café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições).

“As boas oficinas de escrita são fundamentais”, defende o escritor José Fontenele

Escritor e jornalista, José Fontenele lançou um romance, “Natureza morta”, de qualidade primorosa. Ele é um profeta da leitura, defensor apaixonado da escrita, organizador do Clube do Livro da Zona Oeste e da primeira Feira Literária da Zona Oeste. É sócio da empresa Álbum de Memórias e escreve na Revista Revestrés.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe José Fontenele para responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

José Fontenele: Comecei escrevendo poemas que rimavam “bola e escola, amor e dor” aos dez anos. Tinha um caderninho pequeno onde anotava tudo. Depois, principalmente por conta das leituras dos livros de crônicas do Verissimo, passei também a escrever crônicas adolescentes de uma página, uma página e meia, no máximo. Mas nunca pensei em ser escritor. Cursei Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), procurei trabalhar em jornais de Economia e Política, mas em 2013, quando me formei, foi o início das demissões em massa na profissão de Jornalista. Muitos na rua, não consegui qualquer oportunidade na área. Nesse mesmo ano tive a pulsão de escrever uma história enquanto buscava algo no Jornalismo. Escrevi uma história de Ficção Científica, mas não cheguei ao final. No ano seguinte uma nova pulsão: escrevi um thriller de 300 páginas em 100 dias, chamado “O Ralo da Consciência”. Enviei o original ao meu antigo professor de Português do curso pré-vestibular. Ele mandou de volta com a seguinte indicação “Merece ser publicado”. A partir daí comecei a enxergar possibilidades na escrita. Voltei ao RJ em 2015 e consegui emprego em uma agência literária. Daí em diante, passei a levar mais a sério o ofício de escritor.

2-Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

JF: Escrita é trabalho duro. Um texto é trabalhado dezenas de vezes (algumas, até o esgotamento físico ou psicológico do escritor) até estar completamente pronto para ser publicado. Essa releitura, reedição, reescrita, podem ser exaustivas e durarem dias, meses ou anos. Acredito que dom seja muito mais uma espécie de propensão do candidato a escritor às características que o trabalho de escrita e leitura exigem. E não apenas leitura tradicional, o olhar do escritor deve estar atento para encontrar técnica e ferramentas de escrita por trás da beleza das histórias. Por isso é um trabalho tão longo, há pessoas que dedicaram/dedicam a vida inteira para tal.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita

JF: As minhas referências são principalmente leituras de romances e contos. Entre os mortos, Machado de Assis o primeiro. Depois dele Clarice Lispector, Jorge Luis Borges, Truman Capote, Kafka, Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna, Philip K. Dick, David Foster Wallace, Aldous Huxley, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Campos de Carvalho, Gay Talese, José J. Veiga, Murilo Rubião, Hilda Hilst, Augusto dos Anjos, Gabriel García Márquez, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca.

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4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica, entre os contemporâneos, para as pessoas lerem?

JF: Salman Rushdie, Conceição Evaristo, Chimamanda Ngozi Adichie, Valter Hugo Mãe, Ana Paula Maia, Daniel Galera, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Gilian Flynn, Elena Ferrante, Paul Auster, João Anzanello Carrascoza, Raduan Nassar, Irvine Welsh, Sheyla Smanioto, Raimundo Carrero, Murakami, Braulio Tavares, Mia Couto, Bernard Cornwell, Chuck Palahniuk, Ursula K. Le Guin, são ótimas indicações de leituras.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

JF: Estou lendo “Consider This”, um livro do Chuck Palahniuk sobre escrita e histórias de escritores. Em paralelo, “Fanfic”, de Braulio Tavares e “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar”, de Irvine Welsh.

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6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar?

JF: Em 2014 autopubliquei o thriller “O ralo da consciência”; depois escrevi resenhas em sites variados de literatura (recomendo sempre para amigos que escrevem); em 2017 participei como organizador e escritor da coletânea “Clube da Leitura Vol. IV” (Rubra); em 2018 participei da FLUP (Festa Literária das Periferias), com um conto na coletânea “80 anos, devagarinho — Conta forte, conta alto”, em homenagem ao Martinho da Vila; naquele ano também passei a publicar textos sobre Literatura e Artes na Revista Revestrés. Em 2019 lancei “Natureza Morta”, meu primeiro romance. Há muitas formas de publicação, desde as mais fáceis (como resenhas em sites, blogs etc), até mais complicadas (livros, antologias, revistas etc), então fica a critério do escritor investir tempo e atenção para o propósito que deseja.

