café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“A escrita e a produção de livros são paixões”, diz Geraldo Tadeu Monteiro

Geraldo Tadeu Moreira Monteiro tem uma sólida carreira acadêmica como cientista político, o que muitos não conhecem é sua paixão pela literatura. Autor de um livro de contos, dois de poesia e escrevendo uma tetralogia (“A História de Ridan”), o professor da Faculdade de Direito da Uerj irá te surpreender nessa entrevista.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o escritor e cientista político Geraldo Tadeu Monteiro que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Escrevo desde meus 13-14 anos. Com essa idade, escrevi uma peça de teatro chamada “As Dez Leis de Fathiben”, que se referia a um rei imaginário de uma cidade da Prússia que pretendia governar seu país com base em apenas dez leis básicas”. Aos 15-16 anos, escrevi um romance de aventura que envolvia dois arqueólogos russos, Dr. Vassili Fossiliev e Dr. Anton Bhuravov, com duas sinédoques bem óbvias à arqueologia, em busca do “elo perdido”. Depois desses episódios, comecei a escrever textos jornalísticos e, depois, acadêmicos, seguindo minha vocação. Levei alguns anos para retomar a escrita de ficção. Em 2007, lancei um livro de contos chamado “Fatalidade e Outros contos mórbidos”. Em 2013, um livro de poesia (Polidodecacoonia Urbana), em 2018, o livro “Eviscerar-se” de poemas e, em 2019, a primeira parte do meu romance “A História de Ridan”.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

A meu ver, é fruto das duas variáveis. Existe, sim, um dom para a escrita, o que separa os escritores dos leitores. É que chamo de “olhar da representação”, que envolve uma capacidade de se fazer representar objetos de um ponto de vista estético. É o mecanismo de “re-apresentar” esta realidade, ou seja, representar no sentido de refletir e reapresentar no sentido de refazer, rever. É como se diz em alemão “Vortsellung” colocar (“stellung”) adiante (“vor”). Isso é um dom. Mas, ele sozinho não é suficiente. Há que se ler muito. Ninguém é escritor sem ser, antes de tudo, leitor. Muito se apreende com a leitura dos grandes mestres da literatura. Eles não são mestres por acaso... Todo escritor há de encontrar seu estilo próprio, baseando-se no estilo dos outros escritores.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira?

Tenho muitos autores admiráveis: na literatura mundial, citaria William Shakespeare, mestre absoluto da criação de personagens, das tramas e suas reviravoltas e da crítica mordaz da nossa condição humana. Dediquei um poema à minha admiração por este autor. Chama-se “Mankind on Stage” e foi escrito em um inglês “elevated” numa tentativa de simular o estilo daquele grande poeta. Levei nada menos que sete meses burilando este poema. Citaria ainda Dante Alighieri e sua monumental Divina Comédia. Balzac é outro gigante. Dostoiévsky dos Irmãos Karamazov. Tenho fascinação por Kafka de A Metamorfose e de O Processo. Sou fã do Borges de El Aleph. Aprecio muito a delicadeza das imagens de Marcel Proust. Na poesia, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Walt Whitman, William Blake, Fernando Pessoa, Florbela Espanca. Entre os nacionais, o insuperável Machado de Assis, Guimarães Rosa e, pela obra Os Sertões, Euclides da Cunha. Na poesia nacional, Augusto dos Anjos, Drummond, Manuel Bandeira, Cora Coralina e Paulo Leminski.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito?

