café pósmoderno

Literatura, sociedade, psicologia e política.

Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo).

“Escrever tem sido um exercício de cidadania”, diz a “diva gay” Katia Viula

Katia Viula é graduada em Letras e fez pós-graduação em tradução. Ela é lésbica e ativista do movimento LGBTI. E foi como "arma de luta" que ela passou a escrever poesias e, mais recentemente, contos. Sua escrita é reflexo de seu engajamento social.


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Nosso CAFÉ PÓS-MODERNO recebe a poeta Katia Viula que irá responder 13 perguntas e deixar um fragmento.

1- Quando você começou a escrever?

Em 2007, escrevi três poemas, mas a grande inspiração poética começou mesmo em meados de 2014, quando produzi mais de cinquenta poemas. Em dois anos, já eram mais de duzentos poemas, a maioria de cunho LGBT.

2- Escrever é um dom ou consequência de muita leitura e transpiração?

No meu caso, não sei se foi dom, muito menos consequência de muita leitura específica. Até porque nunca fui de ler muita poesia, apesar de este ser o gênero textual em que melhor me enquadro. Enfim, escrever tem sido muito mais um exercício de cidadania; de liberdade de expressão; de direito de ser, trabalhar e conhecer minhas emoções; e de participar desse momento histórico de inserção de personagens, protagonistas, prosa e versos LGBTs no universo literário brasileiro, momento que foi alavancado pelas pioneiras Editoras Malagueta, Metanoia e tantas outras. Senti, portanto, a necessidade de escrever para dar vez e voz a pessoas como eu que precisavam ter esse sentimento de pertencimento ao universo literário brasileiro e também para combater o preconceito. Alguns poemas fluíram rapidamente, no entanto outros me custaram muita transpiração.

3- Quais os “clássicos” da literatura você mais admira? Quais autoras e autores influenciaram tua escrita? Prosa e/ou poesia:

Na prosa, admiro o romantismo e realismo de Machado de Assis, nas obras: “Helena” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e nos contos: “O Alienista” e “A Igreja do Diabo”. Além de Machado, obras que me impactaram foram “O Cortiço” de Aluízio de Azevedo, “Lucíola” de José de Alencar, “A hora da estrela” de Clarice Lispector e o poema “Uma faca só lâmina” de João Cabral de Melo Neto. Toda essa leitura acadêmica [canônica] e muitas outras, como o “Soneto da felicidade” de Vinícius de Moraes e “Via Láctea” de Olavo Bilac, além da literatura LGBT do século XXI, contribuíram de alguma forma com a escrita simples e espontânea – ora romântica ora irônica, ora bem humorada ora agressiva – da minha poesia e dos meus contos.

4- E na cena literária atual... Quem você já leu e gostou muito? Quem você indica?

Livros com temática LGBT que foram lançados nos últimos quinze anos e que me impactaram foram: “All Star Xadrez” de Damdara Pinheiro, “Sam & Jessy” de Priscila Cruz, “Daniela & Malu, Uma História de Amor” de Daniela Mercury & Malu Verçosa, “AMA/DOR/A”, poesia de Diedra Roiz, “O suave tom do abismo” de Diedra Roiz e “Frente e Verso” de Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich. Não posso deixar de mencionar a poesia de Cassandra Rios tão pouco divulgada, mas de excelente qualidade com a qual tive contato em 2017. Contudo, os livros que mais me influenciaram, porque foram os primeiros que li desse segmento literário e que me motivam a escrever, foram: “Elas contam”, contos lésbicos, lançado pela Editora Malagueta e “Quando florescem as Orquídeas”, romance de Elaine Guimarães, lançado pela Editora Metanoia. Indico todas essas leituras.

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5- Neste momento, qual é o livro que você está lendo?

