café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Talvez escrever seja uma dádiva” diz Itamar Vieira Junior

Itamar Rangel Vieira Junior é formado em Geografia, fez mestrado e hoje é doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Como escritor de contos e romancista, Itamar ganhou o Concurso XI Projeto de Arte e Cultura com seu livro “Dias”, foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Contos; vencedor do Prêmio Humberto de Campos da União Brasileira de Escritores (Seção Rio de Janeiro) com “A oração do carrasco”. E também ganhou o Prêmio LeYa de 2018 com o já conhecido romance “Torto Arado”.


Itamar principal.jpg

Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe o escritor Itamar Vieira Junior que irá responder 13 perguntas.

1- Quando você começou a escrever?

Comecei a escrever exatamente quando aprendi a ler e escrever. Foi uma experiência mágica. Num primeiro momento eu costumava ler histórias, e depois as escrevia ao meu modo, com finais diferentes. Eram pequenas peças de teatro que cheguei a ensaiar com colegas de escola, nos intervalos das aulas.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Recentemente, reli uma entrevista de William Faulkner à Paris Review onde lhe fazem a mesma pergunta. Faulkner responde que nunca viu a inspiração, por isso não crê nela. A origem da palavra dom vem do latim dominus e significa “proprietário, possuidor”. Não acredito também que sejamos possuidores de nada, dada a nossa condição transitória no mundo. Talvez escrever seja uma dádiva, não no sentido de que recebemos esta habilidade por circunstâncias quaisquer, mas no sentido poético a que Marcel Mauss se referia em seu célebre Ensaio sobre a dádiva, escrito há mais de cem anos: as trocas fundamentam as nossas relações sociais. Por isso costumamos dar, receber e retribuir com o objetivo de manter essa rede de relações vitais para a nossa sobrevivência. Damos o que temos, e escrevemos para ofertar, talvez, um pouco de fruição a quem busca.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

Tenho muitas referências, autores que já não leio mais, mas que foram muito importantes em algum período de minha vida: Machado de Assis, Eça de Queirós, Lima Barreto, Jorge Amado, Dostoievski, Herman Hesse, Toni Morrison, Clarice Lispector, só para citar alguns. Todos eles, e muitos outros, influenciaram a minha escrita porque somos o que lemos, não há dúvida. Mas se pudesse indicar grandes obras que foram e continuam a ser referências para a minha escrita seriam os muitos livros de cada um desses autores, todos com uma vasta bibliografia. Sobre a poesia: tenho a mesma impressão de que ao longo de minha vida pude experimentar essa experiência sutil e intensa de ler poesia. A minha primeira paixão veio da música, dos cancioneiros dos muitos artistas que ouvi em minha infância por influência de meu pai: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Chico Buarque. Depois vieram Quintana, Drummond, Hilda Hilst, Ana Cristina César. Mais recentemente muitos estrangeiros como Maya Angelou, Wislawa Szymborska e Adonis.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica?

No Brasil há muita coisa de excelência sendo publicada. Como eu conheço muitos dos autores, posso me esquecer de algum, então, não irei citá-los. Basta procurá-los que irão encontrá-los. No exterior tenho acompanhado com especial atenção o trabalho de Chimamanda Adichie, Colson Whitehead, Marilynne Robinson, Domenico Starnone, Han Kang e Coetzee.

5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Um livro tão impactante que estou lendo em voz alta para reverenciar toda a poética e beleza da escrita da autora: O ministério da felicidade absoluta, da escritora e ativista indiana Arundhati Roy.

6- O que você já publicou até aqui?

Publiquei três livros: dois de contos e um romance. [“Dias”, em 2012, pela Caramurê Publicações; “A Oração do Carrasco”, em 2017, pela Mondrongo; “Torto Arado”, em 2019, pela LeYa e Todavia]

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Eu não tenho uma produção literária propriamente dita. Como disse na pergunta anterior, escrevi dois livros de contos e um romance. Mas já que o romance é o mais recente, que leiam o romance.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

Tenho verdadeira reverência e paixão pela forma poética, mas me arrisco pouco nesse caminho e por isso tenho sido mais leitor. Gosto muito do gênero conto, foi nele que comecei a tatear os caminhos da escrita. Tenho muito apreço pelos livros que escrevi. Como leitor e autor gosto do gênero romance porque lhe impõe o desafio de viver a construção e fruição de um cosmo particular, que se abre dentro deste cosmo maior onde habitamos.

Itamar dias.jpg

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Quando meus pais perceberam que eu vivia com a cabeça no mundo da lua, entre livros e escritos, me desencorajaram a ser escritor pelo simples fato de ser algo muito distante da vida pragmática e simples que era o pilar da nossa existência familiar. Por isso eu segui outros caminhos: me formei em geografia, fui trabalhar como professor, servidor público, e continuei com os estudos acadêmicos. A vida da escrita era uma vida paralela que nunca abandonei, porque era nela que me realizava pessoalmente. Mas o fato de garantir meios para me manter, de ter seguido outros caminhos, de ter estado em contato com outras pessoas, com outros mundos, expandiu o meu universo literário e de certa forma o enriqueceu com experiências que não eram as minhas. Me permitiu deixar o meu lugar para escrever sobre o outro.

10- Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Nenhuma arte é desprovida de intenção política. Nós somos seres políticos, ainda que acreditemos ser possível a neutralidade nessa esfera da vida humana. Mesmo os que se creem neutros são políticos. Não há nenhum conflito entre as duas coisas. A literatura de um autor deve ser avaliada por seus méritos literários. Um autor supostamente “apolítico”, que não creio existir, pode escrever um panfleto sobre sua visão de mundo, assim como um autor consciente de sua natureza política também pode fazê-lo. Essa avaliação se tem mérito, se é panfletário, será feita sobretudo pelos leitores. Quando sou instado a falar sobre literatura, falo. Quando sou instado a falar sobre os nossos problemas sociais, falo da mesma forma. Não é possível separar autor e cidadão, trata-se da mesma pessoa.

Itamar A oracao do carrasco.jpg

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

Apesar de escrever, isso não me fazia escritor. Mas penso que a primeira vez que me “senti” escritor foi quando li uma matéria de jornal que se referia a mim como escritor. Então eu disse: “se eles dizem, eu sou”.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Não me ocorre nenhuma no momento.

Itamar torto arado.jpg

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

“Torto arado” é parte de um projeto maior que se debruça sobre os conflitos fundiários no campo brasileiro. Tenho mais projetos sobre os quais venho pesquisando, anotando e escrevendo já há alguns anos. Não há prazo para concluí-lo.

Itamar fechando.jpg

Onde encontrar Itamar Vieira Junior?

Facebook: https://www.facebook.com/itamar.rangelvieirajunior/

Instagram: @itamarvieirajr

Onde comprar seus livros?

Na Todavia Livros, você clica aqui para comprar “Torto Arado”.

Na Amazon você poderá encontrar todos os livros de Itamar Vieira clicando aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Marcio Sales Saraiva