Na cena literária atual, vou ficar devendo. Talvez o fator idade ou geracional aí pese um tanto. Meu apego aos clássicos acabou me causando essa lacuna. Sei que há bons escritores e que a poesia está cada vez mais alcançando o grande público, como mostra o sucesso de coletâneas de poesia, como “Textos cruéis demais...”. Em recente lista dos mais vendidos, publicada pelo jornal O Globo, havia 4 livros de poesia entre os dez mais vendidos, todos de autores brasileiros. No entanto, não sou capaz de citar nomes de autores contemporâneos. Esta é uma falha que preciso resolver.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo “Madame Bovary” de Gustave Flaubert e “A República de Platão”. E estou lendo mesmo. Você sabe que tem uma piada entre os intelectuais que diz que o intelectual não lê, ele “relê”. Por diferentes contingências da vida, eu nunca havia lido “Madame Bovary” de Flaubert, que é um dos grandes mestres do romance. Só havia lido a “Tentação de Santo Antonio”, outra peça mestra deste autor. Mas, “Madame Bovary” é muito superior em técnica, em escrita, no desenvolvimento da trama. Quem tem a chance de ler no original, então, tem um acréscimo de prazer ao perceber a utilização inteligente e segura da língua francesa. No caso de Platão, como todo estudante de filosofia, havia lido trechos da República. Desta vez, estou empreendendo uma leitura mais profunda com vistas a subsidiar a trama dos volumes 3 e 4 do meu romance distópico, a “História de Ridan”. Nesta parte final do romance, os cidadãos de Ridan, uma vez libertos da opressão dos bandos armados, ensaiam a criação de uma cidade livre. Eles têm a oportunidade de discutir as novas leis e acham possível construir uma “cidade perfeita”, que não será exatamente nos moldes da República de Platão, já que o autor sofreu a influência decisiva de Aristóteles, além de outros nomes como Rousseau e Marx.

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6- O que você já publicou até aqui?

Na literatura, publiquei: Fatalidade e outros contos mórbidos, de 2007; Polidodecacofonia Urbana, poesia, de 2013; Eviscerar-se, poesia, 2018 e, em 2019, publiquei os dois primeiros volumes de A História de Ridan. A verdadeira história dos feitos muito heroicos da grande e famigerada comuna popular de Ridan, um romance distópico em 4 volumes. Este livro está previsto para um total de mil páginas. Com ele, estou concorrendo ao Prêmio Jabutí 2020 na categoria Romance de Entretenimento. O livro, no entanto, não é de literatura fantástica, mas uma ficção histórica sobre um futuro pós-cataclísmico.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Recomendaria o livro de contos (“Fatalidade e outros contos mórbidos”) justamente por ser um livro de pequenas histórias. O leitor se aborreceria com menos frequência... Para quem prefere a poesia, recomendaria o primeiro livro, Polidodecacofonia Urbana, por ser um livro de mais amplo espectro que o segundo, muito voltado para as vicissitudes do coração.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Como dizia Drummond, somos poetas 24 horas por dia. A poesia me encanta sobre todas as outras formas de escrita. Na minha escrita atual, tenho atirado para todos os lados. Produzo poesia quase que diariamente, como uma espécie de autoterapia. Certa vez, tomado por problemas insolúveis, exclamei a um interlocutor: que faço agora? E ele, com desdém, disse: ora, faça um poema. E realmente fiz, como vingança de toda a raça dos bardos! Estou escrevendo um conto sobre um homem recém chegado à velhice, ranzinza e dominado por sua rotina e tiques nervosos e que vive solitário num quitinete em Copacabana, conversando com um peixe. Até que um dia, ele se apaixona por uma vizinha, mas em plena pandemia. E logo estarei retomando a escrita do volume 3 de "A História de Ridan", com suas 250 páginas.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Atualmente não dá pra viver nem do magistério. A crise é generalizada. Como todo escritor, tenho meu emprego na Uerj, onde entrei, por concurso público, há 28 anos. Como Professor Associado de Sociologia Jurídica, tenho uma posição confortável na academia, que me permite separar algum tempo para a literatura. Outro lado importante do meu dia-dia é a função de Editor Científico da Gramma Editora, uma empresa que está há 18 anos no mercado de produção de livros, especialmente os acadêmicos. Este trabalho concilia minhas duas paixões: a escrita e a produção de livros.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Neste quesito, defendo o pluralismo de opiniões e de ações. É claro para mim que toda arte possui um sentido político na medida em que pode representar a sociedade de modo a reforçar ou criticar os arranjos de poder. Não há neutralidade política na arte. É só lembrar de “A Mandrágora”, peça de Maquiavel que critica acerbamente as práticas venais da Igreja ou ainda “1984”, de George Orwell. Ou “Romeu e Julieta” de Shakespeare, em que um casal de amantes desafia, sem sucesso, as relações sociais existentes em nome do amor. Nem mesmo nas artes plásticas, existe neutralidade. Os impressionistas desafiaram os padrões estéticos e artísticos da Academia do seu tempo e nisso desempenharam um papel político. Acho que cabe a cada artista, como cidadão, se posicionar pessoal e abertamente sobre temas políticos do dia. Consciente ou inconscientemente, todo artista é um agente político. Quanto a mim, procuro assumir posições no cenário político com relação a todos esses temas, sempre lembrando que eu sou diferente da minha obra. Assim é todo artista. A obra é uma coisa, o artista é outra. Todo artista será julgado fundamentalmente por sua obra. Quem se lembra que Rabelais era médico, que Alceu Valença é advogado ou que Maquiavel era diplomata?