No momento, a forma de arte à qual estou me dedicando mais é a música. Estou aprendendo violão e já toco algumas músicas. Encontrei na música uma forma de terapia para sobreviver ao momento político e pandêmico que estamos atravessando. Entretanto, também estou lendo livros diversos que não se encaixam nas classificações: romance, poesia e contos. Entre eles: “Mitologia, 50 conceitos e mitos fundamentais explicados de forma clara e rápida” editado por Robert A. Segal, “Feminismo em comum para todas, todes e todos” da autora Marcia Tiburi e “A história da humanidade contada pelos vírus” de Stefan Cunha Ujvari.

6- O que você já publicou até aqui? Foi difícil publicar, sendo mulher?

Meu livro impresso é o “DivaGay” que foi publicado pela Editora Metanoia. Trata-se de uma reunião de poemas de cunho LGBT que celebram o amor, o desejo, o prazer na sua pluralidade e a emancipação sexual feminina, além de combater a Lgbtfobia. Alguns poemas também tratam dos dramas e conflitos interiores enfrentados pelas pessoas LGBT e outros poemas contém protestos e reivindicações. Ser mulher e decidir escrever sobre a emancipação sexual feminina e a homossexualidade não foi fácil. Precisei reinventar-me e romper com as convenções impostas por nossa sociedade machista e pela formação religiosa tradicional que tive, mas valeu a pena. Foi um ato cidadão.

7- Se alguém deseja conhecer sua produção literária, você recomenda começar por onde?

Sugiro o meu e-book de contos lésbicos para que a pessoa possa entender melhor: o que me motivou a escrever, o processo de reconhecimento da minha homossexualidade e o momento da saída do armário. Este e-book “Ela conta tudo...” está disponível na Amazon/Kindle. Nessa plataforma, basta colocar o meu nome que os outros e-books, os de poesia, estarão disponíveis também. Porém, se a pessoa preferir poesia e gostar de sentir o cheirinho das páginas, sugiro que adquira o livro “DivaGay” com a Editora Metanoia. A propósito, acabei de saber que “DivaGay” está com um desconto de vinte por cento no link da Editora [ver no final dessa entrevista todos os links].

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8- Prosa ou poesia? Conto, novela ou romance? Quais são as suas preferências de leitura e de trabalho literário.

Todos têm o seu valor e o seu espaço, dependendo do estado de espírito de quem lê, do tempo disponível para leitura e do desejo do momento. Na literatura LGBT, li mais prosa que poesia, até porque acho que têm mais livros de romance e contos que poemas. A minha preferência atual tem sido conto e poesia porque são leituras breves, contudo ricas em possibilidade de reflexões e emoções. Meu trabalho literário consiste em contos e poesia por esta razão, pois tanto o conto quanto o poema é uma obra completa em si própria, obra curta que pode despertar o interesse até mesmo da pessoa que não tem o hábito de leitura ou que enxerga a leitura extensa como um fardo.

9- Se ainda não dá para viver só de literatura, como você sobrevive?

Nunca tive a pretensão de viver só de literatura. Como disse anteriormente, escrevo como um exercício da cidadania, mas também de libertação de tradições patriarcais e dogmas religiosos que me oprimiram por muitos anos. Sou professora de inglês, graduada em Letras (inglês e literaturas) pela UERJ e pós-graduada em Tradução pela UGF, servidora do Estado e do Município do RJ, mantendo-me, portanto, com recursos da educação.

10- Algumas escritoras e escritores fazem depoimentos de cunho político outras defendem a “arte pela arte”, uma autonomia entre fazer literatura e o contexto sociopolítico. Em sua opinião, qual a relação entre arte (ou obra literária) e a política?

Acho que é possível fazer arte apenas pela arte. Tenho alguns poemas que se enquadram nisso, contudo há momentos em que é impossível desvincular a obra literária do contexto sociopolítico, principalmente quando determinados temas estão sendo trabalhados. Todos os meus e-books e o livro de poesia tratam de temas que estão inseridos no contexto sociopolítico do momento em que foram escritos. Meu engajamento é com a celebração do amor, desejo e prazer em sua pluralidade; com a emancipação sexual feminina e com as causas sociais, como: o combate à lgbtfobia, misoginia, machismo e racismo; a redução das desigualdades sociais; entre outros.

