café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“Sou livre para escrever sem me preocupar em vender”, diz Ivy Menon

Nascida Ivanilda Maria Menon e rebatizada como Ivy Menon, a poeta paranaense é formada em Direito (com especialização em Filosofia e Teoria do Direito) e Teologia. Já fez parte da Academia de Letras de Maringá e hoje vive numa casinha em Rio Negro (PR), no meio do verde das araucárias, apaixonada pelos netos. Conheça um pouco mais sobre esta escritora.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe Ivy Menon que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Eu sempre gostei de estudar. Amava as aulas de redação. Me lembro que, com uns onze anos, costumava escrever cartas de amor para um menino (Nilson, ele se chamava), por quem eu estava apaixonada. Escondia as cartinhas debaixo do colchão. Um dia a mãe encontrou umas dez delas. E leu na frente de todos da família. Passei muita vergonha. Acabaram-se as cartas de amor, pelo menos pelos quatro anos seguintes. Com quinze anos, adotei o diário. E fiz meu primeiro poema. Bem rimadinho, quadradinho e muito melancólico. Entretanto, foi em Maringá, com quase vinte e um anos, já trabalhando no jornal “O Diário”, que realmente comecei a escrever. Inclusive foi com um poema que escrevi em 1979, que ganhei o concurso, em 2006, que me premiou com a publicação do meu único livro: “Flores Amarelas”. De lá para cá, não parei mais de escrever.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

Preguiçosa e desajeitada para a prática de esportes, dança ou educação física, tenho dois pés esquerdos, dois braços esquerdos e… sou destra. Possuo dezenas de canelas que tropeçam nas quinas. Assim, na pré-adolescência, fugia do horário do recreio e das aulas de handebol. Descobri ser a biblioteca do colégio, um excelente esconderijo. E li todo o acervo. Não era muito grande, confesso, mas foi o suficiente para me seduzir para as letras, para sempre.

Eu tinha concordado com meus pais em ser freira, das Irmãs Paulinas, para ser escritora. A editora delas me seduzia. Perto dos quinze anos, vieram me buscar, porém o pai mudou de ideia e disse não. Sorte a minha, acho. Logo que saí do trabalho na roça, me tornei “foca” no jornal “O Diário”, de Maringá. Depois, jornais e assessorias de imprensa, em Mato Grosso do Sul. E Seção de Imprensa, do TRT, em Cuiabá. As letras me perseguiam. Aprendi, desde cedo, dizer sim a elas. Dizem que tenho cara de sim.

Não consigo sequer me imaginar transpirando para escrever. Normalmente, coloco as mãos no teclado e escrevo, ainda que nem tenha pensado sobre um tema ou assunto. Por ter trabalhado demais, a vida toda, escrever se tornou minha alegria. Se pensasse em literatura como obrigação, tenho certeza de que jamais escreveria uma linha que fosse. Nem terapia resolveria (risos).

Creio que escrever é dom e consequência de muita leitura, mas também da prolongada, imensa e intensa experiência de sofrimento que vivi. Quando se aguenta tudo que sofremos, ou nos tornamos misericordiosos e criativos ou amargurados e secos. Creio que me coube a melhor parte.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita?

“Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamázovi”, de Dostoiévski, “Ana Karênina” de Toltói, “O quinze”, de Raquel de Queiroz, “Ilusóes perdidas”, de Balzac, “Capitães de areia”, de Jorge Amado, “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marques, “Eu”, de Angusto dos Anjos… Apenas para citar os que amo e me lembrei imediatamente.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

Inicio com alguns que não estão mais presentes, fisicamente, entre nós, porém os considero impossível viver sem: Mário Quintana, porque doce e bem-humorado, mesmo quando fala da morte. Florbela Espanca, porque escreveu só para mim. Manoel de Barros, por voar baixo, embora passarinhasse e possuísse asas imensas, e por saber das coisas da terra. Cora Coralina, por causa da simplicidade e da idade em que me encontro. Clarice Lispector, por nos representar. Hilda Hilst pela ousadia que sonho ter. Adélia Prado por me deixar absolutamente encantada. Aline Bei, por me dar esperanças no futuro da literatura. Fui apresentada, recentemente a Paulina Chiziane e me deixou comovida com a beleza da sua escrita. Amo, acima de todos, Umberto Eco, por ser e escrever tudo que eu queria escrever e ser. Por favor, me perdoem.