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11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Se pensarmos apenas na literatura de ficção e na poesia, isso é bem recente. Sempre escrevi artigos e livros acadêmicos. Tenho uma produção importante nesta área. Porém, no âmbito da literatura, à parte algumas incursões esporádicas (Fatalidade e outros contos mórbidos), foi nos últimos dois ou três anos que comecei a encarar com mais seriedade a escrita. Isso se mostra particularmente na conclusão dos dois primeiros volumes de “A História de Ridan”. Este livro começou a ser escrito em 2008 e durante vários anos arrastou-se como um réptil viscoso pela minha vida. Outras ocupações me tomavam o tempo e a energia. Entre 2010 e 2017, fui diretor do Iuperj, o que me consumiu uma boa dose de energia. Após minha saída do Iuperj, passei a me dedicar de maneira mais consistente ao livro. Mesmo assim, foram dois anos para a conclusão desta primeira parte do livro. Como é um livro particularmente difícil de escrever (ele é escrito parte em uma língua que chamei “ridanesa”), foram necessárias várias revisões para chegarmos a uma versão final. Isso exigiu de mim muito trabalho de escrita, muito labor. Foi aí que passei a acreditar que poderia ser escritos.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Sim, sobre meu último livro, “A História de Ridan”. Este livro é uma incursão na literatura distópica. Trata-se da história, escrita por um historiador de nome Daniel Asthatides, sobre a cidade de Ridan. Esta cidade protagonizou aquela que é chamada “a maior saga” de todos os tempos. Após ser atingida por um cataclisma (Lo Catacleísma) de dimensões planetárias que destruiu suas construções, uma guerra civil (La Matanza) de vários anos se encarregou de destruir suas instituições. Dois terços da população da cidade pereceram nos dois eventos. A cidade mergulhou no caos e na barbárie, retalhada por vários bandos armados. A cidade ficou isolada do restante do país e, na total ausência de cultura, desenvolveu uma língua própria (O Ridanês) ao mesmo tempo em que perdeu a escrita. Os maiores senhores da guerra conseguiram criar seus “impérios” à base de uma sistema de suzerania, fundado na proteção e no pagamento de impostos. O povo vivia oprimido entre os diferentes imperadores, vitimado pela violência, pela miséria e pela injustiça. O maior deles, Cassius Rorundu, controlava 20 mil homens armados. A opressão era tal que muitas pessoas foram obrigadas a fugir para os esgotos da cidade, onde foram criando uma nova sociedade subterrânea (Los Esgutes), com seus próprios costumes. Este sistema, aparentemente indestrutível, viria, no entanto, a ser desafiado por um punhado de heróis improváveis, saídos dos esgotos da cidade, mas animados por grande ardor revolucionário. Um personagem secundário, Mateo Doran, acaba se transformando no líder de uma grandiosa revolução, destinada a terminar com toda opressão em Ridan e comprometida com a criação de uma nova cidade liberta. Os dois primeiros volumes nos conduzem até o momento da vitória da Revolução. Entretanto, já nas primeiras frases do livro, sabemos, pelo depoimento do historiador que escreve o livro, que a revolução foi derrotada. O sonho de liberdade se desfez. O poeta Peter Carontius, já nonagenário, é um dos últimos sobreviventes da “Grand Serpiente”, como era chamado o exército revolucionário. Será graças à prodigiosa memória de Carontius que Daniel Asthatides, filho de um companheiro de armas do poeta, poderá contar a verdadeira história da Revolução de Mateo Doran. Nestes dois primeiros volumes, conta-se a história do nascimento do movimento revolucionário dentro dos esgotos da cidade, suas articulações, a realização da grande assembleia dos povos esgutes, a criação dos Dez Mandamentos da revolução, a formação do Cidadanos Libres em Armas, a tropa de guerrilheiros esgutes, os combates contra os senhores da guerra de Ridan e a tomada do poder. Tudo isso ocorre em meio a tramas de vários personagens importantes, como a generala Brunella Marajudi, o saltimbanco Bernard Carall, o poeta Peter Carontius, a menina santa Dharana, o imperador Cassius Rorundu e seu progenerale Diglos Tarameo. Não sei se a isso chamamos propriamente de Romance de Entretenimento, mas se assemelha um pouco a isso.