11- Em que momento da vida você sentiu: “eu sou escritora”.

Nunca me senti uma escritora. Enxergo-me como uma cidadã que ousou trilhar principalmente pelo caminho da poesia – embora tenha um e-book de contos – como instrumento de visibilidade para o universo LGBT e de protesto contra as injustiças sociais e o preconceito.

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12- Qual é a pergunta que você gostaria de responder e eu não fiz?

Quem quiser saber mais sobre o meu trabalho pode procurar a página “Literatura LGBT” por Katia Viula no Facebook. Lá, você pode encontrar alguns poemas e contos meus gratuitamente. Acho importante destacar que parte do meu e-book “Subversos, o amor e o tesão” (poesia lésbica) esteve disponível na plataforma Wonderclub onde eu publicava um poema por semana. Porém, com o encerramento das atividades da plataforma, resolvi lançar o ebook completo na plataforma Amazon. Portanto, quem conheceu parte do meu trabalho no Wonderclub e tiver interesse em concluir a leitura poderá fazê-lo pela Amazon/Kindle.

13- Qual é seu próximo projeto literário? Ainda este ano?

Não pretendo lançar nenhum livro ou e-book este ano. Este momento conturbado que estamos vivendo tem sido um período difícil em que estou dando toda assistência possível aos meus pais que são idosos e requerem cuidados. Além disso, minha companheira vai passar por uma cirurgia por esses dias. Então, decidi usar o tempo livre para reflexões, aulas de violão como terapia musical e para me reinventar.

Deixe uma frase ou fragmento de texto de sua autoria para quem leu esta entrevista fazer uma “degustação”...

O amor percorre as minhas veias;

O desejo, as minhas entranhas.

O prazer entranhado em minhas teias,

Torna íntimas no orgasmo duas estranhas.

Quero ser as pétalas sobre o teu leito,

A pena que desliza em teu papel,

O colar esbarrando em teu peito,

O brilhante que cintila em teu anel.

Quero ser o tempero em teu cardápio,

A degustação no almoço e no jantar,

O sorriso nos teus lábios,

Ser teu cume e teu patamar.

Quero ser teu sal e teu mel,

O sabor no teu paladar,

A pimenta que dá vida ao teu céu,

Aquela que te faz sonhar.

Sentimento que flui Do e-book Subversos, o amor e o tesão

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Onde encontrar Katia Viula?

Facebook: Katia Viula ou Literatura LGBT por Katia Viula (fanpage)

Instagram: Katia Viula

E-mail: [email protected]

Seus livros:

Meu trabalho literário consiste em três e-books e um livro impresso. Meus e-books estão disponíveis na plataforma Amazon/Kindle e o livro “DivaGay” pode ser adquirido no site da Editora Metanoia.

1) “Ela conta tudo...”: O e-book é uma reunião de contos lésbicos, sendo alguns inspirados em experiências vividas por mim. Pode ser adquirido aqui.

2) “Controversos: poesia contemporânea”: É um e-book que reúne poemas com temas variados e atuais. Pode ser adquirido aqui.

3) “Subversos, o amor e o tesão”: Trata-se de um e-book de poesia lésbica com teor ora romântico ora erótico e com nuances de humor. Adquira o seu aqui.

4) "DivaGay": É o meu único livro impresso, publicado pela Editora Metanoia e pode ser adquirido aqui.


Marcio Sales Saraiva

Marcio Sales Saraiva é escrevinhador. Autor de “O pastor do diabo” (Metanoia, 2017) e organizador da antologia “16 contos insólitos” (Mundo Contemporâneo Edições, 2018), recentemente lançou seu “Engenho de Dentro e outros contos de aprendiz” (Mundo Contemporâneo). .
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