café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

Humberto Conzo, arauto da literatura brasileira

Biólogo e historiador formado pela USP, Humberto Conzo, desde 2015, apresenta o canal literário “Primeira Prateleira” no YouTube e desde 2017 mantém o “Clube de Literatura Brasileira Contemporânea”.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Humberto Conzo que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei a escrever poesias aos treze anos de idade. Pouco tempo depois fiz uma para o meu pai que lhe entreguei no dia dos pais e ele então pediu que eu sempre fizesse cópia dos meus poemas para ele. Quando eu tinha dezesseis, de surpresa, ele fez o lançamento do meu livro durante a feira de ciências do colégio. Foi um momento muito marcante para mim, que era muito tímido e reservado.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

É preciso sentir a necessidade de escrever, de passar para o papel aquilo que te intriga ou que levanta questionamentos, mas a partir daí é preciso praticar muito, ler muito e reescrever muito. É um trabalho árduo e pouco reconhecido, onde só ficam os loucos e os teimosos.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Os primeiros a chamarem minha atenção foram os poetas Alvares de Azevedo, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes.

Depois veio Clarice Lispector, Fernando Sabino, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa.

Entre os estrangeiros Saramago, Camus, Hemingway e Faulkner são meus preferidos. Acho que posso considerar que as questões que o Saramago e o Camus abordavam frequentemente influenciam minha escrita, mas não posso deixar de citar o Marcelino Freire e a Andrea del Fuego como meus grandes influenciadores.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Os contemporâneos, principalmente os nacionais, são mais da metade das minhas leituras nos últimos anos. Além do Marcelino e da Andrea, tenho que indicar a Paula Fábrio, a Carol Rodrigues, o Itamar Vieira Junior e Ana Maria Gonçalves.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Sempre leio mais de um ao mesmo tempo, cumprindo os vários projetos que tenho com meu canal literário e o meu Clube de Literatura Brasileira Contemporânea.

Acabei de ler “Crime e Castigo” do Dostoievski, “Blecaute”, do Marcelo Rubens Paiva e “Crocodilo” do Javier Contreras. E agora estou lendo “Crônica de Uma Casa Assassinada” do Lúcio Cardoso, “Ninguém Vai Lembrar de Mim” da Gabriela Soutello e “Uma Solidão Ruidosa” do Bohumil Hrabal.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

Além do meu livro de poesia na adolescência, tenho quatro livros infantis publicados: “Bichos Sinistros” e “Sugadores de Sangue” pela WMF Martins Fontes e “Descobrindo os Bichos do Jardim” e “Descobrindo os Bichos da Praia” pela Matrix. Recentemente é que comecei a me dedicar à literatura para o público adulto.

Nos últimos três anos, venho trabalhando no meu primeiro romance e acabo de ter um conto selecionado para a antologia “Retratos da Quarentena’, das editoras Elefante e Dublinense.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Acho que essa coletânea da Dublinense, que sai ainda em 2020 é um bom começo para ver o que escrevo. Logo logo meu romance também deve estar por aí. Eu nunca produzi muito e só agora é que venho me aventurando a publicar alguns textos.

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Comecei pela poesia, hoje sou mais da prosa, tanto para leitura como na escrita. Trabalho com o romance e com contos de forma simultânea.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Eu sou formado em biologia e história e vivo exercendo o trabalho de biólogo. Trabalho como autônomo realizando serviços de controle de pragas, desinsetização.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Tudo é política. Os livros que escolho ler, os temas que me impulsionam a escrever, as amizades que cativo, as relações no meio literário, todas minhas escolhas na vida e na arte dizem também sobre política, sobre a forma como encaro o mundo e sobre o que acho importante refletirmos como sujeitos e como sociedade. Não é preciso ser panfletário para fazer política, mas não fujo do posicionamento. Eu sempre me preocupei com a desigualdade social, com os exageros do consumo material, com a exploração dos mais pobres e com a forma como nosso tempo de vida é consumido e, portanto, sempre ando com a esquerda.