Também Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Maria Machado. Carolina de Jesus, Fernando Pessoa e Carlos Drumond. E, bem de perto, Angela Zanirato. Lourença Lou. Lázara Papandrea. Maria Valéria Rezende, Águeda Magalhães. Cláudia Manzolilo, Mara Magaña, Divanize Carbonieri, Nic Caradeal, Júlia Alberto, Luh Oliveira, Lia Sena, Chris Herrmann, Antonio Torres, Manoel Herzog, Rodrigo Novaes de Almeida, Jorge Küger, Wilson Guanais, Marcos Magoli, Tito Leite, Bruno Félix, Alberto Brechiani … e centenas de muitos outros maravilhosos que amo!

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

Estou lendo três livros ao mesmo tempo: “Em tudo havia beleza”, de Manuel Vilas, “O evangelho segundo Hitler”, de Marcos Peres e o terceiro, na verdade estou relendo, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkoça Estés.

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6- O que você já publicou até aqui?

Apenas um livro: “Flores amarelas”, prêmio pelo primeiro lugar em um concurso de poesia, em 2006. E arrependo-me muito de tê-lo publicado. Há mais sabedoria em ser poeta de gaveta, às vezes. Publica-se por vaidade ou por falta de noção. Creio que me enquadrei nos dois casos.

Depois da gafe de “Flores Amarelas”, publico principalmente no meu perfil do Facebook. Não aprendi, ainda, usar o Instagram. Algumas antologias, como as do Selo Flip (Festival Internacional Literário de Paraty), da Revista Ser MulherArte, além de poemas e crônicas avulsos, nas Revistas eletrônicas Mallamargens, Ruído Manifesto, Incomunidade, Literatura & Fechadura, Garimpoesia, as que me lembro, nesse momento. Provavelmente, têm outras.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Precisa me acompanhar no Face. Ou digitar meu nome no Google (risos). Por conta de eu não ter ainda um endereço pessoal para publicações, vez ou outra, pesquiso meu nome no Google e me surpreendo com publicações que eu nem sabia que existia.

8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Aprendi a ler muito cedo. Não tinha opção de leitura, durante o tempo que trabalhei na lavoura. Lia até bula de remédio, antes ter acesso à biblioteca da escola. Quando tinha doze anos, fiquei louca por “Reinações de Narizinho”. Eu já trabalhava de empregada doméstica, e minha “patroa” me emprestou a obra completa. Tenho vergonha, mas confesso: devolvi cheio de marcas de dedos sujos de terra, depois de meses. Reli muitas vezes! Foi meu amor absoluto. Também fiquei comovida com as “Aventuras de Tom Sawyer”, “Os meninos da Rua Paulo” e… toda a coleção “Vagalume”, que li no horário do recreio ou das aulas de Educação Física, considerando que a professora preferia não ter que lidar com os meus pés e braços esquerdos…

Há muito tempo, leio de tudo. Prefiro o romance. Ano passado, estava cansada de literatura universal – eu relia “O Idiota”, de Dostoievski – e decidi por algo mais leve. Então devorei mais de quatro mil páginas, em menos de dois meses, das sagas de Herry Poter e de “As Crônicas de Nárnia”, somadas a outra trilogia, também do C.S.Lewis, “Além do planeta silencioso”, fantástica, porém menos conhecida no mundo literário. Sou maluca por astronomia. Física quântica. História. Filosofia. E matemática. Vivo me chafurdando em livros, revistas, artigos, filmes e vídeos sobre esses assuntos, obviamente, os adequados para leigos como eu.

Já li muita poesia. Nos últimos tempos, tenho dado preferência apenas para as indicações e a poesia dos amigos. Um ou outro Poeta imortal.

Contos, tenho lido alguns maravilhosos, sendo os últimos livros que li, um do Garcia Márquez (“Ninguém escreve ao coronel”) e o outro de Júlio Cortázar (“Todos os fogos o fogo”). Crônicas também. Quero aprender a escrever.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Nunca pensei viver de literatura. Por conta da minha história de fome, quando precisei optar pelo “feijão ou pelo sonho”, preferi o feijão: fiz concurso público e passei. Não sou ambiciosa. Sequer queria ter casa própria. A propriedade me prende e me assusta. Não gosto de raízes. Por isso, tem sido muito bom ser aposentada, com salário fixo ao fim do mês. Tenho dignidade. Basta. Sou livre para escrever sem me preocupar em vender. Não sei vender. Sempre que penso em publicar, faço logo as contas para saber quantos livros cabem no meu orçamento e para quem vou doá-los, incluindo as despesas dos Correios. Óbvio que gostaria muito de ser lida. E de ganhar os prêmios Jabuti, Oceanos e Camões. Sonhar pode, não é? (risos).

