, para circular na batalha do dia-a-dia
  • Cecília, pra que você retornou?
  • Para rolar na mão do banqueiro, do doleiro, do especulador?
  • Pra fazer a fama do magnata, do burocrata, do doutor?
  • Não, ela não gostaria de circular de maneira, tão fácil, tão banal.
  • Em que mãos ficará perdida a sua face original?
  • É ainda tranquila e serena a tua fisionomia, a tua fronte, a tua feição
  • Mas em algum lado da nota se percebe a tristeza, a mágoa, a desolação
  • Não é a mesma agora, estampada no vil metal
  • A ternura de outrora, do seu rosto natural
  • Ela veio fantasiada, pintada de ocre, de verde e de lilás.
  • Isso não se faz!
  • Tirar Cecília do seu canto de paz, de discrição e emoção verdadeira
  • E fazer ela dançar em estranhos carnavais de ilusão financeira.
  • Isso não se faz!
  • Torar Cecília de seu sono profundo
  • e jogar de novo na correria desse mundo louco
  • Assim ela não aguenta.
  • Depois de morrer voltar a arena dessa luta sangrenta elo poder.
  • Dentro em breve ela vai ter de morrer outra vez
  • E a nação brasileira vai ver a besteira que fez.
  • Drummond não vale só cinquenta. Cecília não vale só cem.
  • Deixem os poetas quietos em seu repouso no Além!
  • Ora, se a poesia não é valorizada na vida material
  • Deixem os poetas sossegados em sua vida espiritual!
  • O Poeta não tem valor determinado pela Ciência da Economia
  • Deixem os Poetas em paz do outro lado da existência,
  • No Reino encantado da Poesia!

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Onde encontrar Flávio Nascimento?

Facebook entre aqui.

Instagram: @flavionascimento

E-mail: [email protected]

Seus livros podem ser adquiridos na AMAZON.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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