13- Qual é seu próximo projeto literário?

Além da escrita do volume 3 de “A História de Ridan”, tenho planos de consolidar minha recente produção poética em dois volumes diferentes: um volume de poemas íntimos (chamado, surpreendentemente, de “Intimidades”) e outro volume com poemas “pseudo filosóficos”. Em perspectiva, um terceiro volume de poemas chamados “pandêmicos”, que procuram relatar essa experiência única e trágica do nosso tempo.

Deixe uma frase ou fragmento de texto para quem leu esta entrevista:

Vou deixar um poema e um trecho de "A História de Ridan", que são representativos do estágio atual do meu trabalho de poeta e escritor.

A Corda

No carro

De boi

Éramos dez governados

Éramos dez acordados

Dormidos

Todos de acordo

Com a corda

Com que acordo

Em desacordo

Com a vida que me recorda:

A corda!

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A História de Ridan

Volume I, Capítulo 1, p.24-25 (com o poema vertido para a língua ridanesa)

Sobre Peter diziam os mais velhos tratar-se do maior de todos os bardos ridaneses, senhor de um invejável dom que o habilitava a falar correntemente em poesia, como se prosa fosse. Na verdade, seu primeiro nome seria Gerard, o qual teria sido mudado pelo próprio para fazer jus à sua tão decantada habilidade poética que levaria os ouvintes ao céu, em cuja porta reinaria, segundo as lendas dos cristanos, um certo San Peter ou San Petrus. Seu nome de família, por outro lado, seria Montemoros, que o aparentaria ao grande filólogo, autor do Dicionário de lo Ridanès. Neste caso, não apenas seria parente do célebre autor, mas teria o mesmo nome dele, o que provocaria grande confusão entre o povo e os estudiosos. Mas, como esclareceria o próprio Peter, ainda que tivessem o mesmo nome e o mesmo sobrenome, nem se conheciam nem foram parentes. Disso eu, porém, duvido.

Ao adotar o nome Carontius, quis o poeta homenagear uma velha divindade de civilizações muito antigas, que tinha por função levar as almas à sua última morada. Um dos seus mais famosos poemas trata desta lendária figura:

Meu nome é Caronte

Filho de Érebo e da Noite

Nas águas sujas do Aqueronte

Reino soberano pelo açoite

Sob a língua trarás meu óbolo

Pobre alma danada, sem rosto,

E ‘inda assim terás destino sórdido

Nas mãos deste velho tosco

Tu, espírito indigente,

Que ao reino abissal conduzo

Por minha pena inclemente,

Saiba que teu maior perjúrio

Terá sido a recusa insolente

De viver teu lado obscuro!

* * *

Mio nome è Carontius

Filio de Érebo e de la nolte

En las águas sujias del’Aquerontis

Reeno suberano per lo azoite

Sub la língua trarás mio óbolo

Pober alma danada, sin rosto,

E, aunda así, terás destino sórdedo

En las manos deese velio tuosco

Tu, espírito indegente

Que alo reeno abizal conduzo

Per mia pena inclemente

Sáeba que tio mai grand perjúreo

Terá sido sia recusa insolente

De viver tio lado obscuro

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Onde encontrar Geraldo Tadeu Monteiro?

Facebook há dois: A História de Ridan e Pedro Caronte

Instagram: Ridan Oficial

Para adquirir os livros, clique aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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