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Meu pai estudou apenas até a terceira série primária. Ele se revezava entre os trabalhos de “gato” de boias-frias (agenciador de trabalhadores rurais avulsos), saqueiro e farmacêutico prático, além de ser porta-voz do candidato a prefeito do MDB, único partido de oposição durante a ditadura militar. O palanque, nos dois últimos anos que morei em Rancho Alegre (PR), era a varanda de madeira da nossa casa, na lateral da Praça da Matriz. Além de “gritador de leilão”, nas quermesses, o pai fazia os acalorados discursos para os políticos locais. E eu amava. Aprendi as estratégias políticas com eles… jogando truco e “três-sete” (os italianos entenderão).

E sabemos que tudo é política. Todas nossas escolhas, indiferenças, deboches e mesmo quando somos “maria-vai-com-as-outras” ou nos acovardamos e optamos por ficar em cima do muro, tudo se torna uma escolha política. Somos seres sociais/políticos e, isso, naturalmente, se reflete nas Artes. Tenho preferência pela visão progressista de esquerda. Sou cristã, o que, pode parecer incoerente, no atual cenário político brasileiro. Então, penso que escrevo como cristã de esquerda (crentona-comunista rsrsrs).

11- Em que momento da vida você sentiu... “eu sou escritora”.

Nunca. Um horror, para mim, isso de dizer que sou escritora. Sou tímida demais para tanto. Li que o maior medo do Mário Quintana era que seu último poema fosse “tão ruinzinho quanto o primeiro”. Ora, se o grande Quintana sentia medo de escrever besteiras, imagina eu! Sou minha maior crítica. Depois de alguns meses, releio e até consigo gostar deles, os coitadinhos dos meus escritos. Penso: “e não é que até ficou bonitinho”. Isso é meu máximo de consciência de ser escritora.

Tenho apenas um livro: “Flores amarelas”, prêmio pelo primeiro lugar em um concurso de poesia, em 2006. E me arrependo muito de tê-lo publicado. Há mais sabedoria em ser poeta/escritor de gaveta, na maioria das vezes. Também se costuma publicar por vaidade, imaturidade ou falta de noção mesmo. Creio que me enquadrei nos três casos.

12- Quanto à literatura feminina, o que mudou?

As conquistas femininas são tão recentes que não tem como separar aquelas conseguidas na literatura das demais. A igualdade ainda é um sonho, também na literatura. No entanto, com o advento da internet, também a escrita de autoria das mulheres ganhou espaço. Os homens são maioria, mas a consciência e a oportunidade de se juntar em grupos especiais para divulgar a literatura feminina, tem feito com que a voz das mulheres seja divulgada. Temos conquistado espaços jamais imaginados e com velocidade própria da era digital. Não só para nós mulheres, como também para as minorias políticas – como LGBTI, negros e outras – ignoradas durante toda a história do Brasil. Lutar pela literatura feminina é brigar também pela igualdade de gênero.

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13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Tenho material para uns quatro livros, pelo menos. Não sei se quero publicar. Têm dias que sim. Outros não. E olha que nem sou bipolar… acho! rsrsrs

Deixe uma poesia, frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”.

NOVA SINA*

  • as rugas de sua fronte
  • e os dedos em riste
  • são rios
  • carregam histórias
  • margens ribeiras
  • barrancos tortos
  • sustentam comboios de linhas
  • carretéis de esperança
  • contêm horizontes
  • os calos de suas mãos
  • montanhas de esquecimentos
  • sombras de morte
  • dúvidas
  • lábios
  • gritam terras cavadas
  • covas abertas
  • a sonhar sementes
  • e chuvas serôdias
  • colheitas escondem-se em seus lombos
  • e seus olhos
  • seus olhos discorrem dores
  • carregam o pó da estrada
  • e militam a própria vida
  • há de ser que um dia
  • a vida valha a pena
  • e de si a pena componha nova sina

*Poema classificado entre os finalistas no Prêmio Off Flip 2018.

MENINO*

  • - vive, menino!
  • e o menino ri
  • samba no sapato grande maior que o pé
  • - anda, menino!
  • e o menino corre
  • voa, vira bala
  • ladeira abaixo
  • ri, menino!
  • e o menino deita-e-rola
  • e amolece e gargalha
  • e o nariz escorre
  • - fala, menino!
  • e o menino cala
  • emudece
  • empaca
  • faz pirraça
  • - come, menino!
  • e o menino cospe
  • faz pouco
  • vomita no prato raso de refeição
  • - cresce, menino!
  • e o menino chora
  • esbraveja
  • sapateia
  • esperneia
  • mas obedece
  • e cresce
  • e morre o menino!

*Poema que escrevi em 1979, premiado em 2006, no Rio de Janeiro, na ABL.

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Onde encontrar Ivy Menon?

Facebook, entre aqui.

Instagram: @menon_ivy

E-mail: [email protected]


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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