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7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

JF: Recomendo pelo romance “Natureza Morta”, é o trabalho mais recente. Ou pelos textos da Revista Revestrés, que pode ser adquirida pelo site http://www.revistarevestres.com.br/

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance?

JF: Leio de tudo, muita coisa, de todos os gêneros. Para a escrita, guardo fôlego para narrativas longas e vez ou outra, contos. Tento poesias como exercícios despretensiosos.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

JF: Na universidade, alguns professores diziam que embora não conseguíssemos um emprego em Jornalismo, com certeza aprenderíamos algum ofício lá dentro. Deu muito certo. Sempre solucionei problemas financeiros com habilidades de jornalismo e/ou literatura. Quando voltei ao RJ, em meados de 2015, fui trabalhar em uma agência literária; depois em 2018, passei a trabalhar para a Revestrés; em agosto daquele abri e passei a dar aulas na (agora online e com matrículas abertas), Oficina de Escrita CLZO. Em agosto de 2019 (um mês após o lançamento do “Natureza Morta”), saí da agência literária e fundei, junto com meu amigo, sócio, também escritor e jornalista, Bruno Flores, uma empresa de escrita sob demanda (ghostwriting) chamada “Álbum de Memórias”. Em paralelo fiz/faço serviços de revisão, diagramação, serviços editoriais etc. No fim, é possível pagar as contas e visitar Minas com a minha esposa.

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10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político, outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

JF: Acredito que toda Literatura é política. O maior exemplo disso é que em todos os governos autoritários, os escritores/artistas são sempre os primeiros a serem censurados. Alguns autores enxergam isso com mais clareza e trabalham causas sociais em seus livros, e outros não. Contudo, o dilema é que ao mesmo tempo em que expor a realidade do país possa ser uma espécie de dever de todo escritor, por excelência, a arte não tem qualquer obrigação. Ou seja, não é possível jogar pedras no autor que ignora o momento ou as questões sociais do país. Cada autor(a) tem sua consciência como juiz desse posicionamento ou não. Prefiro o engajamento.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritor”.

JF: Desde meados de 2018, quando estava participando de uma importante oficina de escrita, trabalhando na agência literária e também na revista Revestrés, escrevendo resenhas, planejando a oficina de escrita na Zona Oeste e começando a escrever as primeiras páginas do “Natureza Morta”.

12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

JF: Se as oficinas de escrita são válidas ao escritor. Com certeza. Na verdade, as boas oficinas de escrita são fundamentais para o escritor entender mais sobre o próprio ofício e melhorar a produção literária. E claro, podem fornecer um ambiente de companheirismo para remediar a solidão da escrita.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

JF: Estou escrevendo um livro de não-ficção desde meados do ano passado. É um projeto que será publicado em 2021, já com editora certa. Não posso falar muito ainda. Em setembro começo outro livro de não-ficção para publicação em 2022. E em março/abril do próximo ano, acredito que começo meu próximo romance.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

“Pareceu-me um porco o doutor que entrara no leito. Tão gordo, viera de lado encolhendo a barriga nada modesta. O focinho era rosáceo, bem cuidado, com bochechas grandes envernizadas, orelhas corpulentas caídas, papada encobrindo o pescoço e o olhar transversal próprio aos médicos. Atrás dele um porquinho semelhante, embora de menor tamanho e com a pança contida. Os dois vestiam jalecos impecavelmente brancos e o menor carregava uma prancheta perto do peito. Cumprimentei-os com a devida cautela dos pacientes e perguntei por minha esposa. Qual o diagnóstico? Mas eles nada me responderam. Quando finalmente disseram algo, ouvi grunhidos estridentes de um idioma bárbaro. Pedi que repetissem, mas o médico-porco torceu o rosto e não disse nada. Ele conferiu os aparelhos, os remédios sobre a cabeceira, e grunhiu algumas coisas ao assistente, que anotava tudo. Eu nada entendia. Essa linguagem da Medicina me pareceu muito exótica. Subitamente deixaram o leito e voltei a ficar sozinho com Laura.

Nunca conheci alguém vítima de overdose.”

Trecho inicial do romance “Natureza Morta”.

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Livros e textos de José Fontele:

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Revista Revestrés, leia aqui.

Álbum de Memórias. Conheça aqui. https://albumdememorias.com.br/


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo Edições). .
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