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11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritor”.

É uma escada que vou subindo degrau a degrau. A primeira sensação foi ao publicar o livro de poesias aos dezesseis anos. Depois, quando publiquei meu primeiro livro infantil por uma editora de renome. Mas às vezes ainda não me sinto escritor. Acho que só após publicar meu primeiro romance é que me sentirei seguro a usar este título.

12- Qual é seu papel na nossa literatura?

Mais do que a escrita, a minha missão nos últimos anos vem sendo a de divulgar a literatura brasileira contemporânea. Seja através do canal literário no YouTube, onde publico dois vídeos por semana, ou através do Clube de Literatura Brasileira Contemporânea, um grupo de leitura conjunta, virtual, com grupo no facebook com mais de 6.500 integrantes, onde todos os meses deste outubro de 2017, indico um livro nacional para lermos e discutirmos, priorizando pequenas editoras e autores iniciantes. Este Clube agora virou também um clube de assinatura. No segundo mês de envio, já foram quarenta assinantes, o que para obras nacionais representa muitas vezes algo entre dez a vinte cinco por cento de uma edição.

Acho a literatura brasileira atual subvalorizada e venho lutando constantemente para apresentá-la a um público mais amplo.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Publicar meu romance, provavelmente em 2021. Para este ano, quero ver meu conto na coletânea da dublinense/elefante. E já estou trabalhando em um novo romance e em um livro de contos.

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

Deixo pra você um pequeno capítulo do romance em desenvolvimento “As Sete Mortes do Meu Pai”

Dente

Puxado, torcido, mexido de um lado a outro, não há outra palavra para dizer, é arrancado mesmo. Ele não quer sair. Um pedaço quebra, ameaça se estilhaçar, mas acaba cedendo, sinto a carne rasgar. É resistindo que o dente morto sai da minha boca.

A dor de dente começou logo no início da escrita deste livro. Tentei me dopar, mas nada adiantava, a dor queria minha atenção.

Sonhar com dente é sinal de morte? E quando o dente é arrancado mesmo, com os olhos abertos?

Foi este mesmo molar dos seis anos, que levou o meu pai a conseguir com um tio a indicação de um dentista. Para salvar um dos meus primeiros dentes permanentes e me livrar da dor, meus pais me levaram até o homem que logo se tornaria meu padrasto.

Ele extinguiu minha dor naquele momento e me livrou de outros males durante toda minha formação. Alguém que logo aprendi a chamar de pai e que hoje, mesmo aos 80 anos, com as mãos tremendo e dores na coluna, se dispõe a me ajudar mais uma vez.

A dor ficou em meu pai, que nunca aceitou que os nervos de seu casamento já estavam podres, já estavam mortos, e sempre achou que não era preciso extirpá-lo, que ainda havia salvação.

Para o meu dente houve, e ele permaneceu em minha boca por mais trinta e oito anos. Bati, rangi, mordi, mastiguei. Duas raízes, polpa, dentina, e um buraco no meio preenchido por amalgama e depois por resinas. Muitos remendos. Só agora, com a morte do meu pai, que resolveu mostrar que existia. Não aguentou minha nova fase de ranger de dentes todas as noites, fruto das preocupações com o inventário e com a dor da perda.

Ele estava bem, a agonia veio de repente e não havia mais o que fazer. Partiu rápido, foi arrancado de mim. A gente sangra, os pontos são dados, vai se costurando a carne, que aos poucos se refaz. Mas o buraco está lá, ficará para sempre. conzo final 2.png

Onde encontrar Humberto Conzo?

Facebook, entre aqui.

Clube de assinatura, entre aqui.

Instagram, entre aqui.

E-mail: [email protected]

Primeira Leitura no YouTube, entre aqui.

Seus livros ou textos:

Bichos Sinistros, entre aqui.

Descobrindo os Bichos do Jardim, entre aqui.

Sugadores de Sangue, entre aqui.

Descobrindo os Bichos da Praia, entre aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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